As incertezas de 2018

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Está claro que a mídia não conseguiu até agora entender como ocorre a identificação orgânica entre Lula e seu povo, sempre paciente demais, resignado demais, é bom sublinhar. A verdade é que os índices de aprovação de Lula fermentam, mas, diria Ibrahim Sued, os cães ainda ladram. Julgado pelo juiz Sergio Moro, condenado em primeira instância a 9 anos e meio de prisão, Lula está em campanha e faz sucesso, embora a alta taxa de rejeição em algumas áreas do país.

Agora todos sabem que ele tem um eleitorado cativo, fiel, suficiente para colocá-lo no topo das pesquisas de intenção de voto para presidente da República. Acuado pelo processo judicial, Lula agarrou-se à candidatura como forma de defesa. Sabe que só poderá se lançar como candidato se não for condenado em segunda instância. Também acredita que só o clamor popular, a zorra, o fuzuê nas ruas, poderá salvá-lo. É de seu interesse radicalizar a reação à condenação e politizar de vez o processo judicial.

Essa radicalização que desmoraliza os mornos e os de cima do muro, ergueram outro político, que se comporta como antagonista de Lula, a polarizar, por enquanto, a disputa. O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que deve trocar de partido, terá até o dia 7 de abril para estar filiado a uma sigla. Bolsonaro arranca hurras da franja que se emociona com a novela da Lava Jato e comemora cada denúncia contra os corruptos, especialmente os da esquerda.
Há, nesse jogo, quem tente se apresentar como alternativa aos radicais Lula e Bolsonaro. Ciro Gomes, do PDT, que já mudou tantas vezes de partido, é pouco convincente em seu estilo agressivo e estapafúrdio. Não leva jeito para homem capaz de pôr ordem e juízo na política brasileira, pois essas qualidades lhe faltam.

UMA OPÇÃO NOVA
Na pista temos um nome novo, o do senador Alvaro Dias, paranaense que inaugurou o Podemos e lançou-se candidato. Até há pouco estava no PSDB e como líder dos tucanos no Senado passou anos a criticar o PT e seus métodos, não economizando denúncias à corrupção na República que corria desbragada. Ele nunca foi atingido por denúncias do tipo que podem interessar ao juiz Sergio Moro. Precisa agora ampliar a percepção de sua candidatura em todo o país. Dos que estão na pista, é o que tem melhores condições de se apresentar como opção saudável.
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O Podemos carrega o mesmo nome do partido de esquerda espanhol, e o mote que elegeu Obama nos Estados Unidos. Segundo Alvaro Dias, terá um posicionamento político de centro e será liberal na economia. E o discurso certamente terá uma dosagem muito alta de moralismo conservador a condenar todas as mazelas deixadas pelos governos do PT, PMDB e PSDB, que no poder se mostraram cúmplices na maior onda de corrupção já vista no Ocidente.

“A consulta popular nos indica que a maioria da população brasileira deseja isso”, disse o senador, que prefere identificar sua atual sigla como um movimento. “A Lava Jato completou a destruição dos partidos. Eles certamente serão julgados e condenados nas urnas.” Eleito senador pela quarta vez em 2014, Alvaro Dias deixou o PSDB no ano passado para se filiar ao PV. Em maio, o político de 72 anos trocou novamente de partido e passou a integrar o quadro do Podemos, que foi autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a substituir o registro do PTN. Dias disse aceitou ser pré-candidato à Presidência após uma convocação de sua nova sigla.

Dias já foi vereador, deputado estadual e federal e governador do Paraná. Ele diz confiar no julgamento das “pessoas lúcidas” para não sofrer com o desgaste que atinge a classe política. “Espero que a população separe o joio do trigo e não generalize”, afirmou. “O político modernizador não é aquele que tem pouca idade, mas aquele que tem a capacidade de fazer a leitura do dinamismo social e das mudanças que ocorrem na sociedade.”

O QUE MAIS VEM
Ainda há muita água para passar por baixo da ponte. O Brasil está a menos de um ano das convenções partidárias que lançarão os próximos candidatos à Presidência da República. As siglas políticas poderão se reunir entre 20 de julho e 5 de agosto de 2018 para definir as chapas que deverão ser inscritas até o dia 15 de agosto. O primeiro turno das eleições será em 7 de outubro. É quase certo que o PMDB, maior partido do Brasil, com sete governadores e as maiores bancadas na Câmara e no Senado, sigla do atual presidente da República, Michel Temer, não terá um candidato próprio à Presidência. “Ao longo dos anos, o PMDB ficou a reboque de partidos que não têm a sua história em troca de cargos e favores de governo”, disse o ex-governador do Rio Grande do Sul Germano Rigotto. “Rótulos de fisiologismo, clientelismo e outros piores grudaram no PMDB por isso.”

A ex-senadora Marina Silva deve ser candidata mais uma vez pela a Rede – partido que preside. Ela chegou em terceiro lugar em 2010 e 2014. Na última pesquisa Datafolha, ela somou 15% das intenções de voto e empatou tecnicamente com Bolsonaro na segunda colocação. Segundo o pequeno falante Randolfe Rodrigues, senador do Acre, Marina lançará uma candidatura “antissistêmica e contra o establishment que se tornou a política”.
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O PSDB, desde que teve figuras referenciais lançadas ao lodo das denúncias de corrupção diminuiu suas expectativas. A debacle de Aécio Neves, seu último candidato à presidência, pesou muito. O mesmo aconteceu com José Serra, que definhou. Sobrou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que conseguirá se lançar na disputa se barrar o crescimento do prefeito paulistano, João Doria, e superar a tímida concorrência do senador José Serra (SP).

SURPRESAS?
Há ainda surpresas que podem aparecer na disputa, entre elas o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, que conversa com a Rede e o PSB, o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), e o senador Cristovam Buarque (PPS-DF). Já o PMDB, o maior partido do país, deve entrar em mais uma eleição sem ter uma indicação própria ao Planalto.
Nesse quadro, tudo ainda é incerto. Há sinais de vida em nossa economia que mostram que o governo Temer está apontando na direção certa na área econômica ao enfrentar temas que são tabus, como as reformas, casas de marimbondo que só podem ser propostas por quem não está visando as próximas eleições. Reconhecer tais avanços não significa desconhecer a enorme quantidade de problemas a enfrentar. Nem muito menos imaginar que as “condições de governabilidade” serão repostas ao passar-se um apagador no quadro que a Lava-Jato mostrou. As pessoas só aceitarão a autoridade quando sentirem que a Justiça está atuando e saberá separar o joio do trigo.

Resta ver se há trigo nesse campo.

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