Risco sério de piada em clima psicossocial

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Na greve dos jornalistas de 1963, cuja deflagração ajudei com discurso pesado em assembleia unitária de colegas e gráficos no sindicato dos bancários, ocorrida poucos meses antes da Redentora, deu para perceber que ainda mais em Guerra Fria, como a que dividia o mundo, até piada pode se transformar em prova de comprometimento. O jornal Diário do Paraná furou a parede e não tivemos alternativa que não fosse a tentativa de cercá-lo e até de tirar do seu interior, pelo convencimento ou na marra, os companheiros dissidentes. Duas vezes o Edésio Passos e nós tentamos a audácia, uma delas com um pelotão de PMs dando cobertura ao jornal que impetrara e obtivera habeas corpus para seus diretores e profissionais nele ingressarem.

Uma das medidas suasórias foi colocar na frente do prédio um gigantesco veículo do Corpo de Bombeiros (lembro que o Adherbal Fortes de Sá estava sob uma de suas rodas gigantes, curvado, mas engajadíssimo na batalha) e foi nesse momento que me atribuíram função menos tensa: fazer uma proclamação no programa “Repórter Petrobras” da Rádio Independência, uma das maiores audiências da praça. No interior de uma churrascaria, fiz o discurso anticomunicação na base do “milhares de pessoas assistem, estarrecidas, o clima de massacre de jornalistas numa greve diante do jornal Diário do Paraná”. Em poucos instantes a massa tomou conta do local: deputados e vereadores vieram dar solidariedade aos jornalistas e gráficos e a situação ficou complicada para a própria autoridade diante do acúmulo de gente.

No desdobramento da ocorrência a piada inconveniente de que o Valmor Marcelino estaria com a bandeira soviética à mão e que eu lhe teria observado “essa não, a antiga” isto é o pavilhão nacional, “auri verde pendão da minha terra// que a brisa do Brasil beija e balança// estandarte que a luz do sol encerra// nas asas divinas da esperança”. Conforme a atmosfera psicossocial, não se brinca, de forma alguma, com símbolos cívicos. Ainda bem que a piada de discutível gosto não apareceu nos inquéritos que respondemos na Auditoria de Guerra. Isso vem muito a propósito da decisão recente do ministro Edson Fachin transferir, por questões de segurança, o Rodrigo Rocha Loures da Papuda para a carceragem da Polícia Federal. No meio da semana o Correio Braziliense deu a notícia de que o ex-deputado corria risco de um atentado. Ademais todos lembravam daquilo que o Aécio Neves falou, brincando, na gravação, de que se eliminaria o delator. Uma piada, como aquela da troca de bandeira, ou de uma frase como a do senador mineiro, conforme o clima psicossocial, é nitroglicerina pura ainda mais com a frequência, por enquanto longe daqui, do terror.

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