Editorial. Ed. 188

O Brasil está cada vez mais doente, no físico e na alma. A doença é antiga, mas nunca foi tão grave, mesmo porque o enfermo se acreditava são. Agora qualquer um percebe que o Brasil está muito mal. Se o diagnóstico ficou fácil, a receita é complexa e a possibilidade de cura bastante problemática. A crise, no entanto, tem nos servido ao menos para mostrar alguns traços de sordidez no exercício do poder que pensávamos ter superado.

Um evento emblemático de arbitrariedade cometida pelo sistema policial-judiciário que comanda o País foi o vazamento de gravação de uma conversa entre o jornalista Reinaldo Azevedo e uma de suas fontes, a irmã do senador Aécio Neves, Andréa Neves, que era investigada pela Polícia Federal. Ficou evidente, até para os mais néscios, que a intenção foi atingir o jornalista, um crítico qualificado das iniciativas do Ministério Público Federal na figura do procurador-geral, Rodrigo Janot. Reinaldo Azevedo enxerga o que muitos não querem enxergar, os excessos cometidos pela Operação Lava Jato em nome do combate à corrupção.

Azevedo enfrenta adversários poderosos. Ele também lança seu olhar crítico sobre o STF, especialmente sobre o ministro Edson Fachin, responsável pelos processos da Lava Jato. A conversa entre Andréa Neves e Azevedo foi pinçada de mais de 20 horas de gravação. Nada há na gravação que deponha contra o jornalista, mas criou-lhe um constrangimento profissional porque fazia crítica a uma das matérias publicadas na Veja, revista que abrigava sua coluna. Reinaldo Azevedo, eticamente, se viu obrigado a pedir demissão, que foi aceita.

A divulgação desse áudio fere a Constituição, desrespeita a legislação específica e mostra que a polícia, o ministério público e até um ministro do Supremo podem prevaricar. Diz a lei que gravações que envolvam terceiros não investigados e que nada contenham do interesse específico da investigação devem ser descartadas imediatamente. Qual o que. Por trás dos panos tomaram a gravação de Azevedo e a expuseram em público, o que fere outro princípio, o da absoluta proteção da fonte jornalística.

A gravação teve o sigilo retirado pelo Supremo Tribunal Federal, mais precisamente pelo ministro Edson Fachin, e entregue ao site BuzzFeed. Isso caracteriza crime. Em qualquer país em que a civilização pegou e os direitos fundamentais são respeitados, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o ministro do STF, Edson Fachin, não sobreviveriam em seus cargos.

A vingança contra Reinaldo Azevedo lembra gestos primários e primitivos praticados à larga na Venezuela de Chávez e Maduro. Lá o Judiciário, a Corte Superior e a polícia são usados não só para reprimir a população que protesta contra o governo, mas para destruir as liberdades, começando pela liberdade de expressão, a liberdade de opinar, de informar.

O jornalista só erra quando sonega informações de que dispõe ou quando publica, como boas, informações falsas ou errôneas. A ideia de que existe uma verdade anterior ao debate, à investigação e à controvérsia e que essa verdade é a única que merece ser publicada, é de fato uma ideia que, além de totalitária, não aproveita a crença de que a inteligência distingue o homem dos outros animais. São os tempos. Quando a polícia, o ministério público e o judiciário entram no jogo com parti pris de vezo político, nossa liberdade, o bem maior, está em risco.

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