A decadênciada Cinelândia curitibana

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Em seu auge, anos 40 e 50, a cinelândia curitibana estava nas mãos de três empresas, a Orcopa, do historiador David Carneiro e administrada pelo dinâmico Ismail Macedo, a H Oliva, do Henrique Oliva, e a Sul, do empresário paulista Paulo Sá Pinto. Estes empresários tinham uma saudável e acirrada concorrência, procurando trazer grandes filmes, inovações tecnológicas e cinemas bem gerenciados, tudo para atrair o maior público e, claro, manter seus rendimentos cada vez maiores.

A chegada da televisão não teve grande impacto, pois a programação era de velhos filmes e seriados ou programas ao vivo. Até que foi dado o grande salto com a chegada do videoteipe, em 1965, tirando o atraso das atrações, melhorando muito a grade de programação com programas, telenovelas e shows do Rio e São Paulo, além de atrações internacionais. A partir daí, a frequência nos enormes cinemas começou a cair. Some-se a isto outro fato, nunca considerado: a chegada do empresário paulista Arnaldo Zonari. Distribuidor de filmes italianos pseudo-históricos, chamados de “quebra-pedras”, os Hércules, Macistes e afins, ganhou muito dinheiro quando começaram os “westerns-spaghetti”, de péssima qualidade, mas que davam público mais pela violência exagerada e sanguinolenta. Desejava entrar no ramo da exibição, e encontrou disponibilidade na compra do Cine São João.

A partir de meios discutíveis, como a utilização de “testas de ferro”, obteve quase todas as salas da região central de Curitiba. Só três cinemas não eram da Fama Filmes, nome da empresa de Zonari: o cine Lido, que continuou com o Oliva, o Plaza, que passou ao Sá Pinto, e mais tarde o Condor, da Condor Filmes.

Cine Plaza fachada no desmonte / Dirceu Cavalcanti

Cine Plaza fachada no desmonte / Dirceu Cavalcanti

Em 1967, a Fama tinha praticamente a hegemonia da distribuição, aglutinando outras marcas de estúdios, e a exibição, quase sem concorrência na cidade. Mas a forma como o grupo lidava com os cinemas geravam protestos e polêmica. O gerenciamento das salas, a precária manutenção dos equipamentos, causava projeções sofríveis e som deficiente.

O Cinema Um, antigo Excelcior, na rua Saldanha Marinho, por exemplo, tinha um gerente, que na última sessão da noite, mandava o operador cortar 20 minutos do filme, e cortava também os letreiros finais, para sair mais cedo, e esperava o público na saída, impaciente. Justamente o cinema com programação chamada de arte! E não adiantava reclamar, ou a imprensa denunciar. Iniciou-se então a decadência, com o lento fechamento das salas, criando o mito aqui de que cinema de rua já era.

Esta empresa não conseguiu se manter nem nos shoppings onde instalou suas salas, pois continuou a tradição de filmes sofríveis. Tentou a divisão de algumas salas grandes em duas, como os cines Glória e São João, com péssimos resultados, pois as reformas foram muito malfeitas, redundando, mais tarde, em programação pornô, e posterior fechamento, uma rotina.

Em 1996 o Shopping Crystal abria suas cinco salas com equipamentos novos, ótima projeção e som, e no ano seguinte a UCI americana abria as 10 salas do Estação, também com equipamentos de última geração: foi a pá de cal nos mofados e ultrapassados cinemas de rua, já que o público ficou com outro referencial de conforto e exibição.

Ainda em 1981, a Fundação Cultural de Curitiba, inaugurava o Cine Groff na rua XV, um acanhado cinema nos fundos de uma galeria. Depois vieram o Ritz e o Luz. Apesar da excelente programação, tecnicamente os cinemas deixavam muito a desejar, com equipamentos retirados de cinemas fechados do interior, a fim de minimizar custos. Mesmo assim, fazem falta, pois muitas produções alternativas exibidas em outras cidades do país, não encontram espaço nas telas curitibanas, restritas aos shoppings.

Cine Excelsior, depois Cinema Um, agora estacionamento / Dirceu Cavalcanti

Cine Excelsior, depois Cinema Um, agora estacionamento / Dirceu Cavalcanti

Outro caso lamentável é o do último cinema comercial de rua, o Cine Plaza, na praça Osório. Terminou melancolicamente em 2006. Seu último sucesso foi o filme “Paixão de Cristo”(ThepassionoftheChrist), inconvincente e sádica produção de Mel Gibson, estrelada por James Cavieyl, MonicaDellucci, produção de 2004, mas que obteve grande afluência de público. As filas chegavam quase na rua Emiliano Perneta. Mas por que o cinema fechou? Apesar da costumeira choradeira, que cinema de rua não dá mais, o proprietário da sala, não pagava ninguém, nem a energia elétrica, nem o dono do imóvel, nem as distribuidoras, que passaram a lhe negar os filmes. Claro, e o cinema, com goteiras, cadeiras quebradas, e por aí vai. Como se diz, padeiro que não paga a farinha, não produz pão.

Ainda sonho em não precisar entrar em um shopping para ir a um cinema em Curitiba, como faço em tantas outras cidades do Brasil e do mundo. Resta esperar que alguma empresa preencha este nicho cultural e de mercado.

Facilitaria muito para que isto acontecesse, incentivos públicos em concessões de impostos ou outras formas negociáveis, para estimular a iniciativa privada, pois os shoppings não comportam a diversidade de produções, tem custo elevado do ingresso, além de que são os mesmos filmes passando em vários lugares diferentes, restringindo tremendamente as opções. E o centro da cidade, sem nenhuma opção de lazer, em franca decadência como espaço público.

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