Tudo apodreceu na República

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“Não ficará pedra sobre pedra”, ameaçaram políticos flagrados pela Operação Lava Jato a levar dinheiro público das mais variadas maneiras. Não ficou. Hoje, todas as instituições da República estão arruinadas, sob suspeição. Não há uma pessoa sequer reconhecida com reserva moral respeitada por todos os brasileiros. O Congresso é um antro de corruptos.

O governo não existe, tão desmoralizado que perdeu as condições de governar. Michel Temer, o presidente, é um dos cinco políticos mais impopulares do mundo, segundo a revista “Time”. Uma figura patética, pego em armação de gangsteres fantasiados de empresários a quem devia favores e que recebeu em altas horas no Palácio Jaburu. Foi gravado, conspurcado, não pode sair à rua.

O Judiciário, com exceção de juízes da primeira instância, da catadura de Sergio Moro, se desmoraliza depois de fechar o acordo mais dadivoso de que se tem notícia, por aqui e no mundo com os irmãos Batista, Joesley e Wesley, bandidos, que ao confessarem seus crimes mais hediondos de lesa pátria, envolveram do presidente da República aos políticos de província, enlameando tudo com sua capacidade de fazer amigos e influenciar pessoas comprando-os com dinheiro público recebido através do BNDES e outras fontes.

Toda a nomenclatura da República está destroçada. A maioria de seus membros denunciados por corrupção ou com o nome em uma das listas de recebedores de propinas de empreiteiros e, agora, dessa invenção fantástica que é a JBS, um império imensurável instalado em todos os continentes.

A delação dos irmãos Batista, Joesley e Wesley, mais as de seus auxiliares diretos na criminalidade, é inacreditável. E o desfecho mais tenebroso ainda, a confirmar que, nesta República, o crime compensa. Os Batistas corromperam, compraram a República, embolsaram dinheiro dos impostos de quem trabalha em empréstimos generosíssimos do BNDES e da Caixa, patrocinados por um programa de estímulo ao crescimento de empresas escolhidas a dedo, desenvolvido pelos governos Lula e Dilma, e se mandam livres, leves, riquíssimos para os Estados Unidos, com aval da Procuradoria-Geral da República e do Supremo.

Nem o mais fantasioso roteirista de Hollywood imaginaria um esquema tão inescrupuloso. Joesley Batista gravou, por conta própria, conversa nada republicana com Michel Temer, orientado pela Polícia Federal. Na mesma encomenda, gravou outras com Aécio Neves e seus comparsas. Malas e mochilas de dinheiro entregues a mando de Joesley aos supostos cupinchas do presidente e do senador receberam um chip da PF para rastreamento, e o dinheiro teve suas notas de série marcadas.

JUDICIÁRIO EM XEQUE
O Supremo Tribunal Federal sobrevivia como última instância com credibilidade na vida do país. Agora, o episódio expõe o Supremo, que, por meio do ministro Edson Fachin, homologou a delação, autorizou os inquéritos e liberou os criminosos com perdão judicial, imunidade completa e toda a fortuna no bolso. As notícias dão conta de que Joesley e sua mulher saíram de Nova York e estão em local não sabido. Ninguém dá conta de seu paradeiro. Bandido profissional, ele faz chacota deste país de otários. Confirmando, mais uma vez, que em certas circunstâncias e com os senhores da Justiça e do Ministério Público acertados, o crime compensa. E como compensa.

Para agravar tudo, a jornalista Joyce Hasselmann acrescenta um ingrediente explosivo no incidente. O ministro Edson Fachin, do STF, responsável pela Operação Lava Jato na Corte Suprema, teria relações muito próximas com a cúpula da JBS. Fachin, diz Hasselmann, era tão próximo que pediu e obteve ajuda de JBS para ter aprovação do Senado para integrar o STF. Joesley Batista, o capo da JBS, tinha “influência” muito grande sobre senadores que dele receberam propina e ajudas para campanhas. É uma acusação tão grave que, se confirmada, pode mexer com as estruturas da própria Corte.

A delação dos Batistas abre dezenas de questionamentos – a começar pelos generosos termos do acordo que os livrou de qualquer pena. Isso além dos ganhos de milhões no entardecer da quarta-feira, 17, dia D do vazamento da delação, com compra de dólares e manipulação de ações, objeto de cinco investigações abertas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os donos da JBS – que estão livres, leves, ricos e soltos – acumulam discrepâncias entre o que dizem e o que deixam de dizer.

Eles são capazes, por exemplo, de afirmar com precisão cartesiana que beneficiaram 1.829 políticos via dinheiro sujo, mas não conseguem lembrar os nomes dos cinco parlamentares – apenas cinco – que teriam recebido R$ 3 milhões cada para votar contra o impeachment de Dilma, depois de recusar o pedido para comprar 30, que eles também não dizem quem são.

A JBS gastou quase R$ 600 milhões para financiar políticos, menos de 2% de forma lícita. Aécio Neves, enrolado até o último fio de cabelo pela gravação em que aparece pedindo dinheiro e acertando, como um meliante, a entrega das notas em espécie, teria levado mais de R$ 60 milhões. Gilberto Kassab, José Serra, Fernando Pimentel e outros 15 governadores estariam na lista de receptores. Os Batistas dizem possuir uma bancada invejável: 167 deputados federais e 28 senadores, 179 deputados estaduais em 23 estados.

Questionado sobre um juiz que ele teria no bolso e que citara a Temer, Joesley diz que inventara esse fato ao falar com o presidente – e o dito parece ter sido convincente. Dia depois desdisse, mas até agora ninguém sabe a identidade do juiz. Eles se protegem. Em outro ponto, o delator afirma que só com Lula e Dilma foram gastos US$ 150 milhões (mais de R$ 320 milhões). Um recorde absoluto. Ainda assim, sabe-se lá por que, as transações com os dois ex não se tornaram objeto de denúncia específica.

