Machado de Assis & Eça de Queiroz: uma aproximação

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Joaquim Maria Machado de Assis e José Maria Eça de Queiroz: temos aí, sem dúvida, os dois himalaias da cordilheira romanesca da nossa língua. Mas, para lá desse fato indiscutível há, entre esses dois gigantes da Literatura, uma série de afinidades e similitudes. Não apenas de ordem puramente literária, mas também existencial.

Vejamos alguns pontos que de certa forma aproximam e irmanam o gênio que foi o Bruxo de Cosme Velho e o não menos genial escritor que um dia se autodenominou como “um pobre homem da Póvoa do Varzim” (na célebre polêmica que manteve com “esse homem fatal” que se chamou Pinheiro Chagas). Começo pelos próprios nomes, ou melhor, prenomes. São parecidos: Joaquim Maria e José Maria. Os sobrenomes, igualmente compostos: Machado de Assis, Eça de Queiroz.

Os dois eram de constituição física até certo ponto frágil, e tinham ambos uma saúde precária. Mais o carioca, vítima de uma série de enfermidades que o acompanharam ao longo da vida, à maneira de um cilício indescartável. Eça nasce em 1845 e Machado seis anos antes, em 1839. Eça morre em 1900 e Machado em 1908. Eram, portanto, contemporâneos, embora o português vivesse quatorze anos menos.

Outro fato interessante: Machado era filho de portuguesa, açoriana, enquanto Eça era filho de brasileiro, carioca, embora com genitores lusos. Ambos começaram as respectivas carreiras literárias fazendo poesia. O mestre do “Dom Casmurro” perseverou no seu comércio com as musas, de tal maneira que os seus três livros inaugurais, “Crisálidas”, “Falenas” e “Americanas”, fazem dele um nome importante da escola Parnasiana, permitindo que ele possa ser citado logo após a “santíssima trindade” do parnasianismo, integrada por Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, além de Emílio de Menezes e Vicente de Carvalho. Já Eça começou produzindo alguns poemas interessantes, mas fracos, embora a sua “Serenata de Satã às estrelas” faça dele um precursor do simbolismo, e outro poema, “A velhinha”, antecipe de certa forma a poesia realista, quase naturalista, de Cesário Verde.

Ambos casaram maduros. Assis, com trinta anos de idade; Eça, com quarenta. E fizeram casamentos felizes. As respectivas consortes, ambas amantes dos livros, foram a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novaes, irmã do grande amigo de Machado, o poeta Faustino Xavier de Novaes, e a aristocrata Emília de Castro Pamplona, condessa de Resende, irmã também de um grande amigo de Eça, o conde de Resende. Outra curiosidade: a mãe de Eça também se chamava Carolina Augusta.

Seus poemas foram assinados com o pseudônimo de Fradique Mendes, que muitos anos depois seria o “autor” (na qualidade de alter ego ou heterônimo eciano) das cartas que integram o livro “Correspondência de Fradique Mendes”. Mas Eça logo desistiria da produção poética, em favor das suas crônicas expressas num estilo claramente poético e que seriam no futuro, post mortem, enfeixadas no livro “Prosas bárbaras”.

Ambos foram jornalistas, colaborando prodigamente em jornais do Brasil e de Portugal. E os dois foram igualmente polígrafos, não se contentando em cultivar apenas dois gêneros literários em que são inexcedíveis mestres: o conto e o romance.

O Bruxo de Cosme Velho faz jus, indiscutivelmente, ao título de primus inter pares na província contística. Isso graças a contos admiráveis como é o caso de “O alienista” (que alguns, por motivos ponderáveis, preferem considerar novela), “Missa do galo”, “Uns braços”, “Dona Benedita”, “A chinela turca”, “Noite de almirante”, “Dona Paula”, “Um homem célebre”, “Cantiga de esponsais”, “A indesejada das gentes”, “A cartomante”, “O relógio de ouro” e tantos outros.

Como contista, o luso merece a vice-liderança, com seus também notáveis contos, como é o caso de “A perfeição”, “José Matias”, “Singularidades de uma rapariga loira”, “Suave milagre”, “São Cristóvão”, “A aia”, “O defunto”, “Um poeta lírico” etc. Na área romanesca, a crítica luso-brasileira tende, na sua maioria, a considerar o criador do conselheiro Acácio como primeiro, ameaçado de perto pelo criador da Capitu “de olhos de ressaca”.

