O que faz um maestro?

erudita

Afinal, o que faz um maestro? Está aí uma pergunta que só o Dico Kremer, o José Augusto Jensen ou a Adriana Sydor sabem responder com precisão. O maestro lê e interpreta partituras? Resposta vaga e fica a dúvida: será que aqueles músicos todos não sabem fazer isso sozinhos? Ou o maestro apenas harmoniza o conjunto?

Essas perguntas, que podem parecer de um absoluto ignorante em música, não são assim tão fáceis. Nenhum dos críticos mais talentosos de seu tempo, embora um tanto conservador, soube respondê-las satisfatoriamente e garante que nem os maestros sabem exatamente qual o seu papel. Winthrop Sargeant, excelente em seu mau humor permanente, nos disse que, antes de Toscanini, os maestros interpretavam as partituras à maneira deles. Toscanini foi quem estabeleceu a regra de seguir fiel e rigorosamente o compositor.

Um avanço considerável. Ouvir Bach como Bach escreveu sua música, Beethoven executado da maneira mais próxima da que ele concebeu suas sinfonias, sonatas e partitas. Houve certo prejuízo, diz Sargeant, pois passamos a ter concertos monótonos desse time que segue a partitura sem um laivo de brilho. Tudo bem, como dizem as almas parvas, só existe um Toscanini.

Quem quiser ver e ouvir Toscanini a reger terá que procurar o acervo em vídeo da BBC. Há boas reproduções. Imagens perfeitas, de cinema, orquestra à altura do maestro. Pensar que Toscanini passava a metade do ano a reger em Buenos Aires, muito antes do peronismo e da diva cafona da política, Christina Kirchner, quando a Argentina tinha o teatro Colón, com a melhor acústica da época, e dinheiro e uma elite refinada a ponto de produzir uma das grandes temporadas de ópera do planeta.

A verdade é que continuo a não saber exatamente o que faz um maestro, além das caras de Greta Garbo e trejeitos exagerados do Karajan, ou das frescuras dançantes de Leonard Bernstein. Agora, parem e ouçam maestros rigorosos, que detestam o papel de pop star, como o correto e preferido de Kremer, Karl Böhm. Verão como a 5ª é uma obra genial no seu andamento concebido por Beethoven, bem diferente da quase circense interpretação de Karajan.

Ouçam o húngaro Georg Solti, que considero o melhor maestro de ópera depois de Toscanini. Só duvida quem é surdo ou não gosta de ópera. Ouçam a “Danação de Fausto”, de Berlioz, regida por ele. Ainda que eu não saiba exatamente o que faz um maestro, sei que Solti faz. Sem pirotecnias. E se quiserem chegar ao máximo, aventurem-se em Wagner, ouçam o Anel de London. Não há nada igual.

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