Como educar nossos ouvidos

erudita

Os ouvidos brasileiros não estão acostumados à música instrumental e sim à cantada, com três minutos, e basicamente em inglês e português. É o que temos. Nossa música popular é de ótima qualidade. Mas nem ela tem o espaço que merece. O que é divulgado exaustivamente, inclusive nas rádios e tevês do Estado destinados à educação, é o lixo cultural.

Ora, pois, nossos governantes, tão falhos em tudo, também cultivam o mau gosto. Quando falamos de música que tem quarenta, quarenta e cinco minutos e é dividida em três partes de quinze minutos, sendo que acaba uma parte, faz-se um intervalo, começa-se outra, mas é a mesma música, é algo difícil para almas parvas. A ideia de que a música clássica é para os ricos, em contraste com a música popular, que seria para os pobres, é falsa. A maioria dos ricos, tanto quanto os pobres, é tão absorvida em sua cultura de futilidades que é apenas uma pequena parte que tem a sensibilidade para ouvir e gostar de música clássica.

Por enquanto a educação musical do brasileiro deixa muito a desejar, não por sua culpa, mas, pela qualidade inferior da educação no país e pela invasão cultural do péssimo gosto de alto consumo. Além do que, o domínio dos meios de comunicação por parte da indústria cultural, que se ocupa com os baixos extratos sociais como mercado, se ajusta pela produção para fácil digestão.

A maneira de se apresentar música clássica para o povo, principalmente adolescente e jovem, não é levando-os para um local de concerto e mandando que se sentem e fiquem calados, durante quarenta e cinco minutos de uma sinfonia, e sim, através do rádio e dos eventos, com músicas apresentadas em tempo menor. É preciso ter um plano pedagógico que funcione. Não se ensina música nas escolas. Ajudaria muito se professores que tivessem alguma capacidade para tanto, ajudassem os seus alunos na identificação da música erudita para que saibam o que é uma obra. Uma obra é um conjunto de movimentos, ou seja, um conjunto de músicas. Diferente da música popular, onde cada música é composta sem ligação com nenhuma outra, na música erudita o compositor cria um conjunto de movimentos que posteriormente farão parte de uma obra. Por exemplo, uma sinfonia é, normalmente, composta por quatro músicas. Já um concerto, geralmente divide-se em 3 partes. Nem isso é hoje ensinado nas escolas, até porque a absoluta maioria dos professores também não sabem nada sobre música.

A repetição funciona. Prova disso é que muitos clássicos foram popularizados pela força do marketing ao serem incluídos em filmes, anúncios publicitários etc., muitas vezes explorados até a exaustão. Não há nenhum mérito, pode acontecer com qualquer gênero, é apenas o mercado em ação.

Somos a expressão do atraso em tudo, também na música. Os compositores de música clássica brasileira, ou música erudita contemporânea brasileira, sobrevivem da música com dificuldades, geralmente compondo para eventos, dando aulas em universidades e gravando alguns CDs, nos poucos selos que os recebem. Não temos, por exemplo, a figura do compositor residente, comum em orquestras na Europa, que são contratados para compor para um determinado festival etc. Além disso, eles sofrem um preconceito que existe dentro do próprio meio musical que produz concertos. Os empresários colocam em segundo plano tudo aquilo que é brasileiro, quer dizer, quando produzem um concerto preferem os nomes estrangeiros, como Mozart e Beethoven. Estes são sem dúvida fantásticos, mas também temos muitos talentos do passado, como Villa-Lobos, e do presente, como Ronaldo Miranda e Gilberto Mendes, entre outros.

No Brasil, os compositores sofrem dois preconceitos: o primeiro de fazer música erudita em um país que não dá espaço para isso. O segundo de, quando há espaço para essa música, serem preteridos aos compositores estrangeiros, mestres, fantásticos, mas que não substituem a produção de nossa cultura.

Não é necessário que o povo conheça de música, em sua notação musical, para gostar. Também não é necessário que saiba tocar algum instrumento, basta que tenha uma preparação para isso. E oportunidade para ouvir. Não à força, não como exigência, mas como oferta de um prazer que cedo ou tarde quem ouve descobrirá.

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