Curiosamente, ambos têm a glória alicerçada naquilo que eu chamo de dois “quintetos de ouro”. O eciano é constituído por “Os Maias”, “A ilustre casa Ramires”, “O primo Basílio”, “O crime do padre Amaro” e “A cidade e as serras”. (Obras como “A relíquia” e “O mandarim”, bem como “A capital”, “Alves e Cia.”, “O conde Abranhos” e “A tragédia da Rua das Flores” podem ser consideradas, por assim dizer, acessórias, marginais, no bom sentido.)

O “quinteto” machadiano, por sua vez, é integrado por “Memórias póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro”, “Memorial de Aires”, “Quincas Borba” e “Esaú e Jacó”. Ficam de lado, naturalmente, os românticos “A mão e a luva”, “Ressurreição” e “Iaiá Garcia”.

Como se sabe, Machado escrevia “com a pena da galhofa mergulhada na tinta da melancolia”, enquanto Eça buscava atingir, “sob o manto diáfano da fantasia, a nudez crua da verdade”. Duas estratégias criadoras distintas na sua metodologia, na sua mecânica, mas que acabavam por atingir o mesmo alvo: a beleza, a arte, essa metamorfose transfiguradora do homem, do mundo e da vida, em formas ideais, arquetípicas, definitivas, feitas, não daquela matter of dreams de que falou Shakespeare, mas simplesmente de Verbo. De verbo e assombro.

Outra coisa: tanto o lusitano como o brasílico são mestres indiscutíveis em termos estilísticos. E os adjetivos “machadiano” ou “eciano” são gulosamente saboreados, aquém e além-mar, por qualquer escriba que se veja brindado por um deles…

Importa assinalar ainda outro fato digno de nota, nesta aproximação que venho empreendendo entre dois titãs da arte literária. Refiro-me ao longo, denso e profundo ensaio crítico de Machado sobre o “O primo Basílio” com elogios que certamente massagearam o ego, mas também com reparos pertinentes que o luso soube assimilar. De tal modo que, em função deles, houve por bem reformular o seu itinerário estético, abandonando a trilha do naturalismo “à la Zola” por que enveredara a partir de “O crime do padre Amaro”, fixando-se no realismo puro, de linhagem flaubertiana (e balzaquiana).

Mas a leitura crítica e atenta do “Basílio” levou o próprio Machado a uma autocrítica, revisando por sua vez o próprio universo ficcional, até então demasiado preso ao convencionalismo romântico, aderindo, já a partir de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, ao realismo psicológico, que passaria a ser a sua marca registrada, o seu emblema artístico, o ex-libiris da sua grandeza.

Para concluir, seja-me permitida uma afirmação enfática: tanto Machado quanto Eça teriam merecido o Prêmio Nobel de Literatura com que foi distinguido, em 1998, José Saramago. Afinal, pergunto: dos diversos ganhadores da famosa láurea da Academia Sueca, de 1901 a 1908, quais os que superam, estética ou literariamente falando, os dois mestres do nosso condomínio linguístico?

Vamos à nominata desses “nobelizados”: Sully Prudhomme, Theodor Momsen, B. Bjornson, Fréderic Mistral, J. Echegaray y Eizaguirre, Henryk Sienkiewicz, Giusè Carducci, Rudyard Kipling e Rudolf Eucken.

E agora respondo à pergunta que formulei antes da nominata: nenhum. Nem mesmo o italiano ou o inglês são mais importantes que o brasileiro e o português. Seja como for, a verdadeira grandeza de um artista, prescinde perfeitamente de prêmios, galardões, lauréis, distinções eventualmente conquistadas. Isso porque as suas obras, filhas diletas do talento, que é um dom divino, e do humaníssimo trabalho, feito de sangue, suor e, não raro, lágrimas, são autossuficientes – e bastam.

Um esclarecimento final, à maneira de post scriptum heterodoxo: Machado e Eça não chegaram a ser amigos. Nem inimigos. Foram apenas rivais que, à distância, mutuamente se admiravam e respeitavam. Numa espécie de silêncio obsequioso que talvez escondesse, quem sabe, resquícios de inveja, de parte a parte.

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