Longe da contemporaneidade do mundo

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O Brasil tornou-se uma choldra. O front cultural, melhor termômetro de nossa vitalidade, é uma lástima. Predominam os não eventos. Típicos de uma sociedade fim de linha, como aqueles cadáveres com reflexos nervosos, a crescer cabelos e unhas. Patinamos na mesmice da produção medíocre em todas as áreas. Há quantidade, é verdade. Nunca se publicou tanto no Brasil. E a internet apresenta milhares de sites de cultura a revelar poetas, romancistas, dramaturgos e contistas às pencas. Não há qualidade. Nenhuma originalidade. Todos escrevem “à moda de”, a produzir pastiches. Nada que se distinga de uma literatura estandardizada pelas fórmulas preconcebidas ensinadas na academia. Este fenômeno se repete até mesmo naquilo que sempre nos destacou pela criatividade. Continuamos a ouvir as canções criadas há cinquenta anos porque nada se fez que tenha superado a criatividade da época.

O mês de junho poderia ter sido pior. Começou com péssimos presságios de extrema turbulência política e crise institucional, como se diz em dialeto politiquês para significar possibilidade de queda do presidente. Terminou sem riscos, com a evidência de que as instituições continuam em seu lugar. Sendo assim, a confirmação de que as reformas previdenciária e trabalhista caminham no Congresso, apesar dos protestos, parece causar menor espanto do que provocaria se não tivéssemos vivido mais este enredo de suspense.

Neste episódio provamos, mais uma vez, que somos uma nação extraordinária, talvez única. E temos artistas da política – queremos crer que a política é uma arte − que, se não representam nossos melhores anseios, ao menos exprimem a nossa vocação para o arranjo, o arreglo, o acerto por baixo do pano. Até parece que o mês de tensão política, com um julgamento no TSE que poderia depor o presidente, foi inventado por talentosos roteiristas para deslocar as atenções gerais do escândalo que flagrou Michel Temer em conversa a horas tardias com um gângster de inigualável canalhice que o gravou a pedido da Polícia Federal e do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Tudo para embasar novo processo judicial na tentativa de derrubar Temer e substituí-lo por uma eleição indireta no Congresso. O mesmo Congresso desmoralizado porque dois terços de seus membros estão na lista de delatados por corrupção na Lava Jato.

TERRA ARRASADA
Continuamos a caminhar sob o signo da terra arrasada. A rigor, ninguém sabe se o governo se manterá até o fim de seu mandato, embora haja sempre que se considerar sua capacidade para alcançar a meta de sobrevida, a todo custo e preço, arrastando-se, agonizante, até 2018. Tivemos momentos de maior clareza e tudo parecia nos encaminhar para uma transição mais tranquila e mais definida. Qual o quê! Vivemos um momento difícil. Faltam partidos ideologicamente definidos e modernamente concebidos, conforme se demonstra até pelo fato de que, às vésperas do ano das diretas para a Presidência, dispomos de pelo menos duas dúzias de candidatos a candidatos. E nenhum deles está certo de que não será impedido em seu projeto por uma ação da Lava Jato.

Houve, lá atrás, um alento vindo de fora. As manifestações que tomaram as ruas e derrubaram Dilma Rousseff pareciam eivadas de um inconformismo renovador que poderia oxigenar a vida brasileira. Longe disso. Mais forte foi a onda conservadora que as impulsionava, carregada de preconceitos políticos e ideológicos. Com laivos de um passadismo de provocar horror. A veia moralista a pedir a caça aos corruptos e a fortalecer ideias toscas de liberticidas saudosos do regime fardado. Vê-se agora que predomina no país a ideia de que os nativos não têm outro remédio para assegurar a ordem e o progresso que ceder parte de sua liberdade a um governo forte, capaz de se impor diante dos políticos corruptos e de restringir o papel de instituições democráticas em proveito da ordem e do progresso.

A reação a esse esforço de retrocesso político veio tímida e desmoralizada. Afinal, não há dúvidas, entre pessoas com saúde mental, de que os governos de esquerda que completaram 13 anos no poder, oito de Lula e cinco de Dilma Rousseff, são responsáveis pelo maior assalto ao erário que já se viu no Ocidente civilizado. A corrupção, estigma dos políticos, passou a ser, antes de tudo, a marca indelével das esquerdas. E de cambulhada a sociedade empurra para a lixeira todas as bandeiras e projetos de alcance social verdadeiro que deveriam, estes sim, justificar as administrações públicas de sociais-democratas aos comunistas que se juntaram para governar. O maior prejuízo provocado pelos desvios petistas é este: levará muito tempo para que as esquerdas consigam reconquistar a confiança da maioria na sociedade brasileira para voltar aos governos e realizar seus projetos.