Abre-se assim um novo flanco de dúvidas. Pior, capaz de ferir de morte o MPF, ao qual cabe atestar a veracidade de provas-chave de delação e de abertura de inquérito. Algo gravíssimo, caso seja confirmado. Mas, ainda que venha a servir como extintor para as chamas que Temer lançou sobre si naquele 7 de março, não conseguirá apagar a revelação de que ele já havia se rendido ao diabo.

TEMER É PATÉTICO
É deprimente observar os acontecimentos e seus personagens. Michel Temer, 76 anos, quase 40 deles dedicados à política, não se enquadra na categoria dos inexperientes. Não teria sobrevivido se o fosse. Muito menos na dos ingênuos, o que torna inexplicável ter se deixado enredar na armadilha de Joesley Batista, para quem Temer, na noite de 7 de março, abriu os portões do Palácio do Jaburu e do inferno, lançando nas chamas ele próprio, o seu governo e o país.

Ainda que monossilábico, o presidente da República ouviu disparates de um investigado pela Justiça, concordou com o inconcordável, postou-se como cúmplice de relatos criminosos. Nada fez. E deu muito mais do que os irmãos Batista precisavam para selar a delação premiada junto ao Ministério Público Federal: um diálogo cifrado, no qual Joesley poderia introduzir recheio de qualquer sabor.

Ao relatar a Temer que estava de bem com Eduardo Cunha, Joesley não cita a que se refere. Não fala de compra, de dinheiro, de valores – permitindo que ele dê a sua versão aos procuradores, como os tais R$ 400 mil que teriam sido pagos pelo silêncio de Cunha, com conhecimento do presidente. Algo que não está no escopo da conversa e, portanto, não aparece na gravação.

Há mais dúvidas do que certezas nessa hecatombe provocada pela delação dos donos e diretores da JBS, a maior processadora de carnes do mundo, uma das campeãs nacionais selecionadas por Lula da Silva e Dilma Rousseff, com direito a generosíssimos recursos do BNDES e da Caixa.

No que tange a Temer é incompreensível o fato de ele ter aceitado encontrar-se com Joesley no tardar da noite, em sua residência e sem testemunhas. Ter deixado a conversa se enveredar por temas nada republicanos – ao contrário, criminosos. De não ter desconfiado da armação. Teria rabo preso? Culpa? Medo?

Embora ainda não se saiba por que as investigações sobre a JBS ficaram atreladas à Lava-Jato, a Polícia Federal revelou o seu orgulho com as primeiras ações monitoradas para a produção de provas no âmbito da operação. Mas não foi bem assim: os R$ 500 mil que chegaram às mãos do deputado Rocha Loures se perderam. A mochila não tinha chip e o dinheiro desapareceu do radar, exigindo esforços de busca.

BANDIDOS PROFISSIONAIS
Exceto Joesley, Wesley e seus advogados – um deles recém-saído da PGR, ex-braço direito do procurador-geral Rodrigo Janot –, os demais envolvidos parecem um bando de amadores: de Michel Temer a Aécio Neves, do Ministério Público ao Supremo Tribunal, além da Polícia Federal.

A gravação que fez o governo Temer desabar é um capítulo à parte. A Procuradoria-Geral da República incluiu o áudio na peça da denúncia sem uma perícia técnica prévia, embora tivesse à disposição a melhor equipe para tal. Com isso, patrocinou a celeuma em torno de edição, o que pode pôr todo o processo a perder. Provocou ainda uma ridícula guerra de versões nas empresas jornalísticas, cada uma se dizendo dona da verdade, o que prova que ninguém sabe em que lugar a verdade está. O pedido oficial da defesa de Temer fez com o que o Supremo exigisse a perícia técnica do áudio. E aí, mais uma trapalhada: o país descobre que Joesley entregou a gravação, mas ficou com o gravador – na verdade, gravadores, conforme revelou a PF ao tentar recuperar o equipamento.

É estranhíssimo, para dizer o mínimo, que a PGR não tenha confiscado o aparelho usado para a gravação. Por que deixar prova do crime nas mãos do criminoso? Embora sua defesa aposte nisso, o fato de a gravação ter sido editada não muda a gravidade do bate-papo de Temer com o empresário bandido. Mas põe a PGR, que, por açodamento ou algum motivo ainda não explicado, cedeu mundos e fundos aos Batistas e preferiu correr o risco de usar um áudio sem conferência. Pior, deixar que os delatores levassem a arma do crime.

Não fosse trágico, seria uma comédia de equívocos. Michel Temer, 76 anos, político experiente, foi incisivo no pronunciamento que fez 21 horas depois do vazamento do teor da gravação, uma hora antes de oficialmente o áudio de seu encontro com Joesley ser liberado pelo ministro-relator da Lava-Jato no Supremo, Edson Fachin. Mas não conseguiu convencer muita gente, muito menos aplacar a agitação no Congresso.

O diálogo de Michel Temer com o dono da JBS é grave, gravíssimo, nada republicano, perturbador. Mas uma coisa é certa: o áudio não mostra aval do presidente à compra do silêncio de Eduardo Cunha, o que, até à divulgação das gravações, era a principal acusação contra Temer. Ou seja, a versão exposta pelo jornalista Lauro Jardim foi mais apimentada e prevaleceu sobre o fato. Isso não exime o presidente de culpa. Mas os crimes seriam outros: Temer ouviu um investigado relatar tentativas de se safar de crimes e nada fez. Tratou-o com deferência, e, no mínimo, se tornou cúmplice. Abriu a porta do inferno. Para ele e para o país.

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