Eu queria ter feito essa música

adriana

Parecia-me que a Terra não seria habitável se não houvesse alguém que eu pudesse admirar.

Simone de Beauvoir

No início, quando não existia música, provavelmente nossos ancestrais se maravilhavam com os uivos dos ventos e os cantos dos pássaros e os barulhos das ondas e o ritmo sincopado de suas ferramentas em pedras e assobios da fala e sussurros dos corpos e toda a sorte de sons naturais que percebiam na intuição do prazer.

Decerto, penso eu, foi por isso que inventaram a música, para tentar reproduzir, partindo do entendimento humano, tudo aquilo que elevava a alma.

E, talvez, assim tenha sido, de um para o outro, entre descobertas e invenções a partir de uma fonte primeira que a música ganhou forma, contornos, ritmos, gêneros, significados.

Gosto de acreditar nisso.

Imagine que data de 3,4 mil anos atrás a primeira partitura do mundo. Foi encontrada nos anos de 1950 na região da Síria. Dizem que era dedicada à deusa Nikkal durante o plantio, para que ajudasse na colheita. Tem cerca de um minuto, quando ouvi pela primeira vez, não achei estranha, nem primitiva, nem nada que a pudesse julgar de tempos tão remotos. A não ser pelo final, que acaba simplesmente, sem ir acabando, sem esse gerúndio que nos leva a saber que o fim se aproxima. Você pode ouvi-la no YouTube; procure a versão de Fernando Moura para Hino Hurrian nº1, ele faz a leitura sem absolutamente nenhuma firula a mais, inclusive respeitando o tempo da partitura, que, como disse, não chega a um minuto.

Desviei-me um pouco do assunto central da coluna deste mês com essa historinha da primeira partitura, mas voltando ao ponto, é de admiração que quero tratar hoje. Aquela que de tão grande quase (quase?, quase!) tem uma pontinha de inveja.

Quem nunca leu alguma coisa sensacional e pensou “eu gostaria de ter escrito isso”? Acontece também na música, claro.

Vamos dar uma voltinha pela MPB e ver quem gostaria de ter feito o que.

A primeira parada é com o nosso Rei do Baião, Mestre Lua, Luiz Gonzaga: “Puxa, Gil, como eu gostaria de ter feito essa música. (…) Vocês hoje reclamam, vocês falam da miséria que existe no Nordeste, da falta de condições humanas. Eu não podia, eu falava veladamente, eu era muito comprometido, muito ligado à Igreja no Nordeste. Eu tinha compromissos com os coronéis, com os donos de fazenda, que patrocinavam minhas apresentações. Eles eram o meu sustento. Eu não podia falar muito mal deles”. Gonzagão estava a falar sobre “Procissão”:
“… As mulheres cantando tiram versos / os homens escutando tiram o chapéu / Eles vivem penando aqui na Terra / Esperando o que Jesus prometeu / E Jesus prometeu coisa melhor / Pra quem vive nesse mundo sem amor / Só depois de entregar o corpo ao chão / Só depois de morrer neste sertão / Eu também tô do lado de Jesus / Só que acho que ele se esqueceu / De dizer que na Terra a gente tem / De arranjar um jeitinho pra viver”. Eu também queria ter feito!

Já Luiz Gonzaga teve em Chico César a confissão de que queria ser autor de uma música sua. “Paraíba”, que tem parceria com Humberto Teixeira: “Quando a lama virou pedra / E Mandacaru secou / Quando o Ribaçã de sede / Bateu asa e voou / Foi aí que eu vim me embora / Carregando a minha dor / Hoje eu mando um abraço / Pra ti pequenina / Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô”. Você tem que dividir comigo a vontade de assinatura dessa, Chico.

E ele também citou André Abujamra e sua “Alma não tem cor”: “Branquinho / Neguinho / Branco negão / Percebam que a alma não tem cor / Ela é colorida / Ela é multicolor”.