HORA DA AUTOCRÍTICA
Sem discurso convincente para se defender, refugiada em movimentos minoritários, a esquerda se perde no secundário porque não pode enfrentar o desafio principal. Não consegue reconhecer seus erros, admitir que perdeu o rumo e, ao jogar todas as suas fichas na perspectiva eleitoral, chafurdou no populismo e tornou-se igual a todos os outros partidos tradicionais em vícios e métodos. Só que agravados. Ao desistir de avanços no caminho da socialização, restou ao PT e seus sócios o esforço único de se reproduzir no poder a qualquer custo e fazer dele um instrumento pródigo em benefícios pessoais para seus adeptos. Nessa guia, romperam-se todos os limites morais que condenavam a corrupção.

A repetir que os fins justificam os meios, confiantes na tradição de impunidade no Brasil, as esquerdas no governo tomaram todo o dinheiro público que podiam para fazer o que nada mais tinha a ver com os interesses sociais mais amplos. Para mitigar a consciência e justificar-se ideologicamente, projetos sociais de resultados discutíveis, como a ampliação do Bolsa-Família, o Minha Casa, Minha Vida, o Prouni, o facilitário para a aquisição de bens como o carro popular e eletrodomésticos. Nada que qualquer outro regime de corte populista e fascistoide não tenha feito em qualquer lugar do planeta onde empalmou o poder. Mas como aconteceu nas experiências anteriores, a fórmula se esgotou e veio a frustração social que não admite perder nada, em seu insaciável pedir mais até estourar a bolha artificial criada para adiar o desastre na esperança de adiar o inevitável fracasso.

Foi o desastre da política econômica e seus efeitos perversos na sociedade que derrubaram Dilma Rousseff e as esquerdas. A revelação das entranhas da corrupção se tornou o leitmotiv da mudança de humor das massas, principalmente das camadas médias da população, que passaram a acreditar e pregar que a economia vai mal, o desemprego aumenta, os salários deterioram porque houve corrupção no governo. Neste caldo de cultura naufragou um projeto que prometia, mais que a redenção de camadas miseráveis da população, a modernização que nos levaria à contemporaneidade do mundo. O Brasil chegou a subir ao pódio dos países emergentes, das economias em crescimento e, em consequência, de uma sociedade mais justa. Hoje, tudo isso soa como farsa.

O CASTIGO DO ATRASO
Há quem acredite que só sairemos desta crise através de um largo gesto de tolerância, pelo qual se tentaria conciliar Deus e o Diabo, água e fogo, mel e fel. Deixa-se enganar. Certas experiências são irrealizáveis, com exceção dos agridoces da cozinha chinesa. O objetivo de consenso serviria aos políticos que tentam uma trégua que ultrapasse a pacificação do país, como propõe o presidente Michel Temer em seu esforço de sobrevivência. Querem escapar da Justiça que os ameaça com a Lava Jato. E isso parece impossível, pois ninguém consegue imaginar a reação da Nação diante de um retrocesso nas investigações.

Apesar do esforço de boa parte da mídia em ajudar a derrubar Michel Temer, ele se segurou e pode ser que suporte a pressão até o ano que vem, quando entraremos no processo eleitoral para escolha de seu sucessor. Afinal, os objetivos do consenso proposto ou da eleição indireta de um sucessor com mandato tampão não é ideológico, a democracia não está em jogo, mas interesses políticos e econômicos de grupos e facções que se recusam a perder seus privilégios. Pouco importam as posições que defenderam no passado recente. Reencontram-se na esquina do poder e ali querem ficar. Se depender dos arautos da morte da política e da ideologia e dos papagaios que propagam o besteirol, a manobra até pode dar certo.

O que pesa mais, na elaboração desse peculiar conceito de consenso, se o cinismo ou a covardia, se a hipocrisia ou a ignorância, não é simples discernir. Convém anotar a possibilidade de que a sociedade brasileira não esteja mesmo madura para a contemporaneidade do mundo.

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