O brasileiro se vira nos 30

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Bateu em 14,2 milhões o número de desempregados no Brasil, 13,7% da população. A pesquisa feita pelo IBGE divulgada no final de abril, embora revele percentual alto e assustador, pode ser ainda muito melhor que a realidade, porque os estudos foram feitos a partir da busca formal de emprego no último mês. Fato que exclui pessoas que por vários motivos não tiveram ânimo para bater de porta em porta com o currículo de baixo do braço e não aparecem nos índices. O IBGE parte, como partem todos os institutos do mundo sobre o assunto, da pergunta “Procurou emprego no último mês?”. Então, há boa chance de que o número de desempregados seja ainda maior.

O problema também se estende para os que estão trabalhando. Pânico de perder o emprego, silêncio diante de alguns abusos do patrão, segurada nas despesas, mudanças de hábitos cotidianos são os amargos remédios antes da doença. Uma prevenção neurótica que faz quem está saudável virar vítima de uma moléstia que pode, ou não, estar a uma casa de distância.

Mas não dá para esquecer que este é o nosso Brasil-brasileiro, a realidade sempre foi dura para a maioria e está em nossas raízes arrumar um jeitinho pra viver. E se os homens da política nos exemplam que há jeito pra tudo nessa vida, a realidade nos diz que a criatividade é o melhor negócio.

A crise não pega todo mundo igual. Uma coisa é ter que cortar as idas ao restaurante e os pedidos de pizza em casa, outra bem diferente é amanhecer sem emprego, cercado de filhos, com pouca instrução. Neste vasto país verde e amarelo tem gente de tudo quanto é status poupando as extravagâncias para manter a cabeça fora d’água.

Há um tipo de rico que não quer perder a pose, por isso prefere atrasar o condomínio para não vender o carro. Entra no clube mesmo com as mensalidades no cabide e pede água em copo alto com gelo e limão e finge que é vodka importada. Deixou de ir a Miami e resolveu dar um tempo em Bombinhas, com a justificativa de que não aguenta mais os aviões cheios de gente. Faz check-in no Facebook em restaurantes caros, mas só passou na porta.

Manter as aparências também exige esforço. Já vi gente colocando no carrinho do supermercado itens caros por cima daqueles mais básicos, como prevenção de encontrar algum conhecido pelos corredores. Na hora do caixa, passa o fundamental e deixa a cesta de primeiras necessidades da outra vida para outro dia, outra semana, outro mês. Também tem madame que de uma hora para outra resolveu adotar uma personalidade altruísta-alternativa, colocando os vestidos, bolsas e sapatos grifados à venda “eu já tenho muita coisa, é insano viver com tudo isso”, mas a renda do brechó chique é para pagar contas que não podem esperar.

Não dá para qualificar sofrimento. Cada um sabe do seu. Tem gente que se desespera porque não consegue trocar de carro na mesma intensidade daquele que não consegue comprar carne todos os dias. As prioridades se espalham conforme o modus operandi.

Quem está na linha do Equador que separa as classes sociais se equilibra como pode. A esposa que antes se dedicava à casa e aos filhos, passa a vender Avon para tentar um troco. O pai que todo final de semana curtia seu momento no futebol society, reduz seu tempo de atleta a uma vez por mês. Os filhos que estavam habituados aos lanches da escola, levam a própria merenda de casa. “E que tal vender a casa da praia, só dá despesa e a gente nunca usa?” E lá fica, entre anúncios e orações, o imóvel a venda mais de ano, esperando tempos melhores e gerando despesas.
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Nas famílias da classe média, com interesses mais de sossego que de grandeza, a perda de emprego também significa o caos: tirar os filhos da escola particular, parar de pagar plano de saúde, vender um dos carros. Foi isso que aconteceu com B.R., engenheiro elétrico, 47 anos, casado, dois filhos. Depois de amargar a depressão pela troca da rotina que parecia sólida, ergueu a cabeça e foi tratar do sustento. Enquanto a esposa segurava as pontas como enfermeira, ele enfrentou o mercado de trabalho, bateu em portas, enviou currículos, fez cadastros em sites que pesquisam vagas. Mas a história é conhecida: a idade, o valor dos salários anteriores, a oferta vasta de profissionais não contribuíram para o sucesso de retomada na profissão. R.B. resolveu vender frutas, tirou uma licença na prefeitura, alugou um carrinho e desfila por ruas distantes de sua casa, puxando a carrocinha com morangos, bananas, uvas e maçãs. Faz nos dias alterados das feiras, competindo também com os mercados. Apesar de ter conseguido uma clientela que já conta como fixa e dando um jeito de pagar as contas, o que R.B. quer mesmo é fazer funcionar o seu currículo de engenheiro e voltar para o mercado formal. Os filhos se adaptaram à escola pública, ninguém ficou doente neste tempo, por isso não sabe avaliar os serviços do SUS, usa o carro da esposa para ir ao Ceasa. A vida segue, mas ele torce para que seja uma coisa de momento.

Classificados de emprego estão com as páginas reduzidas. As opções mais encontradas são aquelas ligadas à área comercial em que os profissionais fazem o salário a partir das vendas, se não venderem, não ganham e não oneram tanto o empregador. Há rotatividade no circuito, porque a população tenta conter despesas e não comprar nada além do necessário, o vendedor não tem sucesso em sua lida diária e é substituído por outro, que provavelmente encontrará o mesmo cenário.

