Fulminante

jessica

Como um suicida me joguei em ti. Com medo, mas com certeza de ser. Convicta de que não me importava o amanhã. Avacalhada, achando que daria certo essa adolescência de sentimentos, me vi no chão. Não deu. Não só me joguei como tropecei sem retorno. Fiquei manca. Assim como Frida, usei saias compridas e vestidos longos para esconder o defeito que o mundo via, tentava desdizer tudo que disse. Mas de nada adiantou. Quando abria a boca ditava os mais belos textos de amor. Caía na amargura da poesia. Sofria por não querer amar. Não sabia mais andar com as novas pernas, essas defeituosas.

E então você foi me conhecendo. Como um criador de brinquedos me analisou. Eu e minhas pernas tortas. A cada toque eu sentia repressão. Não se deixe levar, não se deixe amar. Mas então você me beijou molhado e sensível. Abraçou-me pelo ventre e ficou lá, como se escutasse um filho nosso. Disse-me linda. E me quis.

Meu corpo e pensamento queriam rasgar os vestidos e viver no mesmo leito que o seu. Mas algo me segurava. Talvez as pernas. Elas que eram defeituosas para o mundo. Pensei que você, criador de brinquedos, ia querer mudar meu jeito, arrumar minhas pernas e defeitos. Eu que como um suicida me joguei em ti.

Eis que me vi no avesso. Meu melhor lado. Já estava suada, inundada de amor e de prazer. Teu toque e sua voz já habitavam meu corpo. Você me acompanhava quando as crises de pânico apareciam. Eu tinha medo de ti, medo de um mundo sem ti. Passei a me doar. Gozei amor. Confiar no controle do afeto e daquela presença. Como um irmão, um melhor amigo de infância você permaneceu comigo até o fim. Sabia que quando as pernas falhassem, a voz não saísse e o medo mais uma vez desse as caras, eu teria você ali. A me acalmar, mesmo no seu próprio desespero. Pois você era um criador de brinquedos e não só isso, fazia eles viverem sonhos. Fez isso de mim. De nós.

Até esse momento que chamamos de fim. De morte que separe. Que separou. Pois sabia que se me jogasse em ti eu morreria. O medo foi maior. O pavor de te perder um dia e ter que respirar num mundo com você, mas sem você. Eu tinha pânico. Preferi ficar por aqui. Covarde no amor. Ansiosa acabei me perdendo nos meus passos mancos. Caí mais uma vez, morri em seus braços, cheguei enfim sem medo, em paz. No céu.

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