Os frutos da ignorância

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Pesquisa recente, de fonte fiel, mostrou 82% da população contra o governo de Michel Temer, índice que só era obtido pelo Demônio, quando este parecia risonho e franco, antes de Montaigne. O brasileiro, enfim, perdeu a esperança. Nada acontece nos últimos dois anos que possa dar-lhe ao menos a sensação de que podemos ter encontrado um caminho para sair da crise. Nada. As notícias são péssimas em todos os fronts. Na política, a percepção de que tudo foi contaminado pela corrupção. Agora, ao olhar do povo, o tucanato se equipara ao petismo e ao PMDB depois da exposição de seu presidenciável, Aécio Neves, a pedir propinas disfarçadas em transações de imóveis. Vergonhosamente medíocre.

Trocou-se de presidente. A uma personagem tosca, atrapalhada, de peça de Arthur Azevedo, seguiu-se, em aparência, ao menos, uma personagem tétrica de Edgard Allan Poe. Na prática, para os desempregados, os que tiveram salários achatados, os que veem os filhos roubados pela droga, nada mudou. Pior, o esforço para vender uma perspectiva otimista feita pela equipe econômica de Henrique Meirelles não derruba o desemprego, a fome, a criminalidade e todos os efeitos colaterais perversos da crise.

No fundo do poço, agônico, o distinto público recebe de Meirelles a notícia de que a recessão parece estancar, mas sabe ele que, não fossem as commodities, estaríamos fritos. A salvação foi a lavoura. O agronegócio impediu desastre maior e os remédios amargos estão a caminho para serem administrados na marra, como dose cavalar de óleo de rícino a ser aplicada a um enfermo terminal. A reforma da Previdência, a reforma das leis trabalhistas e outras iniciativas malpostas e mal compreendidas afetam sim a vida dos brasileiros. E não adianta tentar enganar a todos o tempo todo.

A classe média estrila. Sente-se ultrajada diante de um acordo de leniência que entregou a um grupo de escroque uma fortuna de bilhões de dólares em troca de serviço sórdido de indução e gravação de um presidente da República que se mostrou, além de tudo, incompetente para gerir até mesmo sua vida pública ao receber em horas tardias bandidos em sua residência oficial para uma conversa que o incrimina como prevaricador e também como néscio.

RESSENTIDOS E HUMILHADOS
O povo uiva seu ressentimento classista e aguarda a punição dos ímpios pelas mãos do juiz Sergio Moro, transformado em Anjo Vingador. Não suporta ver a deterioração de sua condição de vida e atribui todas as suas mazelas à corrupção. Não consegue perceber, nem de longe, os equívocos cometidos na condução da política econômica no período do lulopetismo. Não entende que depois da crise mundial, Lula modificou a economia e adotou medidas de caráter populista para segurar sua liderança em alta. Iniciou crescente intervenção estatal na economia e partiu para a reedição de políticas do passado, notadamente fórmulas usadas no governo fardado de Ernesto Geisel.

No governo de Dilma Rousseff, essas ideias triunfaram de vez. A taxa de juros baixou na marra. O regime cambial deixou de ser flutuante, o cumprimento da meta do superávit primário passou a depender de malabarismos financeiros e artifícios contábeis. O Banco Central se tornou tolerante à inflação e o controle de preços que fragiliza a Petrobras voltou à cena. Na outra ponta, o Banco Central a suprir subsídios generosos para empreendimentos escolhidos a dedo por Lula e Dilma como campeões do tipo JBS-Friboi, dos irmãos Batista, ou o sistema X de Eike Batista. Foram bilhões entregues a gângsteres para construir impérios privados que abasteciam o sistema político engendrado pelo PT e seus sócios com o necessário para se reproduzir no poder.

