O poder pelo sangue

donha

Essa página da história poderia ser contada de forma fatídica e burocrática. Mais uma entre tantas. De forma corriqueira e comum, como de fato é, esboçaria as vias, os caminhos e o fato. Mesmo diante do espanto momentâneo, contaria a você uma história sem fim. E na realidade, mesmo que não queira, é o que farei, mesmo tentando fugir do normal, a realidade nos chama.

Debrucei-me sobre essa história e afundei-me num marasmo, num deserto. Estupefato e arrebatador deserto. Feito terra de ninguém. Como de fato é este Brasil, não o que pintam e bordam, mas o Brasil de fato, o Brasil da linha da margem pra lá, o das terras esquecidas. Esse que por vezes esquecemos que existe…

DA MARGEM À COMPOSIÇÃO DA HISTÓRIA
Era quase anos 2000. Edson Faria tinha 19 anos e era mecânico. Conhecido pelo nome do pai, Edson Vaz. Talvez pela aparência? Não se sabe. Mal se sabe sobre o Edson filho. Imagina sobre o pai. Pois bem, fazia um mês que ele, o filho, tinha virado pai também. Pela segunda vez. Um mês da menina, mais dois anos da outra. Crianças famintas de leite e vida. Foi então que Edson recebeu uma oferta de dinheiro rápido e emprego fixo. Como? Não se sabe. Sabe-se que em circunstâncias extremas a mão de obra barateia. E barateia muito. Em troca desses bens, Edson teria que dar um susto num homem. Miguel Siqueira Donha. Esse era o nome dele. Era um susto, bater até ficar bem machucado. Não se sabe como foi o trato, mas ficou decidido, Edson faria o “serviço”, teria um dinheiro rápido para sanar suas necessidades e ainda um emprego fixo. E não era qualquer emprego, era melhor e mais estável, ofereceram a ele uma vaga na prefeitura da cidade.

Por um mês Edson rondou a casa de Donha e cuidou dos seus passos. Como se observa uma presa? Sei lá eu. Por mais equivocado que fosse, era o seu “trabalho” naquele momento. Seria rápido. Só o futuro seria longínquo e promissor, como lhe prometeu o contratante.

O contratante era Tico Pompílio, de nome Antônio Martins Vidal. Li em alguns lugares que ele era guarda na cidade, em outros que era motorista da prefeitura. Pois bem, foi Tico quem encontrou Edson, fez a oferta e o contratou. Como se fosse um trabalho comum, um negócio normal a se fazer. Mas de onde Tico poderia tirar essa ideia de assustar o Miguel Donha? E com quais motivações? Tico não era o mentor, nem carregava as razões. Ao que se sabe era o intermediário do crime.

O mentor intelectual, como vi sendo descrito em alguns lugares, era Azemir João de Barros. Logo de cara digo: irmão do prefeito da cidade que em 2000 seria eleito novamente. De nome César Manfron. Azemir falou com Tico para encontrar alguém para fazer o serviço. O serviço era dar um susto em Miguel Siqueira Donha. Mas por quê? Donha era pré-candidato à prefeitura da pequena cidade, pra lá da margem. Concorria com os Manfrons, donos da área.

“Essa terra de ninguém já tem dono.”

Quem sabe o que Donha ouviu naquele momento? Não sabemos e não saberemos. O que se sabe é que o susto foi dado. Muito além do que se devia, muito além do que Edson sonhava e talvez do que Azemir imaginava.
E por que ele? Por que Miguel Donha?

Miguel Siqueira Donha era contador, administrador e funcionário de carreira de um banco da cidade. Aquela história: veio do interior, construiu uma vida e aos pouquinhos foi conquistando seu espaço. Cresceu, cresceu e quis ser mais do que um qualquer. Dizem que quis fazer a diferença, que tinha espírito romântico e quixotesco. Virou então pré-candidato da cidadezinha. Gostava de política, já estava envolvido há alguns anos, mas dessa vez era diferente. Ele apareceu. Sua presença ameaçou uns e outros, ameaçou quem já estava na cadeira. Pois bem. O susto, já um pesadelo, virou o que poderia ser um filme de terror, de suspense. Poderia ser uma novela, uma série sobre a tristeza das formas de política usadas por aqui. Um livro de ficção, um drama policial… Poderia ser. Mas não, foi real, foi aqui.

