Eleição de 18 caiu na rede

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Superestimadas, as redes sociais prometem maior influência e interferência política nas eleições de 2018

O universo das redes sociais transferiu em substância o debate público e político para a internet. Há, notoriamente, uma disputa convulsa por audiência, número de likes (curtidas), compartilhamentos e comentários dos internautas e eleitores. Políticos, homens públicos, assessores e candidatos invadem a arena virtual para arrebanhar novos seguidores e promover engajamento digital.

Quem tem mais engajamento, maior número de fãs ou performance nas redes? O trabalho para aderir novos apoiadores virtuais mostra-se árduo, depende de fatores motivacionais, inteligência subjetiva, assiduidade, disciplina e muito feeling para atrair legiões aos projetos e propostas promovidas na web.

Não basta lançar uma página pessoal ou profissional, aguardar o olhar digital e a audiência subir repentinamente. Influenciar as pessoas no ‘mundo líquido’, na concepção do sociólogo Zygmunt Bauman, com valores passageiros e transitórios, a partir de comportamentos volúveis, sem padrões pré-determinados, ainda mais no ambiente virtual, infere a estratégias, soluções inteligentes, alinhamento ideológico e estético, além de posições político/partidárias definidas, em contraposição às opiniões, muitas vezes, solúveis e altamente variáveis de um contingente de eleitores e internautas.

Para compreender o pensamento dos internautas, o criador do facebook, Mark Zuckerberg, estuda basicamente duas áreas: matemática e sociologia. O entendimento dos números serve para aperfeiçoar os aplicativos e o alcance estratégico da empresa. A análise sociológica desempenhada por Zuckerberg, entretanto, a partir de tendências e comportamentos das pessoas, fundamenta todas as ações e projetos implantados pelo Facebook.
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FORÇA
No Brasil e no Paraná, políticos e atores da vida pública compreenderam, mesmo superficialmente, a importância e a força das redes sociais nos processos eleitorais e na plenitude do debate político. Tendem a seguir uma lógica bastante simples a qual sustenta a tese de que quanto maior engajamento, maior sucesso nas redes. Solúvel como a modernidade líquida, a internet também desabilita um padrão estático e determinado, servindo apenas de bússola para a difícil tarefa de entender o pensamento e os interesses das pessoas.

De fato, não existe fórmula para o sucesso na web, somente diretrizes e panoramas abstratos, estimulados, em muitos casos, por impulsionamentos pagos para aumentar o alcance de publicações e a própria audiência das páginas.

Recente pesquisa do Ibope, divulgada pelo jornal O Estado de São Paulo, revelou que a internet virou o maior influenciador para eleger um presidente. Às vésperas de ano eleitoral, com disputas para os cargos de presidente, senador, governador, deputado federal e estadual, o fato parece de extrema relevância para quem postula assumir tais funções no Brasil. Inédita, a sondagem do Ibope aponta que 56% dos brasileiros aptos a votar confirmaram que as mídias sociais terão algum grau de influência na escolha de seu candidato presidencial na próxima eleição, em 2018. Para 36%, as redes terão muita influência.

Nenhum dos outros influenciadores testados pelo Ibope obteve taxas maiores que essas. Nem a mídia tradicional, nem a família, ou os amigos – o trio que sempre aparecia primeiro em pesquisas semelhantes. Muito menos movimentos sociais, partidos, políticos e igrejas. Artistas e celebridades ficaram por último. TV, rádio, revistas e jornais atingiram 35% de “muita influência” e 21% de “pouca influência”, somando os mesmos 56% de peso da internet. A diferença é que seus concorrentes virtuais estão em ascensão – especialmente junto aos jovens: no eleitorado de 16 a 24 anos, as mídias sociais têm 48% de “muita influência” eleitoral, contra 41% da mídia tradicional.

PROPAGANDA NEGATIVA
Em recente entrevista à Folha de São Paulo durante o “Brazil Forum UK 2016”, o ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, fez um contraponto negativo com relação ao uso ainda inadequado na internet quanto ao debate político. “Desenvolvemos uma cultura em que o debate público é feito pela desqualificação do outro. Está na hora de um debate substantivo e não de adjetivos”, disse.
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A posição de Barroso converge ao cenário de guerrilha virtual instaurado nas últimas eleições no Brasil. Imperou, em muitos municípios e estados, campanhas virtuais de desqualificação, demérito e desconstrução da imagem dos oponentes no decorrer de cada processo eleitoral. Nas redes, o sucesso político passa, muitas vezes, pela descaracterização pessoal, política e profissional dos adversários.