O protecionismo voltou. A confusa intervenção no mercado de energia elétrica escancarou o autoritarismo populista de Lula e sua corja. A procurar respaldo social, o foco da política econômica passou a ser a demanda, um equívoco crasso, pois o problema está na oferta, sobressaindo a baixa competitividade da indústria. Mas o resultado imediato rendeu prestígio e popularidade a Lula, que conseguiu eleger postes como Dilma, Haddad e tantos outros. Anunciavam descaradamente que uma parcela significativa da população saíra da miséria para a vida de classe média ao comprar um carro e eletrodomésticos em 70 prestações mensais. Essa bolha um dia teria que estourar. E estourou. Ainda garantiu a reeleição de Dilma Rousseff, mas logo se viu que as promessas de campanha bilionária, regada com dinheiro sujo desviado de estatais e do superfaturamento de grandes obras, já não correspondiam à realidade. Foi Dilma Rousseff quem procurou um economista “neoliberal” para tentar pôr ordem na casa. Era tarde. O país já tinha ido para o brejo.

AS RAÍZES DAS MAZELAS
Foi nesse sistema de privilégios e relações promíscuas do governo com empresários que mais parecem ter se formado na Escola de Chicago, não a da corrente econômica, mas a de Al Capone, que o governo petista chafurdou. Em nome da causa que já não era causa, de continuar no poder a qualquer custo, abriram-se todas as burras do Estado para a corrupção. A classe média acredita que aconteceu o contrário. Para ela, foi a corrupção que destruiu a economia e a era Lula. Na verdade, foi atingida em cheio pelas consequências de uma política econômica que acreditava que o investimento e o PIB cresceriam com uma combinação de juros baixos, câmbio desvalorizado, crédito subsidiado e proteção à indústria. Não funcionou. Desconsiderou-se a importância da produtividade, que despencou. O intervencionismo criou incertezas que inibiram o investimento. O potencial de crescimento caiu.

Restou a Lula e Dilma Rousseff afirmar que nossas mazelas eram resultantes da crise mundial e que a má fase logo passaria. Como sói acontecer nos regimes populistas, essa balela foi sustentada por gastos estratosféricos em propaganda. Mas um dia a casa cai. A versão do lulopetismo sobre a realidade perdeu força quando a realidade entrou na vida dos brasileiros. A classe média emergente teve de vender o carro e eletrodomésticos que passaram a ser supérfluos. A frustração é enorme.

A classe média que vivia sonhos modestos mas tranquilos antes do advento de Lula e seu populismo secundado por Dilma e todas as colorações da esquerda nativa, se sentiu desamparada. Agora acontecia o processo inverso. Perdeu até o que já tivera antes: obrigada a economizar, trocou a assistência médica privada pelo posto público de saúde, o colégio particular pela escola pública, impôs-se um regime de economia que cortou viagens, férias, consumo de gás e eletricidade, moderação à mesa, um rol de providências que a levaram à quase humilhação. Foi isso que lhe deu o impulso para sair às ruas e gritar contra os governos e contra o único dragão da maldade que consegue enxergar, a corrupção. Vai ao orgasmo quando vê a notícia de novos presos pela Lava Jato. E pede punição para purgar sua frustração, por isso não admite que um dos beneficiários mais bem tratados pelo governo petista, Joesley Batista, simplesmente entregue quem corrompeu e mude para Nova York para fruir o resultado do assalto aos cofres do BNDES.

A IGNORÂNCIA COMO MÉTODO
Incapaz de compreender o processo que afeta sua vida, o povo brasileiro embarca em qualquer canoa que lhe pareça a maneira de depor quem está no poder para, talvez, guindar homens mais probos e patriotas. Essa ingênua concepção da história, dominante na vida brasileira e alimentada por intelectuais de diversas extrações que só conseguem pensar na volta das benesses que um governo populista sempre pode lhe oferecer, é a prova provada de nosso atraso.

A ignorância atribui às eleições diretas, por exemplo, o poder de elixir infalível capaz de purgar todas as mazelas que desgraçaram o país. Ora, pois, eleições diretas hoje privilegiariam as piores soluções que o país poderia ter. As pesquisas mostram o de sempre. Na crise, na frustração das massas, o discurso radical de direita ou de esquerda, que muito se aproximam, faz enorme sucesso. É prometer rios de leite e mel, benesses à vontade, proteção do Rei e punição dos ladrões que a maioria se atrela com rapidez. Não está para ouvir quem tente lhe explicar as profundidades da vida econômica. Tudo bem, não há solução melhor que a democrática, mas a vida democrática começa pelo respeito às leis e regras vigentes. Qualquer casuísmo neste momento beneficiaria extremos que já experimentamos e não gostaríamos de repetir.

