Quem sobra depois da Odebrecht

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O ministro Edson Fachin esperou Marcelo Odebrecht abrir o bico para liberar áudios e vídeos das delações premiadas. Apenas as falas da Odebrecht já complicaram vários políticos. A passar por todas as esferas: dos municípios à nação, tem de tudo. Setenta e oito executivos e ex-executivos do grupo serviram de base para a “lista do Fachin”. Liberada no dia 11 de abril, eram 29 senadores, 42 deputados federais e nove governadores.

O governo Temer ficou enrolado até o pescoço, nove ministros compunham a lista com 108 pessoas em 83 inquéritos. A PGR pediu investigações contra os ministros Eliseu Padilha (PMDB), da Casa Civil, Moreira Franco (PMDB), da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Kassab (PSD), da Ciência e Tecnologia, Helder Barbalho (PMDB), da Integração Nacional, Aloysio Nunes (PSDB), das Relações Exteriores, Blairo Maggi (PP), da Agricultura, Bruno Araújo (PSDB), das Cidades, Roberto Freire (PPS), da Cultura, e Marcos Pereira (PRB), da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Padilha e Kassab responderão em duas investigações, cada. Os senadores Aécio Neves (MG), presidente do PSDB, e Romero Jucá (RR), presidente do PMDB, são os políticos com o maior número de inquéritos a serem abertos: 5, cada. O senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ex-presidente do Senado, vem em seguida, com 4. Isso só no STF. Fachin já passou nomes à primeira instância – onde o juiz Sérgio Moro dá as sentenças –, caso de Lula e Dilma, e para o STJ os nomes dos governadores.
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O volume de trabalho é tão grande que foi necessário dividir os inquéritos com outros ministros da Corte. Os casos que sairão do gabinete de Fachin não têm relação direta com a Petrobras, e tratam de outros episódios de corrupção relatados pelos delatores da Odebrecht. Os ministros cogitam montar forças-tarefas em seus gabinetes só para cuidar dos casos decorrentes da empreiteira. Quarenta por cento dos novos inquéritos abertos a partir da delação premiada dos ex-executivos sairão das mãos de Fachin.

Nas mãos de Moro ficaram 38 petições, caberá a ele decidir por autorizar a abertura de inquérito ou o arquivamento do caso. Nomes como Lula, Dilma, Palocci, Cunha e Mantega estarão a cargo do juiz. O ex-ministro petista, Antonio Palocci, disse que tem muito material e agora, como todo mundo, quer o bem do país. “Acredito que posso dar um caminho, que talvez vá dar um ano de trabalho, mas é um trabalho que faz bem ao Brasil”. Palocci também disse que vai entregar todo o sistema financeiro, ou seja, os bancos. “Fico à sua disposição hoje e em outros momentos, porque todos os nomes e situações que eu optei por não falar aqui, por sensibilidade da informação, estão à sua disposição o dia que o Sr. quiser. Se o Sr. estiver com a agenda muito ocupada, à pessoa que o Sr. determinar, eu imediatamente apresento todos esses fatos com nomes, endereços, operações realizadas e coisas que vão ser certamente do interesse da Lava Jato.”

Dos que escaparam das garras de Moro e dependem do bom humor do STF, 68,4% são acusados de cometer crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, cujas penas, somadas, podem chegar a até 22 anos de prisão. Os restantes são acusados de crimes de falsidade ideológica eleitoral — deixar de informar à Justiça sobre uma doação recebida, prática conhecida como caixa dois —, cuja pena máxima é de cinco anos de prisão.

Assim caminha o nosso sistema político. Parece que todo mundo está envolvido numa picaretagem para se dar bem. Os legisladores que, supostamente, salvariam o Brasil com o impeachment de Dilma dão engulhos. Sete em cada dez senadores e deputados federais que viraram alvo de inquérito ou são citados na planilha de caixa dois da Odebrecht votaram pelo “sim” no impeachment com a promessa de novos rumos e esperança de um futuro melhor, sem contar as duras críticas à corrupção. O empreiteiro Marcelo Odebrecht disse que todos os políticos trabalham com caixa dois nas campanhas eleitorais. “Todo mundo sabia que tinha caixa dois”, afirmou Odebrecht, em depoimento. “Eu não conheço nenhum político no Brasil que tenha conseguido fazer qualquer eleição sem caixa dois. Não existe ninguém no Brasil eleito sem caixa dois. O cara pode até dizer que não sabia, mas recebeu dinheiro do partido que era caixa dois.” Seu pai, Emílio, afirmou que a prática acontece há pelo menos 30 anos. “Por que começaram só agora? Todo mundo sabia disso, a imprensa sabia, e agora ficam com essa demagogia.”
Emilio Odebrecht, Presidente do Conselho de Administracao da Odebrecht
E mesmo a saber que todo mundo sabia e com os avanços significativos da Lava Jato o seu Emílio só deu a ordem para acabar com os repasses de propina após seu filho ser preso. Isso foi um ano e três meses depois da primeira operação da Lava Jato. “Os compromissos que existiam estavam mortos”, disse o patriarca.