Moraes Moreira é dos meus, certa vez disse que faria um show intitulado “Elogio à inveja” de tantas são as músicas que ele queria com sua assinatura. Algumas: “Cajuína” de Caetano Veloso: “Existirmos a que será que se destina / Pois quando tu me deste a rosa pequenina / Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina / De um menino infeliz não se nos ilumina”. “O que será”, Chico Buarque: “O que será que será / Que dá dentro da gente e que não devia / Que desacata a gente, que é revelia / Que é feito uma aguardente que não sacia / Que é feito estar doente de uma folia / Que nem dez mandamentos vão conciliar / Nem todos os unguentos vão aliviar”. E Moraes Moreira ainda completa sua lista de exemplos rápidos com Assis Valente e a “Brasil Pandeiro”, que muitos creditam aos Novos baianos, por causa do sucesso que fizeram com a interpretação: “Brasil, esquentai vossos pandeiros / Iluminai os terreiros que nós queremos sambar / Há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente / Num batuque de matar / Batucada, reunir nossos valores / Pastorinhas e cantores / Expressão que não tem par, ó meu Brasil”. Sim, Moraes, eu também, todas.

Guilherme Arantes deu entrada a dois pedidos de “queria ter feito essa música”, um para “Meu bem querer”, de Djavan: “Meu bem-querer / É segredo, é sagrado / Está sacramentado / Em meu coração”. E outro para “Quero que vá tudo pro inferno”, do Rei e seu amigo Erasmo Carlos: “Não suporto mais, você longe de mim / Quero até morrer, do que viver assim / Só quero que você, me aqueça neste inverno / E que tudo mais vá pro inferno”. Até gosto das músicas citadas por Arantes, mas não concentraria vontades nessas duas.

Fernanda Takai disse que “Canção para viver mais” de John Ulhoa é uma música que queria ter escrito para o pai. Durante a audição para essas linhas, fiquei bem emocionada, principalmente influenciada pela declaração da cantora, a história com o pai… “Deixei que tudo desaparecesse / E perto do fim / Não pude mais encontrar / O amor ainda estava lá / Faz um tempo eu quis / Fazer uma canção / Pra você viver mais”.

O moderno, meio pop, meio MPB, meio Ney Matogrosso, meio Leo Fressato, um tanto difícil de descrever, Filipe Catto tem gosto apurado a respeito de suas vontades de autorias próprias em músicas alheias. “Acho que todas do Chico”, ele disse, mas aí fica fácil, né? Ele e a torcida do Fluminense (para não faltar com o respeito ao compositor). Apertando mais um pouquinho, Catto confessa “Contradições”, da dupla Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, que brilha no repertório de Nana Caymmi: “Reviver, muitas vezes é malquerer / Se o destino era se perder / No amor de outro alguém / Apagar, sempre é adiar / O que vai retornar / Como o mar e o luar”.

Não é sobre o mesmo assunto, mas não dá para deixar de citar Manuel Bandeira, quando ocupou página do Jornal do Brasil em 1956 para dizer que “Se se fizesse um concurso para apurar qual o verso mais bonito da nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes em que ele diz: ‘Tu pisavas nos astros distraída…’”. Voto com o relator, na citação e no ‘talvez’, porque é difícil achar um verso nessa multidão que é a MPB.

Agora, se o negócio da admiração correr em pensamentos mesquinhos, se cruzar a barreira da estima e contemplação para chafurdar nos males do ciúme e despeito, Zé Catimba e Martinho da Vila avisaram em “Cuidado com a inveja” e é com esses versos que encerro a coluna: “Cuidado com a inveja / Ela ainda te mata / Inez já é morta / E Marta morreu / Cuidado com a porta / Ela sempre se fecha / Pra quem tem a pecha de ser um plebeu […] A minha alegria te deixa nervoso / O meu carro novo te irrita demais / Amigo coloca um amor no teu peito / Senão tua vida vai andar pra trás / Rapa fora Satanás”.

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