O gigante que ronca

jessica

Preciso buscar palavras exatas. As poesias que me desculpem, mas me faço questões como as de Adorno quando afrontou a escrita de poemas depois de Auschwitz. Longe do anacronismo e da má comparação. Mas o momento é de caos, mais um e diferente, e me parece não ser o último. Por isso poupo as palavras de várias interpretações escancaradas e procuro algumas exatas.

Nas folhas que seguem antes desta foi possível ver um lado do Brasil, uma faceta resistente que aflora e grita. O caos político, a sujeira que só aumenta, daquelas que grudam e não há sabão que limpe, está aí. Nada escapa, do fio do iceberg acima da linha do mar à base, o que se mantém? É difícil responder, há gente boa, há gente má e também os mais ou menos. Mas a questão não é esta. O buraco, profundo como o oceano que envolve o gelo, é raiz. Está em todo canto e há muito tempo.

Nem o pé do gigante levantou no dia 24 de maio de 2017, mas deu para ouvir o ronco dele de longe. Um ronco rançoso, incômodo, não comum como as coisas ruins que por aqui nos cercam, mas que é possível desviar. Como aquele silêncio que ensurdece, as manifestações sucumbiram e chamaram a atenção. E então, uns perplexos com o governo e os sem reação viraram-se contra os manifestantes.

“Vândalos, marginais, mascarados, black blocs.” “Manifestação ilegítima e violenta.”

A destruição, o fogo, os olhos quentes assustam. O chute devolvendo a bomba amedronta. Alguma coisa está fora da ordem. Precisamos da ordem. Alguns pedem. Nem que seja falsa, nem que seja ditadura, eles não se importam. O grito nas paredes, a cinza do resto. Do resto do Brasil. Dá medo e desespero. Mas a manifestação, o ronco do gigante, é um resultado da soma, é o que pediram os governantes em quase toda a história do Brasil com suas políticas excludentes e desiguais. E esse não é o primeiro levante e não será o último.

A passividade e a pacificidade que tanto pedem, anseiam e buscam – pelo desespero, medo e inércia – são companheiras da sujeira, não cúmplices, apenas companheiras de viagem. Existem e agem dessa forma há muito. Não foram ofuscadas e retiradas das lentes. E a soma disso tudo, da longa viagem, são os protestos. E não há para onde fugir, correr e se esconder. As manifestações não serão belas, feitas de cirandas e arcos de flores. Infelizmente e felizmente. Por serem assim e por elas existirem. Elas são o resultado de uma história orquestrada, de povos excluídos e marginalizados, de uma democracia racial ignóbil e inexistente, de um machismo institucional e real, de um Estado de políticas opressoras com fachadas democráticas, de uma elevação de grupos normativos e padronizados. Higiênicos e higienizados.

O transgressor desse discurso operante, o corpo abjeto que surge sem trejeitos dóceis, não será bem recebido. Mais uma vez será excluído, seja com forças irracionais ou nacionais. Para a viagem continuar segura aos que no poder estão. Articuladores e devastadores não cansam e não largarão o osso. Esse osso que tanto machucam e derrubam sangue, todos os dias, em quase todas as favelas do Brasil.

A resposta para a violência e para a corrupção não tinha que ser outra barricada e outro chute no peito. Nos nossos ideais contos de nação. Mas os pedidos, as conversas e os gritos não são levados em conta. E não há como não entender a revolta e a acidez de um povo que sofre e sangra. Aqueles que sempre apanham, aprendem a bater. Sem generalizações, longe dos clichês e do mundo das ideias: apenas a realidade do Brasil.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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