LULA
Outra parte interessante do depoimento de Emílio diz respeito a como o PT e Lula trabalharam pelo país, eles que vendem um nacionalismo barato e uma defesa da nação se esforçaram contra a Petrobras. “Compreendo que nossa presteza e o nosso volume de pagamentos feitos a pretexto de contribuição para campanhas eleitorais colaboraram para a continuidade da privatização no setor petroquímico e nas decisões que tanto o ex-presidente Lula quanto outros integrantes do PT tomaram durante sua gestão, que foram coincidentes com nossos interesses e fundamentais para o crescimento e consolidação da Braskem”, ou seja, Lula e o PT contribuíram com o setor privado petroquímico para tirar trabalhos da maior estatal brasileira que eles aos quatro ventos acusam FHC de tentar privatizar.

Para o Ministério Público Federal o que reforça crer que Lula é o comandante máximo deste esquema é o seu monitoramento pelo menos desde 2010 do propinoduto. Eis como funcionava: quem entrava em contato com Lula a informar a quantidade de propina repassada era Emílio. Marcelo tratava com Palocci (o “Italiano”). E Palocci reafirmava a Lula o que Emílio já tinha dito. Isto aqui parece a Quadrilha de Drummond, mas calma (coitado do Drummond nessa). Marcelo nunca tratou com Lula, apenas com Palocci. Além de Emílio, o ex-executivo Alexandrino Alencar era usado para fazer a “ponte” com Lula, que monitorava o propinoduto. Assim estava feito. “Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.”

Certa vez, depois do balanço da propina, Marcelo passou o dado a seu pai para repassar a Lula. “Foram R$ 200 milhões, pai”. E seu Emílio passou para Lula. “Foram R$ 200 milhões, Lula”. Depois disso, numa conversa entre Palocci e Marcelo, o ex-ministro disse: “Recebemos o balanço, foram R$ 300 milhões, né?!”. Palocci queria lucrar 100 milhões em cima da propina, mas Marcelo estava sabido das coisas e o corrigiu imediatamente. “Foram 200”.

Ora, Marcelo passou a informação a seu pai para repassá-la a Lula. A prova de que o ex-presidente sabia da propina é que Palocci chegou com a informação, logo após Lula receber a notícia de Emílio, passou para Palocci que foi confirmar com Marcelo, o ponto original. Isto é apenas um dos pontos citados por Marcelo.
Lula
É claro que tem mais, não é só isso. O empresário Léo Pinheiro, sócio da OAS, disse em audiência em Curitiba que o presidente Lula pediu para ele destruir provas sobre propinas que a empreiteira pagou ao PT. Segundo Pinheiro, Lula e ele discutiram sobre propina em maio de 2014, dois meses depois de a Operação Lava Jato ter sido iniciada. Lula teria perguntado se a OAS pagava propina ao PT no Brasil ou no exterior, segundo o relato feito pelo empreiteiro. Léo respondeu que pagava no Brasil, tudo segundo o empresário.

O ex-presidente questionou se ele mantinha os registros dos pagamentos feitos ao tesoureiro do PT à época, João Vaccari Neto. O empresário disse que mantinha. Foi nesse momento, segundo Léo Pinheiro, que Lula disse para ele destruir tudo já. A pergunta sobre a discussão de propina com Lula foi feita pelo advogado do petista, Cristiano Zanin Martins. Após a resposta de Léo Pinheiro, Martins ficou quieto. Léo Pinheiro não confirmou se destruiu ou não as provas.

E é claro que há mais, sempre há mais. Há aquelas pessoas que são ligadas a Lula ou ao PT e que pediam em nome do partido ou do ex-presidente. Caso de Edinho Silva que, quando se tornou tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff em 2014, pediu doações por meio de caixa dois para cinco partidos apoiarem a chapa Força do Povo, no valor de R$ 7 milhões cada. Os partidos que receberam as doações ilegais foram, segundo o ex-diretor da Odebrecht Alexandrino Alencar, PCdoB, PDT, PRB, PROS e PP. O tamanho do esquema não cabe no gibi, no jornal, na revista.

Apesar disso tudo, Lula tem chances altas de voltar ao Palácio do Planalto se não for preso. Os brasileiros sentem saudades do tempo de Lula. Todo mundo tinha carro e cartão de crédito. Emprego aos montes. E a economia era sólida. O ex-presidente conseguiu jogar a responsabilidade dos maus tempos petistas nas costas de Dilma, que fez tudo errado, tadinha. A última pesquisa Ibope mostrou o aumento do número de eleitores que dizem que votariam em Lula: 30%, ou os que poderão votar nele: 17%. E a rejeição caiu 14% desde 2015. “Vamos esperar o tempo passar, para a gente saber quem é que pode ser candidato, se eu posso ser candidato, se não posso ser candidato”. São palavras de Lula. Tudo vai depender de sua passagem pelo juiz Sérgio Moro, em Curitiba, para responder no processo da Lava Jato.