O susto foi contínuo. Um tiro na perna, uma artéria perfurada, hemorragia. Sem tempo, sem ajuda, sem consolo. Uma morte. Susto. Todos fogem. Uma família perde o pai, o marido, o irmão. Desestruturação, desequilíbrio, injustiça. Dezessete anos para encerrar, para se chegar até o desfecho, e ele tardou, mas chegou. Dia 23 de março de 2017 a sentença final foi decretada.

O DIA
Era quase anos 2000. Mais um ano que se acaba, um século novo que se inicia. A cidade era Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba, Paraná, Brasil. Os personagens reais eram estes: Edson, Zé, Tico Pompílio, Azemir e Miguel.

No dia 22 de janeiro de 2000, Edson e Zé pararam o carro de Miguel Donha e o sequestraram junto de sua esposa, Yara Donha. Era uma sexta-feira, uma volta de um casamento, quase no portão de casa, quase no aconchego do lar. Quase seguros. Mas Edson não deixou ser. Levou o casal para Rio Branco do Sul. Antes deixou a mulher pela estrada. Dois reais para o ônibus. Ela, com joias caras, não foi roubada. Eles queriam Miguel. O susto foi um tiro na perna. E então Miguel foi largado na estrada, sangue além do que se esperava. Um morador o encontrou, levou ao hospital. Em poucos minutos ele já não estava mais vivo. Era só o começo de uma tragédia familiar, de uma cidade espantada. De uma página da história.

A VIRADA DO SÉCULO, A VIRADA DA MINHA VIDA
Ângela Lins Donha, filha de Miguel falou à Ideias sobre os anos em busca de justiça. Dezessete foram eles. Em nossa conversa, ela demonstrou ainda ser difícil lidar com esse acontecimento. Pela tristeza, pela perda, pelo descaso, por medo das ameaças constantes e pela demorada justiça. Os acontecimentos pós 22 de janeiro de 2000 foram angustiantes, pouco animadores. “Do lado contrário existiam pessoas muito poderosas, de um poder aquisitivo muito maior que o nosso”, disse a filha de Miguel Donha. Completou que sua vida virou um filme, uma loucura, um avesso de tudo que era. Tudo mudou, ela e a família passaram a exigir da Justiça a solução do crime e conforme iam passando os anos, a justiça ficava cada vez mais longe.

Três semanas após o acontecido, Edson foi preso e confessou o crime. Reconheceu seu cúmplice e seu contratante. No decorrer do seu processo de condenação, já na cadeia, Edson foi morto. Há relatos que ao comer um salgadinho com vidros não resistiu e morreu dentro da penitenciária. Tico Pompílio também foi encontrado pela polícia. E também foi morto. Somente Zé está vivo e foragido, condenado em 2014. O mentor, Azemir João de Barros, foi condenado este ano, 17 anos após a morte de Miguel Donha. Para Ângela, “quando não matavam alguém, eles faziam alguma artimanha dentro do próprio processo para prolongar”. Ela acredita que o nosso sistema jurídico auxiliou na demora da resolução do processo.

Os anos passavam, a justiça ficava sempre menos palpável. E todo ano a família se reunia junto ao Ministério Público para exigir algum retorno. “Eles fizeram coisas absurdas! Por exemplo: juntar várias testemunhas. E essas pessoas não tinham endereço, tínhamos que ir atrás delas. Todos os artifícios que eles puderam utilizar nesses 17 anos, eles utilizaram. A advocacia fez muito por eles.”

Questionada sobre a presença de César Manfron, prefeito na época e irmão de Azemir, no decorrer do processo, ela nos disse que “ele inclusive testemunhou no júri agora [o último que acabou por condenar Azemir]. Eles negam. Eles morrem negando. Dizem que não conhecem as pessoas. Ele foi condenado no próprio júri. Ele mentiu. Você vê claramente que ele mente, você vê que o César Manfron mente.”

