A cultura inculta

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Há livros seminais que deveriam voltar ao centro dos debates. Um deles, que acabo de revisitar, é o de Allan Bloom, professor de História das Ideias na Universidade de Chicago, tradutor de Platão e Rousseau, que escreveu uma obra que é fundamental para entender nosso tempo de degradação cultural. “A Cultura Inculta” é um ensaio sobre o declínio da cultura geral e de como a educação superior fraudou a democracia e empobreceu os espíritos das gerações que hoje estão no comando.

Este livro de Bloom é, antes de tudo, um manifesto em defesa dos velhos cânones literários. “A falha de não ler bons livros tanto enfraquece a nossa visão como fortalece a nossa tendência mais fatal – a crença de que o aqui e agora é tudo o que existe”. O título original é “The Closing of the American Mind”, que poderia ter sido traduzido em português para “O Fechamento da Mente Americana”. Bloom faz uma abordagem que vai da falta de objetivos das universidades à ausência de conhecimentos dos estudantes, terreno fértil para os clichês da liberação até a farsa da substituição da razão pela criatividade, o que mostra como a democracia ocidental acolheu inconscientemente ideias vulgarizadas de niilismo e desespero, de relativismo disfarçado de tolerância.

A crise social e política do ocidente no século XX é uma crise intelectual, diz Bloom. “O que vemos hoje é gente nova que, sem uma compreensão do passado e uma visão do futuro, vive um presente empobrecido”. Como se vê, depois de três décadas da primeira edição, a obra continua atualíssima, a refletir sobre as deformações culturais do mundo moderno.

Allan Bloom abre “A Cultura Inculta” com uma análise da educação liberal no final do século XX. Num mundo onde os estudantes aprendem desde cedo que os valores são relativos e que a tolerância é a primeira virtude, o que acontece, na verdade, é o oposto: os jovens chegam à Universidade sem qualquer crença nas suas vidas. Mesmo que acreditem ter uma mente aberta, as suas mentes estão na verdade fechadas para o que realmente interessa.

É uma crítica devastadora à educação moderna no Ocidente, uma história da vida intelectual que deve a sua fundação à filosofia Iluminista. Mas longe de ser apenas outro crítico cheio de comentários ao sistema educacional, Bloom foca a história e a influência que certas doutrinas filosóficas tiveram na alteração de padrões sociais.
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O pessimismo de Allan Bloom acerca das perspectivas das gerações futuras e da educação liberal ajudou a estimular mudanças. Muitos aceitaram os seus conselhos e trabalham para inverter as tendências acadêmicas criticadas por ele. Um alvo constante da sua crítica é a medida, aplicada por certas Universidades, em retirar das bibliotecas ou dos programas curriculares os chamados Grandes Livros.

Os Grande Livros são obras literárias consideradas pilares da fundação da literatura ocidental. Existem várias listas destas obras, que variam conforme o nível de dificuldade de leitura e se destinam a diferentes graus de escolaridade. Em outras palavras, são os Clássicos da Literatura. As listas percorrem títulos que vão desde as grandes epopeias a ensaios da Antiguidade Clássica, sem excluir obras emblemáticas do século XX.

De acordo com Allan Bloom, a exclusão dessas obras dos programas curriculares serviria apenas para limitar os horizontes das novas gerações. Dessa forma, ele defende que as obras sejam lidas nas suas versões originais e integrais. Ele detesta outra prática condenável que é a de condensar ou reduzir um livro para uma versão mais curta, mas sem quebrar a sua estrutura e unidade. Quase como um livro de difícil leitura reescrito para ser compreendido mais facilmente. Está aí uma facilidade que não ajuda a melhorar o padrão de leitura, compreensão e reflexão dos estudantes.

Nascido em Indianapolis, a 13 de setembro de 1930, este filósofo e professor americano distinguiu-se pelas suas opiniões político filosóficas relativas ao estado da cultura. Por isso mesmo foi, mais do que uma vez, considerado conservador pela mídia ligeira. Isso o incomodava. Várias vezes ele tentou esclarecer que não era conservador, tudo o que defendia era uma vida teorética.

Em 1992, Allan Bloom morreu no hospital de Chicago. Mas nem no seu leito de morte pôs de lado a paixão pelas letras. Ditou ali o seu último trabalho, publicado alguns meses após a sua morte e intitulado de “Amor e Amizade”, onde debate várias interpretações do conceito do amor.

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