“Mamãe, voltei!” Cresce também o número de famílias já desgarradas do berço, com vida própria, que retornam para a casa dos pais porque não conseguem pagar o aluguel. Segundo dados do Sindicato da Habitação, há uma oferta de imóveis para locação muito acima da média dos últimos anos. E isso não se dá por aquisição de moradias, o setor de vendas também despenca.

Depois de observar o preço dos imóveis curitibanos disparar e um movimento grande entre imobiliárias, construtoras e financiadoras, agora, o que se vê é uma crescente “decoração” na estética da cidade: placas coloridas de anúncios em imóveis fechados para alugar ou vender. Pior, quem comprou e ajustou as prestações de décadas em seus orçamentos, passa por sufoco. Mesmo aqueles que têm mensalidades fixas, enfrentam a tarefa de fazer equilíbrio doméstico para conciliar essa conta com as outras que são variáveis e que só crescem, como a luz, a alimentação, a saúde etc.

Dividir as despesas pareceu o melhor negócio para M.V., que voltou a morar com a mãe. Separado e sem trabalho, o jornalista justifica que a idade avançada da mãe é também um fator para que ele esteja junto, mas se envergonha quando perguntado diretamente sobre sua situação atual: “Tenho 58 anos e minha mãe voltou a me dar mesada”.

No Trópico de Capricórnio de nossa escala social está a mais frágil das situações. Pessoas que já viviam num estica e puxa danado, vendendo o almoço para comprar o jantar. Quando o desemprego chega para essa faixa, o baque é imediato. Essas pessoas não têm carro e não podem aderir ao Uber, maior quebra-galhos desses tempos. Também não têm formação técnica para chegar à tentativa de um emprego. Não há reservas para os tempos ruins nem muita esperança.

É um abismo que se divide entre catadores de papel, vendedores de sorvete na rua, pedreiros sem conhecimento, faxineiros instáveis, flanelinhas, mascates de quinquilharias, camelôs sem licença e um sem-fim de profissões sem qualquer segurança.

E essa classe agora ainda tem que dividir as filas dos postos de saúde, das vagas de creche e dos serviços públicos que antes eram “exclusivas” com outras pessoas da sociedade que num outro momento pagavam por esses serviços de forma particular.
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S.K. tem 32 anos, três filhos, mora com os pais. Era atendente de telemarketing, mas foi mandada embora depois de sucessivas faltas para levar criança ao médico, dar suporte à mãe doente, se atrasar por causa do ônibus e outras inúmeras infrações em sua ficha na empresa. Justa causa, não pode nem contar com o amparo de ser demitida em outras condições. Inspirada na cunhada, agora ela quer trabalhar num supermercado. Enquanto espera que uma vaga surja, distribui folhetos num sinaleiro. Ganha por dia. Quando não a chamam para trabalhar, ela não recebe. Isso fez com que desenvolvesse a gambiarra da gambiarra. S.K. faz a faxina pesada de uma pastelaria “É trabalhoso, porque tem muita gordura e eu só posso limpar à noite, quando não tem mais cliente, às vezes eu levo massa de pastel para casa e as crianças gostam”.

É nessa parcela da população que mora o informal. Mesmo antes da crise, de Temer, de Dilma, de Lula e antes de qualquer pesquisa. São muitos os que mesmo com trabalho formal garantido, arrumam um bico para compor a renda. É por isso que um porteiro registrado de um prédio do centro da cidade trabalha duas noites por semana como vigia num estacionamento. E que a atendente de lanchonete dorme na casa de uma senhora que precisa de cuidados.

Há um tipo de balela que é repetida por muitos, mas que não tem a menor relação com a realidade: as oportunidades da crise. Exceções são usadas como exemplo de maioria. Os poucos casos de sucesso que conseguem nascer ou prosperar no pior dos tempos representam um percentual muito baixo para servirem de referência.

Podem ajudar o mensageiro dessa retórica irreal. Como por exemplo as igrejas, que cada vez mais têm seus bancos abarrotados de gente. Mais que fiéis a uma ideia filosófica ou mística, são desesperados em busca de ajuda divina ou de empatia terrena. Com a facilidade de poder abrir uma portinha em qualquer lugar da cidade, sem se preocupar com as taxas que outros empresários têm que arcar e utilizando a interpretação subjetiva das coisas sacras a seu favor, os pastores têm mais facilidade para sobreviver e prosperar nos negócios que o pessoal da plateia.

Também fogem da regra geral as grandes instituições financeiras que penduram em juros os seus devedores e lucram cifras impressionantes a cada ano. Aqueles que têm um dinheirinho guardado acabam também encontrando um mercado de trabalho. Contratos de boca ou formalizados em cartório, crescem entre os que emprestam dinheiro, agiotas.

E mais um exemplo: a servir de alívio momentâneo, e muitas vezes contínuo, os botecos de bairro cada vez mais recebem pais de família a afundar suas frustações financeiras no copinho do nosso patrimônio nacional. Enquanto a caipirinha consegue ter uma variação de até 247% em alguns lugares chiques do país, a caninha mais popular tem a dose vendida a partir de R$ 0,50.

O brasileiro tem criatividade para continuar vivendo, mas isso é despertado mais pela luta pela sobrevivência do que por engenhoca intelectual de dar jeito no cotidiano.

Quando Michel Temer disse “Não pense em crise, trabalhe”, soou como um desaforo a boa parcela da população, porque o desemprego não é uma questão de opção. Desemprego é uma sentença dura e cruel, é a perda da dignidade, da possibilidade de realizar conquistas, mesmo que isso signifique apenas um prato de feijão com farinha.

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