Nesses 17 anos as ameaças foram intensas. O caos só começou com o assassinato de seu pai. Ela afirma que a morte não foi só a dele, que sua mãe entrou em uma depressão profunda, falecendo em 2010 sem ver o caso solucionado. “As ameaças foram tantas. Eu lembro que no começo, nos anos posteriores, tiveram muitas ameaças lá para a chácara. Eu lembro que eles ligavam e falavam para a mãe: ‘Não se esqueça de que a senhora tem três filhos para criar!’”
A última ameaça que Ângela recebeu foi há quase dois anos, ela estava grávida. “Eu estava de sete meses. Mandaram o recado a um amigo nosso da cidade dizendo que, se eventualmente o Azemir fosse preso, ele até poderia ser julgado e condenado, mas que ele viria atrás do resto da família.” Azemir foi condenado a 16 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão.

Por isso, mesmo diante de todo o caso, repercussão e julgamentos, Ângela ainda teme por sua vida e de toda a sua família. “Nós estamos falando de pessoas que talvez não estejam presentes no nosso cotidiano. Nós estamos falando de assassinos. De gente que mata. Gente que não dá valor nenhum para a vida. Trata a minha, a sua vida como se fosse nada. É por isso que temos muito medo. Vai saber?! Vai saber se esse cara não espera um mês, dois meses… Um ano e pega a gente aí numa esquina. Para quê? Para nada. Pelo simples prazer de dizer: Olha! Está vendo? Vão continuar? O que mais vocês querem? Eles não se dão por satisfeitos.”

O medo permanece, a tensão continua. “Eu não posso negar para você. Eu ando na rua sempre olhando para todos os lados. O clima de medo permanece.”

Mas Ângela acredita ter um desfecho por saber, hoje, que, diante da justiça, ela tem o nome do assassino do seu pai. Mas não sabe quando a sensação de vulnerabilidade irá embora. “Se você me disser que acabou aqui, eu digo que talvez não. Eu não sei até que ponto vai a maldade do ser humano.”

“Hoje eu posso dizer para você: ‘O Azemir Manfron é o assassino do meu pai!’”

O filho mais novo de Donha, também de nome Miguel, foi candidato a vereador em 2016, em Almirante Tamandaré. Ângela nos disse que ele sofreu diversas ameaças.

“Ele recebeu muita ameaça quando se candidatou a vereador. Você imagina: um menino de 14 anos, com o pai como candidato a prefeito. Eu não sei o que passa na cabeça do meu irmão, não sei o que ele sentiu… Não sei o que aquilo causou nele.”

Ângela não sabe qual será o futuro do condenado, se ele ficará por muito tempo na cadeia, mas ela teme por outras vidas que ainda estão submetidas a situações como a dela. “Eu não sei o que vai acontecer com esse senhor, não sei se ele vai continuar preso. O próprio César Manfron está ligado a pessoas da prefeitura. Ele está voltando. E como é que a sociedade vê uma coisa dessas? Como a sociedade permite sabendo que o irmão daquela pessoa mandou matar para que ele permanecesse no poder?”

Ela conclui sua fala muito coerente e sabendo que essa página da história precisa ser vista, ser dada a ler. “Eu quero escrever um livro que não tenha meus sentimentos. Eu quero construir alguma coisa para que as próximas gerações possam ir à biblioteca e saber o que aconteceu. Para que não se repita. Para que as pessoas vejam e pensem que podem fazer diferente.”

QUISERA TER UM FIM
O poder corrompe? O que o dinheiro e a máquina nas mãos de uma pessoa podem fazer? O que faz as pessoas terem atitudes de déspotas inconsequentes?

Nunca tive esse poder, não poderei saber e culpá-lo. Culpo, por ora, o humano. Que no decorrer da nossa história vem repetindo situações como essas de Miguel Donha. Dizem que as regiões metropolitanas são terras sem leis, que lá não se pode fazer política. Mas a realidade é mais cruel. No Brasil há dificuldade em fazer a política democrática. Uns lugares apenas são mais mascarados que outros.

Uma matéria de 2012, da Carta Capital, mostrou que, em menos de 30 anos, 72 políticos foram mortos. Na maioria dos casos, os maiores suspeitos são os políticos rivais. Atentados e crimes sem solução só mostram a fragilidade da nossa democracia. Só pode ser democracia quando rema na direção que os grandes querem. Do contrário, não se faz.

Essa é mais uma daquelas histórias que nos deixam estupefatos e chocados. Mas que acontece, é lida e a página não é só virada. É esquecida. Há necessidade de fugir das questões infinitas e começarmos a procurar respostas. Estamos escolhendo e fazendo certo?

Leia mais

Deixe uma resposta