Maldição primeva

fabio

O mundinho frívolo e melodramático da esquerda nativa é desolador. Por aqui, nenhum debate importante, nenhuma iniciativa que não seja a repetição das velhas palavras de ordem e dos discursos rotos do nacionalismo e do culto estatólatra. De resto, o tom ressentido, quase delirante, com que os militantes investem contra quem não concorda com os slogans, iniquidades e absurdos que defendem, revela a sua angústia, o seu sentimento de culpa. Quase podemos perdoá-los, porque sabem o que fazem.

Na verdade, a esquerda sofre bastante com a consciência profunda de sua inadequação. Optou pela farsa. Não consegue admitir que ao aderir aos poderes e entregar-se aos governos comandados pelo PT, traiu a si mesma em troca de emprego, de uma sinecura, de uma verba fácil do Estado, até esterilizar-se culturalmente. A verdade, vexaminosa, é a do desespero da rapaziada da esquerda ao perder benesses e prebendas que recebia para manter suas cabeças pretensamente pensantes. Nessa toada, fez-se o transformismo da esquerda revolucionária para esquerda funcionária. Submetida e útil perifericamente a um esquema de corrupção gigantesco que agora procura negar. De forma patética.

Há nesse meio quem considere que o tempo é de lamber as feridas, e não de procurar-lhes as causas. Nessas avestruzes qualquer ensaio crítico provoca ressentimentos e hostilidade.  A maioria evita o dilema comparecendo às passeatas, mesmo quando são hostilizadas. Assina um manifesto aqui, outro acolá, integra movimentos minoritários pela liberdade sexual, a salvação do planeta, o casamento gay, a marcha da maconha, a proteção das baleias, os direitos dos animais e, óbvio, a diversidade de gêneros que já são tantos que usa todas as letras do alfabeto para designá-los. O LGTB inicial agora tem dezoito letras. Tudo bem, como dizem as almas parvas, mas não é esse o caminho da transformação social que a esquerda prometia.

A esquerda ficou chata. Repetitiva. Vocifera contra o golpe e o fascismo, discursa contra o neoliberalismo e o imperialismo americano. Entre uma cerveja e outra faz má literatura sobre a pobreza dos pobres ou passa a descobrir virtudes sociológicas na música funk. O priapismo também acomete alguns participantes, se bem que sexo, nesse ambiente, é mais assunto de conversa do que de ação.

O ideologismo doidivanas, rarefeito, incapaz de expressar o que pretende abranger, é a maldição primeva da esquerda brasileira. O militante só consegue sentir-se integrado na sociedade ao rejeitá-la e firmar promessa de destruí-la. Enquanto isso, lutam gritam pela volta de Lula ao poder e com ele o Estado Mecenas. Todos querem o amparo rápido, seguro, do Príncipe, do Senhor, do Pai, mesmo que seja ele o responsável pela desgraça que vivemos, com 14,5 milhões de desempregados e uma população em franco empobrecimento.

O nosso subdesenvolvimento é, antes de tudo, um vácuo social, onde gestos civilizados são fúteis. Só ganham consistência as manifestações primitivas. É a força bruta que mantém ou rompe o casulo da mediocridade. A esquerda entrou nesse jogo por se acreditar a força que comandaria as mudanças mais significativas e acabou como massa de manobra a chafurdar no mesmo esgoto da corrupção.

Quem prefere ficar de cabeça acesa, a mente aberta, vive uma grande depressão.

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