Seu Zito

Zito Alves Cavalcanti

Zito Alves Cavalcanti nasceu em agosto de 1924 em Curitiba. Sua primeira lembrança de cinema, levado pelo pai, aos seis anos, era a de filmes do Rin-Tin-Tin, cão pastor alemão, que encenava um fiel companheiro, bravo guerreiro, porém vulnerável, e que virou uma celebridade, ainda na década de 20. Zito não lembrava se latia ou não (se filme mudo ou sonoro), mas que, já rapazote, chegava ansioso nos domingos, frente ao cine Odeon às 12:20 horas, para a programação que só começava 14 horas.

Um tio que gostava muito de cinema lhe presenteou com um projetor Pathè a manivela e lâmpada caseira, e com aguçada curiosidade, foi descobrindo os segredos da mecânica cinematográfica. Comprava em uma loja, tipo sebo, mas que tinha de tudo, rolos de filmes em cor sépia, vermelho, verde, 35mm. Chegava em casa, passava aquilo, e depois comprava outro.

Rin Tin Tin e seu criador Lee Duncan

Rin Tin Tin e seu criador Lee Duncan

Fez amizade com um rapaz que era projecionista do cine Broadway, e finalmente chegou à cabine do cinema para ver como era um projetor de verdade. A partir de então, todo final de tarde, depois da aula, ficava pela frente do cinema, olhando os cartazes, conversando com amigos. Até que um dia o Henrique Oliva, que era o dono do cinema, e que ficava sentado numas poltronas da sala de espera, ao lado do porteiro, olhou para o rapaz e disse: “O guri, você que está todo dia aí, não quer trabalhar para mim?”. Nesta época trabalhavam três em uma cabine com dois projetores, o operador, o ajudante, e o enrolador dos rolos já exibidos, que vinham em partes de dez minutos. O operador era o responsável pela passagem de um projetor a outro, dando continuidade ao espetáculo.

Deveria ter uns quinze anos, mas sua carteira de trabalho está em julho de 1942, depois de completar 18 anos. Ficou nesta empresa até se aposentar, como responsável técnico e gerente do cine Lido. Pouco antes disso, abrira a Paracine, com seu filho Dirceu, empresa especializada em equipamentos cinematográficos e manutenção. Esta empresa mantinha e montava cabines de projeção em quase todos os cinemas da capital e interior do Paraná. Montaram e desmontaram mais de cem cinemas, inclusive a Cinemateca e os cinemas da Fundação Cultural de Curitiba. Ainda, foi dono dos cines Ahú, no bairro Ahú, Picolino, ao lado da igreja do Cabral, e Dom Pedro II, em Campo Largo. Mas para muito além de sua capacidade técnica, Zito era um amante da sétima arte.

O primeiro filme que o impressionou foi a extraordinária produção de 1933, “King Kong”. Direção de Merian C. Cooper com Robert Armstrong, Fay Wray, música de Max Steiner, efeitos especiais criados por Willis O’Brien, RKO Pictures, exibido aqui em Curitiba no cine Palácio, onde mais tarde seria o operador. Amou o filme, o cinema e o gorila, no alto do Empire State, ao ser baleado, comovendo-o. Mais tarde colocou naquela tela atores, dramas, comédias e aventuras que fazem funcionar a então chamada usina de sonhos. Em espetáculos teatrais, foi parceiro de Procópio Ferreira, Oscarito, entre outros, e exibiu os filmes do mesmo Oscarito, que encantavam multidões.

King Kong de 1933

King Kong de 1933

Da cabine de projeção, o cinema não estava restrito ao filme, pois lá de cima, tudo via, ouvia e sentia com as multidões que lotavam as enormes salas. Dizia que os mocinhos e bandidos, nem sempre estavam na tela. Muitos filmes o impressionaram, e quando acontecia, voltava ao cinema na sua folga, e da plateia, sonhava acordado, como dizia que se devia ver um filme.

Aconteceu, por exemplo, quando projetou “A estrada da vida”, (La strada), com Giuleta Massina, Anthony Quinn, Richard Basehart, direção de Federico Fellini, produção de 1954. Ficou tocado pela frágil figura de Gelsomina e pelo drama de dois palhaços sem rumo, em suas palavras.  Ou “A montanha dos sete abutres” (The big carnival), com Kirk Douglas, Jan Sterling, direção de Billy Wilder, Paramount de 1951, notável drama sobre o jornalismo marrom. Não era um nostálgico, e eu poderia citar centenas de outros filmes que gostava ou não, contrariando inclusive a unanimidade de opiniões. Outro feito do Zito, como gerente, foi acabar com a exigência de que homens só entravam de gravata nos cinemas. Principalmente os estudantes, entravam com a gravata, e a atiravam aos colegas de fora, em protesto. Era o início de 60, quando ele começou a permitir a entrada sem, e a novidade se espalhou.

Em nossas conversas em seu último reduto, na sala de espera do cine Plaza, em 2005, perguntei, o que o levava a assistir um filme hoje? Resposta: “Quando há um grande número de espectadores, eu fico curioso, pois respeito a opinião do público, ou somos todos idiotas. Mas assisto a bem poucos, às vezes uns dez minutos e já sei no que vai dar, imagino o resto, formando a minha opinião e construindo o meu filme, como um diretor ausente. Claro que não assisto a filmes na TV.”

Usando de sua prodigiosa memória, precisão e fino humor, Zito começou a escrever crônicas no “Almanaque” do jornal O Estado do Paraná, de 1992 a 2000. A jornalista Adélia Maria Lopes o descobriu com a morte de Aramis Millarch, quando ele resolveu escrever sobre o amigo. Recria nelas os bastidores do mundo do cinema e da cidade em fatos pitorescos. Algumas destas crônicas, foram publicadas no número 20 dos Cadernos do MIS, sob o título “No giro da manivela” de 1996. Como escreveu Fernando Bini, então diretor do museu: “Zito Alves descobre e recria com humor, mas também com nostalgia, o mundo mágico do cinema, utilizando a imaginação de um poeta para revelar esses heróis do cotidiano, na sua maioria anônimos, como os heróis da vida moderna de Baudelaire.”

Conversas na sala de espera do cine Plaza

Conversas na sala de espera do cine Plaza

Já lia e se interessava por cinema digital, teorizando sobre os efeitos da nova tecnologia nas salas. Faleceu em 26 de agosto de 2008. Foi-se uma grande parte da memória do cinema no Paraná. Perdi um amigo e consultor, pois muito do que sei devo a nossas memoráveis conversas e discussões, pois era homem de opiniões fortes. Detestava certos cineastas brasileiros arrogantes, gênios cujos filmes ninguém via, e que vinham reclamar do cinema, quando o problema era o filme. Quando discordava, dizia também, que certos críticos escreviam sem ver o filme. Do que mais tinha saudades era cinema cheio de crianças vibrando com seus heróis, a maioria os “mocinhos” dos westerns que amava.

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