Encaremos a realidade. Neste país mais de 30 milhões de cidadãos ignorantes da sua cidadania vivem na miséria, 14 milhões não têm emprego e outro tanto dessa magnitude vive o subemprego e a marginalidade. Entre os empregados, mais de 70% ganham de dois salários mínimos para baixo, a realidade é a da indigência. Há algo de irracional no enredo desta crise como fruto de turvos sentimentos medrados em almas toscas. Tal pode ser o combustível de gestos extremos que não consultam a lógica.

O tema diretas ganhou força pela fragilidade do presidente Michel Temer, abatido pela delação de Joesley Batista, o canalha, como o chamou seu criador, o ex-presidente Lula em discurso no Congresso Nacional do PT. Mas, mesmo encurralado, Temer continua presidente, o que torna surrealista falar de eleições para sucedê-lo, sejam elas indiretas ou diretas. Temer é um sobrevivente que tem conseguido, com aparelhos, manter a respiração. Perdeu fôlego no Congresso, mas não o suficiente para ser impedido, Nada aponta que será condenado de imediato e, se for, que sairá rápido do Planalto, dadas as possibilidades de recursos.

O processo judicial é moroso, pleno de discursos laxativos, leitura interminável de votos em linguagem de rábulas e consente uma infinidade de recursos que permite prever que este processo, a continuar ou se repetir, só terminará depois que Temer entregar o mandato ao sucessor em 2019. Até lá e sempre, paciência.

O VERDADEIRO RESPONSÁVEL
De qualquer forma, percebe-se que o brasileiro comum e a Justiça fizeram as pazes. Não em tudo, é claro, porque não é possível chegar nem perto disso, mas o distinto público, finalmente, teve a satisfação de ver gente poderosa ser condenada a penas de prisão. Quer mais. Exige todos os canalhas na cadeia, desconfia da decisão do ministro Edson Fachin, do STF, em atender Rodrigo Janot, da Procuradoria, que colocou Joesley Batista e sua gangue em liberdade e com todo o fruto do assalto preservado.

Continua do mesmo tamanho o problema que está na raiz de toda essa história. Os delinquentes que, condenados pelo STF, não entraram no governo à força. Nem por obra do Divino Espírito Santo. Quem os colocou no poder ou lhes deu acesso ao Erário foi o eleitorado brasileiro, diretamente ou por influência dos políticos que elegeu. É desagradável dizer isso, mas na vida real é isso que acontece e assim sendo não há tribunal que resolva, nem com o rei Salomão na presidência dos trabalhos. O eleitorado não é ruim, nem bom, por ser semianalfabeto. Também não tem nenhuma obrigação de votar bem; tem o direito de votar. Mas é inevitável que a ignorância produza consequências. Eleitores desinformados, indiferentes à própria cidadania e que votam para ter os documentos em ordem tendem a escolher mal.

Em vez de gritar pelas diretas, a faixa “pensante” da população deveria é imaginar como desmontar o atual conjunto de regras eleitorais e colocar no seu lugar um novo sistema de eleições. O objetivo é muito simples: tornar mais fácil para o eleitorado brasileiro, tal como ele é hoje, a escolha de políticos mais bem qualificados para trabalhar pelos interesses da população. Um novo sistema que pudesse acabar com Renans, Tiriricas e Malufs. Não me ocorre outro que não seja o voto distrital. Antes, o fim do voto obrigatório. Candidatos que teriam de se candidatar por um único distrito, e só poderiam ser votados ali, onde são conhecidos. Seria um bom começo, mas ainda há pouca gente a pensar nisso. É mais fácil pensar como sempre, macunaimicamente, à espera de um milagre e de um Messias.

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