PARANÁ
A Odebrecht enrolou alguns políticos paranaenses, uns mais, outros menos. Abelardo Lupion (DEM-PR), atual presidente da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar), foi acusado de receber R$ 250 mil; Ademar Traiano (PSDB), atual presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, com o apelido “Praia”, foi acusado de receber R$ 50 mil; André Vargas, ex-deputado federal pelo PT, agora sem partido e preso e já condenado na Operação Lava Jato, com o apelido “Parente”, recebeu R$ 75 mil; Cida Borghetti (PP), atual vice-governadora do Paraná, com o apelido “Princesa”, recebeu R$ 50 mil reais, no ano em que foi eleita deputada federal; Durval Amaral, atual presidente do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), apelido “Amarelou”. Dois pagamentos, num total de R$ 120 mil, no ano em que foi eleito deputado estadual pelo DEM; Gustavo Fruet (PDT), ex-prefeito de Curitiba, com o apelido “Dentuço”. Dois pagamentos num total de R$ 200 mil, entre 2010 e 2012. Ele foi deputado federal até 2010, concorreu ao senado e, depois, foi eleito prefeito de Curitiba. Luiz Carlos Hauly (PSDB), deputado federal, com o apelido “Decodificado” recebeu R$ 50 mil; e Plauto Miró (DEM), deputado estadual, com o apelido “Grosseiro”, R$ 50 mil. Zeca Dirceu recebeu R$ 250 mil. Com exceção de Fruet e Lupion que receberam também em 2012, todos os políticos receberam seus pagamentos em 2010. Osmar Dias também foi citado indiretamente, mas o caso aqui aplicado é que ele recebeu repasse do fundo partidário, o que é legal. A acusação feita é que o PDT nacional teria recebido dinheiro de caixa dois.
Reunião da CCJ do Senado
O governador Beto Richa foi citado em duas listas, nesta de Benedicto Barbosa da Silva Junior, ex-executivo da Odebrecht, e na lista de Fachin. No entanto, o próprio Benedicto afirmou que não houve qualquer pedido do governador ou contrapartida à empreiteira nas doações feitas às suas campanhas.

Há também o caso de Gilberto Carvalho que pediu à Odebrecht em nome da irmã, a ex-ministra do Desenvolvimento Social Márcia Lopes, R$ 200 mil para disputar a campanha de Londrina. Lopes declarou R$ 2,9 milhões, a empreiteira não apareceu entre os doadores oficiais, quem confirmou o repasse foi Alexandrino Alencar, já citado anteriormente.
O caso mais emblemático, pela quantia de dinheiro, é o de Gleisi Hoffmann. A senadora atendia pelos codinomes “Coxa” e o comprometedor “Amante”. Os delatores da Odebrecht afirmaram à Operação Lava Jato que Gleisi “Coxa” Hoffmann recebeu R$ 5 milhões de caixa dois em sua campanha ao governo do Paraná, em 2014. Os repasses foram feitos a pedido do marido, Paulo Bernardo, à época ministro dos governos Lula e depois Dilma. Já Gleisi “Amante” Hoffmann apareceu na planilha da Odebrecht a receber R$ 150 mil em 2008, R$ 450 mil em 2010 e R$ 3,5 milhões em 2014.

Já Paulo Bernardo aparece em duas situações de destaque. Recebeu R$ 934 mil “em dinheiro vivo” da empreiteira para incluir a obra da linha 1 da Trensurb, no Rio Grande do Sul, no PAC, afirmou Benedicto Júnior. E intermediou para Lula um repasse de US$ 40 milhões em troca da aprovação de um financiamento bilionário para obras de interesse da Odebrecht em Angola.

É O FIM?
A Lava Jato não desestruturou apenas um esquema de propina e corrupção. Ela acabou com o resto da crença política que poderia existir no país. Os políticos não conseguiram se recuperar do estrago causado. E agora, com a popularidade do Judiciário, os partidos como esponjas querem absorver esta legitimação dada a promotores e juízes. Joaquim Barbosa vem sendo sondado por alguns partidos de centro-esquerda para assumir a presidência. A Rede de Marina Silva cogita Deltan Dallagnol para fazer parte do quadro. O juiz Márlon Reis, um dos redatores da Lei da Ficha Limpa, deve concorrer ao Senado pelo Maranhão. A sigla também quer que o delegado aposentado da PF, Jorge Pontes, ex-Interpol, dispute vaga na Casa pelo Rio. Em passo ainda mais audaz, sonha filiar o chefe da PF, Leandro Daiello.

Se isto acontecer, mostra a falência das instituições. O poder político perde a cada avanço da Lava Jato a legitimidade conferida nas urnas. E agora com o avanço das delações da Odebrecht a complicar todo o quadro dos possíveis presidenciáveis (os tucanos Aécio, Alckmin e Serra estão enrolados com propinas e repasses, Lula pode se tornar inelegível, até a frágil e ingênua Marina foi acusada de receber do departamento de propinas da Odebrecht), nomes como Bolsonaro ganham espaço. Doria cresce aos poucos e é a voz do empresariado. O desmiolado Ciro Gomes passa a ter chances. Ninguém acredita nos três, mas não é possível saber quem a Lava Jato deixará em pé.

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