Há respaldo ainda em uma pesquisa inédita do Ibope, lançada em 2016. De acordo com a sondagem, nos últimos 12 meses, “pela primeira vez, a maioria absoluta dos eleitores brasileiros (51%) recebeu informações sobre política pelo facebook, twitter ou pelo whatsApp. E constata: “O tipo de propaganda que funciona nessas redes é a negativa: contra alguém ou contra uma ideia, muito mais do que a favor de um candidato”. Por osmose ou percepção desta realidade virtual, muitos marqueteiros têm adotado, assim, a propaganda política negativa à condição de estratégia eleitoral.

INFLUENCIADORES
Positiva ou negativa, propositiva ou despretensiosa, políticos e pretensos candidatos paranaenses ganharam notoriedade, nos últimos anos, na web. De modo estratégico, usam ferramentas modernas para aproximar o diálogo com os internautas, apresentar propostas, liderar debates, manifestar opiniões ou mesmo responder os eleitores. Em várias situações, em tempo real, ao vivo, pelo facebook, através do dispositivo denominado live (ao vivo). Também usam estrategicamente o aplicativo whatsApp para o envio de mensagens, vídeos, propagandas (oficiais ou não) e textos sobre diversificados temas.

A disputa ao governo do Paraná, em 2018, ainda se mostra incerta, contudo os palanques virtuais estão montados para os eventuais candidatos. Reportagem do jornal Gazeta do Povo apresentou, recentemente, um ranking dos influenciadores políticos. O ranking funciona como termômetro do debate político online ao considerar a quantidade de seguidores e o engajamento com os conteúdos publicados nas páginas.
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O secretário do Desenvolvimento Urbano, Ratinho Junior (PSD), lidera com o maior número de seguidores. No facebook, com dados de dia 8 de julho deste ano, 497.387 pessoas seguem Ratinho Junior, pré-candidato ao governo do Paraná. A receita aplicada por Ratinho para promover o engajamento sustenta-se, aparentemente, no registro de obras realizada pela pasta a qual comanda, fotos, vídeos de encontros com lideranças políticas em municípios do interior do Estado e o uso intensivo da hashtag “Paraná Inovador”.

INTERAÇÃO
Apesar da liderança de Ratinho Júnior no número de seguidores no facebook, o senador Roberto Requião (PMDB) tem maior interação com o público em sua página. Cada postagem do senador tem, em média, segundo a matéria da Gazeta, cerca de 1,9 mil comentários, compartilhamentos e reações. Nas postagens, Requião costuma priorizar temas relativos à agenda política nacional, quase sempre com posições polêmicas e contundentes.

A vice-governadora Cida Borghetti (PP), eventual candidata em 2018, aparece com números mais modestos no ranking. Cida tem o equivalente a 7,2% dos seguidores de Ratinho e 6,5% do engajamento registrado por Requião no período analisado, informa a reportagem.

OFF-LINE
Também cotado para a disputa ao governo, o ex-senador Osmar Dias (PDT) não tem página pública no facebook. O período de afastamento da política por sete anos, alega Dias, fora o motivo pelo desinteresse ao mundo online. “Por enquanto não acho necessário, minha comunicação é mais direta com a população”, diz.

Na avaliação de Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos, Osmar Dias não será, necessariamente, prejudicado pela ausência no facebook. “As ferramentas de internet constroem imagem e conceito. O pedido do voto é offline. No caso de um ex-senador, é alguém que já tem conceito e imagem, portanto ele vai partir direto para o pedido de voto”, avalia.
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EFICIÊNCIA
Em termos de eficiência virtual, o prefeito de Curitiba, Rafael Greca, é o campeão no facebook no Paraná e na capital. Entre todos os políticos no estado, Greca é o quarto em número de likes, mas tem o maior engajamento – 5,9% (o máximo é 6%). A página de Greca também tem uma performance de 100%. Tal audiência e interação contribuíram significativamente para Greca atrair novos seguidores, apresentar as propostas ao eleitorado e vencer as eleições municipais em 2016.

“O trabalho para promover o engajamento no facebook é diário, permanente e constante. Exige muita autenticidade, sinceridade nos projetos apresentados e respeito mútuo aos internautas”, analisou o prefeito Rafael Greca, que enfrentou, no início da gestão, uma forte turbulência virtual com críticas e opiniões após lançar e aprovar o pacote de ajuste fiscal em Curitiba.

A atual legislação eleitoral e a cobrança em todo o país pelo fim da corrupção devem impulsionar ainda mais os candidatos a usarem as redes sociais para mobilizar e conquistar os eleitores. Na visão do especialista em internet e professor da Redhook School Paulo Renato Oliveira, “as redes sociais se tornaram um meio eficaz não só de divulgação, mas de mobilização”. Com tudo isso, o amplo movimento virtual mostra-se imprescindível para políticos e lideranças obterem êxito nas próximas disputas eleitorais em 2018.

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