Melancholia!

armando

Quando assisti ao filme Festa de Família do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg em 1998, que trata do abuso sexual no meio familiar, fiquei fortemente impressionado com aquele jeito peculiar de se fazer cinema. Então, freneticamente, fui buscar informações sobre ele e descobri a existência de um interessante movimento liderado por cineastas dinamarqueses denominado Dogma 95. Ele fora propositadamente lançado em Paris em 1995, ano do centenário da invenção dos irmãos Lumière. Nada mais simbólico.

Os diretores Thomas Vinterberg e Lars von Trier criaram uma série de regras para se produzir uma película, dentre elas as de que os filmes deveriam obrigatoriamente ser realistas e não comerciais, além de usarem as câmeras na mão, som direto do local de filmagem, ausência de crédito do nome do diretor, e por aí afora. Era a criatividade dinamarquesa revolucionando o cinema. O certo é que o movimento foi um sucesso e produziu filmes da melhor qualidade, sendo o chocante Festa de Família o seu precursor. O incrível Vinterberg ainda traria o perturbador A Caça e o controverso Longe Desse Insensato Mundo.

No entanto Lars von Trier foi mais adiante que Vinterberg a começar pelo sensível Dançando no Escuro de 2000 e pelo inesperado, dramático e verdadeiro Dogville de 2003. Com uma produção toda filmada em um galpão na Suécia em cujo piso desenharam-se as ruas e as casas de uma cidade no que podemos denominar de cenário conceitual, Dogville é devastador com o humanismo e um resumo cruel da miséria humana. Talvez a melhor interpretação de Nicole Kidman, bela e angustiada como sempre.

Posteriormente, o hoje controverso Lars filmou Melancholia em 2011, Anticristo e Ninfomaníaca I e II em 2013. Nesses últimos, o cineasta deixou um pouco de lado os princípios técnicos do Dogma 95, mas não a sua essência realista e não comercial.

Mas meu relato é sobre Melancholia e o dia em que adoeci no cinema. Ao sair daquela modesta sala do Novo Batel, estava realmente doente, depressivo e angustiado. A última vez que sentira uma reação física emocional em um cinema fora em Blade Runner em 1982, meu filme de cabeceira. Cambaleante, sentei-me na primeira poltrona à vista naquela claustrofóbica sala de espera do subsolo. Então acomodei-me tal qual Harry Haller, o lobo da estepe, fazia na escadaria da pensão em que morava e deixei passar o profundo efeito negativo do drama vivenciado na película daquele maldito dinamarquês e cheguei à inacreditável conclusão que o cinema pode matar alguém. Exagero? Certamente. Mas é quase uma verdade, convenhamos.

O filme, estrelado por Kristen Dunst e Charlotte Gainsbourg no papel de irmãs em uma família disfuncional perturbadas com a morte iminente, trata de uma colisão cósmica que traz o fim de toda a vida e tudo isso ao som de Tristão e Isolda de Wagner que causa no coração de quem assiste uma inescapável sensação de desespero e destruição. A história faz um mergulho profundo na dramaticidade de como lidar com o amor, perda e a depressão diante do fim literal do mundo. Mas o fascínio do filme não é a forma como isso vai acabar – Lars Von Trier deixa isso claro nas fotos de abertura – mas como as duas irmãs lidam de forma diferente com a morte iminente. A metáfora existencial foi intensa o suficiente para me deixar sorumbático e melancólico o resto do dia. Como isso aconteceu em 2011, época do lançamento do filme, tenho deixado de lado, nesses últimos anos, a turma do Dogma 95, passando a esperar com “ansiedade” o lançamento de Piratas do Caribe, A Vingança de Salazar para dar boas risadas com as aventuras do histriônico e divertido Jack Sparrow, pois afinal cinema também é alegria. Chega de melancolia!

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