Bons tempos do pregão

mazza

Num sol de rachar em Copacabana o vendedor anuncia, como se fosse o símbolo do otimismo, o sorvete aos gritos de “Kibon”, que bom. É a arte do pregão hoje praticamente inexistente. Curitiba dos anos 40 a 60 do século passado tinha uma protofonia de reclames, a principal delas a entoada pelas colonas que saíam de Santa Felicidade para o centro enunciando em coral os seus produtos no ritmo dos carroções vagando em pedras irregulares: “ói o pepino, o tomate, o pimentão, verdura, lenha, galinha, ovos”. Seguia-se o estalo do chicote e o grito de “uia, baio!”

Havia outros como o bombeiro, o baiano, os homens sanduíche como hoje temos a última na figura da vendedora de bilhetes lotéricos a enunciar “a cobra” como tivemos até pouco tempo a Indira Ghandi ou Maria Desenhista que fazia retratos a crayon das pessoas e deles fazia seu meio de vida. Encerrada num avental branco lembrava a indiana. Escassearam nos dias atuais essas figuras e um dos sobreviventes é o Oil Man, untado para proteger-se do frio, e vestindo apenas uma sunga e conduzindo nas mãos uma bicicleta a percorrer a cidade, de ponta a ponta, num delírio ambulatório, e que teve seu momento de glória numa entrevista ao Jô Soares em que imitou com talento o Elvis Presley.

Eram múltiplos os personagens como o Mandrake assim chamado porque usava nobre cartola escura para enunciar a sua atividade: limpador de chaminés, magia profissional que aos poucos desaparecia. Havia – por onde andará o personagem? – que fazia discursos como se estivesse num comício e quando da passagem de 1999 para 2000, com toda a sua carga de significados, sugeria enfaticamente que até Deus estava que não passava uma agulha de tanto medo. Se até o Criador assim se encontrava dá para imaginar ele e o resto. Por seu estilo foi apelidado de Requião o que o levou a solicitar que não exagerassem o seu caso. No meio de tudo isso o anunciante esperto que abria a sua caixa, que não era a de Pandora, para mostrar a cobra e aí vender produtos farmacêuticos de linha popular sem carimbo da Anvisa.

E havia mais o vidraceiro, que cruzava a avenida Luiz Xavier, levando uma enorme peça vitral que tudo refletia e ainda o mais lírico de todos, o afiador de facas, um espanhol, que usava o ruído da pedra amoladora sobre a lâmina como fundo musical para entoar “Violeta de Espanha” com agudíssima voz. Sumiram os sons e as artes inclusive a do luminoso da Caixa Econômica na entrada da Praça Osório com as moedas caindo no cofrinho da poupança numa dízima periódica de movimento e luz. Aliás, entre o anúncio da Caixa e o outro, ao lado da Catedral do uísque “o arqueiro do Rei”, Kings Archer, o território dominante das nossas incursões, o universo de neon que tanto deslumbrava os que vinham de fora.

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