O século das sombras

Imagem: GeliKorzhev, Mutantes, 1973

Octavio Paz, que considero o mais eminente intelectual desta parte do mundo, costumava dizer que um dos piores males da América Latina é que não tivemos, aqui, século XVIII. No tempo em que aconteciam as Revoluções Americana e Francesa e se fundava o chamado mundo moderno, em pleno século das Luzes, éramos governados por D. Maria a Louca e esquartejávamos Tiradentes.

É verdade que nos 250 anos seguintes, progredimos. Hoje, mesmo nas horas mais escuras do mais pesado arbítrio (como o Estado Novo e o regime fardado de 64), nenhum governante brasileiro ousou esquartejar um inconfidente, ao menos em público. Só os Esquadrões da Morte ainda fazem isso.

Progredimos, mas não o suficiente para apagar as marcas de um passado escravocrata, de raízes fundadas na violência e no arbítrio. Não superamos a praga que é a concepção de que o Estado é o senhor da razão e protetor permanente dos privilégios distribuídos por uma casta dirigente cujos princípios morais se revelam agora na investigação que levou à descoberta do maior sistema de corrupção já construído no Ocidente. A relação espúria entre o Estado e a iniciativa privada nos legou uma Nação em que o assalto ao dinheiro público, da forma mais ordinária que se possa imaginar, é o que faz funcionar as nossas instituições capengas que servem fundamentalmente para reproduzir o mesmo sistema de poder e corrupção.

Pobre Brasil. Há quem diga que o país enriqueceu e progrediu, apesar de tudo, e que é afinal melhor tocar para frente, ainda que seja no pau, do que ficar sentado, a chorar as mágoas. Talvez, mas esta não é, precisamente, a questão posta diante de nós. A absoluta maioria dos brasileiros quer liberdade e democracia. Mas não quer repetir a experiência do populismo que se repete desde que voltamos a ter eleições diretas para escolher governantes e representantes. O sistema eleitoral viciado e cheio de artimanhas que beneficiam quem controla a máquina do Estado nos deu essa safra de políticos medíocres e corrompidos.

Duas novidades surgiram no cenário político que colocam dificuldades para manter o atual sistema. A informação já não é controlada totalmente pelos meios de comunicação de massa. A internet e as redes sociais operaram mudanças significativas. Hoje, a informação chega rapidamente e é mobilizadora. Capaz de levar milhões às ruas para protestar.

A outra novidade é a aparição, em tribunais de primeira instância, de juízes e promotores dispostos a investigar, julgar e punir a corrupção, o que bate de frente com o sistema político e eleitoral fundados na corrupção como princípio, estrutura e método. O juiz Sergio Moro é o melhor exemplo desse novo padrão de Justiça que assusta todos os políticos da praça, com a sua sanha investigatória e punitiva.

Duas novidades importantes, mas não suficientes para modificar a estrutura institucional feita a marreta, com falhas e vícios insanáveis no edifício da nação moderna que construímos; O certo é que não poderemos e não queremos continuar a alternar períodos de governo populistas e governos que os sucedem para reequilibrar as finanças e reduzir os estragos. Para isso é obrigado a aplicar remédios amargos, o que acaba por criar as condições propícias para a volta do populismo mais canhestro.

O saldo do recente exercício populista mostra que os custos sociais, políticos e financeiros do populismo indissociável da corrupção podem ser desastrosos. Na verdade, o que hoje desorienta governantes e governados é não sabermos como se conseguirá pagar, antes do naufrágio, os altos custos acumulados durante o último período de governos populistas corruptos e incompetentes.

Eis aí o que devia bastar para fazer burgueses e operários, intelectuais, padres e até os políticos pensarem duas vezes, em vez de não pensarem nenhuma. Mas esta é outra constatação deprimente: não conseguiremos avançar enquanto não varrermos essas sombras, heranças de governos de esquerda e de direita, todos assentados no velho vício paternalista, no estado patrimonialista, na corrupção. É a nossa sina.

Imagem: GeliKorzhev, Mutantes, 1973

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