Não haverá mais polacos?

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– Polaco!

O xingamento batia feito porrada. Sabíamos.

– Negrada!

A resposta vinha na fronteira do cuspo, no trecho da terra da Visconde Nácar, esquina com Saldanha Marinho, onde hoje, há o edifício Itália. Em jogo, mais que a cor, o sentimento súbito de dignidade ameaçada.

– Negrada!

Espumávamos de raiva na sala de jantar na pensão de muitos quartos, casa de quatro olhos abertos como janelas sobre a Saldanha Marinho, arrendada por meu pai, migrante do Norte Pioneiro. Sem nenhum, a família chegara no trem da fome, embarcada em Joaquim Távora.

No alheamento de crianças impossíveis não percebiam os horrores que imperam sobre a necessidade aflita – nos arranjos e desarranjos pela subvida.
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Pingentes do interior, caipiras, nos misturávamos a eles, aos polacos, como também às noites de saravá dos da umbanda e tentávamos decifrar, na casa da frente, do outro lado da rua, o mistério dos japoneses – escondidos sempre, arredios sempre, como se a diferença deles fosse uma dor.

Experimentava-se o pepino-azedo enrolado em folhas-de-parreira, a princípio com nojo e logo depois, gulosamente, e aprendíamos com os polacos a exata maturação das uvas nos parreirais improvisados no fundo dos quintais. De cor fixava-se o tempo das maçãs, das peras e dos figos. Com os polacos, a família se iniciava, paciente, na arte das compotas nos vidros Trevisan – enxutos, cristais, espelhos.

E era curioso que aqueles meninos, que em casa falavam a língua arrevesada dos pais, nos corrigissem o português ordinário, e com o mesmo entusiasmo nosso fossem matreiros e habilidosos no “jogo-do-bafo” com as Zequinhas – disputadas na sorte e no braço. Entendiam da vida, os gringos, seres reais, carne-e-osso, comuns como todos. E isto ante a nossa inexperiência era alguma coisa espantosa.

A minha cidade sertaneja ficou sendo mesmo um sonho curitibano.

O que vem em lembrança e a memória recolhe com os dedos de melancolia, é o fotograma incolor da vila pobre, as casinhas de madeira sucedendo-se – da Saldanha Marinho até o muro dos fundos que dava para a Rua dos Chorões. Só a pensão triunfava, casa velha, imponente, abrindo a procissão de casas, quintais, hortas, árvores, parreiras, crianças e galinhas ciscando os pátios.

– Negrada!

Os polacos devolviam a provocação – sem saber que em tudo nos parecíamos: eles, com o cabelo cor-de-burro-quando-foge, os invejados olhos azuis, as sardas; nós, capiaus interioranos cheios dessa estranheza com que índios acostumam-se aos brancos, e mais no cabelo preto, liso, a nossa cara de vulgaríssimos olhos escuros.

A pele, queimada pelo sol do Norte, desbotava, baixo invernos rigorosos e desusados. Sentíamos o inevitável banzo das terras batidas pelo poeirão vermelho – uma nuvem de pó perseguindo as jardineiras.

Aqui baixávamos a hospitais (públicos) com a mesma frequência incômoda que o frio atacava amígdalas e faringes.

Polacada!
Negrada!

Amávamos o ódio – assíduos, uns e outros, às vezes mais, às vezes menos, em tocar a corda do variado entendimento. E íamos empurrando, cada um do seu lado, a vida miúda.

Crianças, sentíamos na pele outros trechos. A notícia veio arfante, quase um engasgo, no rosto vermelho do Gordo:

– O Lau morreu afogado.

Éramos cúmplices, todos, da causa mortis: corria a rua e era assunto nas casas da vila, a surra que quase todos levamos, e à mesma caída noitinha, porque uma semana antes, fora Lau, a vítima nervosa do batismo nas águas do mesmo Barigüi que agora o matava. Delatados, todos os olhos nos perseguiam.
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E a morte era o Lau morto. A morte era também uma sala com imagem de Nossa Senhora de Czestochowa, único objeto familiar que nela restara, depois de retirados os móveis e dispostas encostadas à parede, as cadeiras de palhinha. No centro da sala, a morte era também um caixão que nossos olhos evitavam.

– Polacada!
– Negrada!

A morte doía na manhã de sol. A morte era nosso primeiro pecado público. Nos envergonhávamos e sofríamos, cúmplices, todos piás da rua – humilhados, o acontecimento.

Necessário se conformar – outros, igualmente polacos, haveriam de suceder Mieceslaw, principalmente o irmão mais velho, noivo, que tocava gaita-de-boca e tinha músculos de cavalo.

Renovava-se contudo a pergunta: como poderiam ser brasileiros aqueles seres brancos, frios e encapotados, de cabelo amarelo e olhos claros, tropeçando na língua embaralhada? Mais eram: na missa e nos casamentos, nas dificuldades pequenas do dia a dia, na pechincha e no circo, nas grandes bebedeiras e nos velórios.

Mas o que persiste é a morte aterrada na manhã da nova cidade, o escuro do quarto e o coração apertado:

– Polacada!
– Negrada!

wilsonWilson Bueno foi durante anos colaborador desta revista Ideias. Com esta crônica, escrita especialmente para a Travessa dos Editores, inauguramos a série de textos de nossos principais escritores. Wilson Bueno participou de todos os outros projetos da editora, com publicações na revista ETC e em livro, o Bolero’s Bar, dois volumes de textos confessionais. Bueno é considero um dos mais criativos escritores brasileiros de sua geração. Foram 16 livros, a começar pelo Mar Paraguayo, escrito em portunhol. Jornalista, trabalhou em veículos daqui e do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Estado de São Paulo. Criou e editou O Nicolau, jornal de cultura. Faleceu, tragicamente, no dia 30 de maio de 2010, em Curitiba, aos 61 anos.

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