Lutgarda

armando

Uma hora de viagem e até agora nada. Tudo parado. O pequeno Gaspar de cinco anos está impaciente e mal humorado. Sem ar condicionado no carro econômico, o calor intenso faz o suor escorrer irritantemente pelas suas têmporas. Ele quer apenas ver o mar e brincar na praia. Sua mãe lhe prometera o ano inteiro que teria férias no litoral. Irritado, o garoto grita e pede para descer imediatamente daquele forno e ir a pé, deixando para trás aquela estrada da perdição.

O tempo passa e os veículos vão se afunilando lá na frente. Lutgarda Kowalska, sua mãe, depois de horas, pensa que finalmente chegou ao local da tragédia, porque certamente o causador fora um tenebroso acidente. Mas eis que de repente ela vislumbra o obstáculo causador da agonia bem brasileira: é apenas uma meia pista afunilando todo o tráfego com homens trabalhando em um recapeamento vagabundo e temporário. Meu Deus! Exclama Lutgarda visivelmente transtornada. Que desrespeito é esse? Não acredito que tenham interrompido essa maldita pista em pleno final de ano quando milhares viajam na mesma direção. Lutgarda olha para o lado e vê apenas caras modorrentas e conformadas em outros veículos. Não viu ninguém revoltado ou protestando. Nada! A vida segue. Pensa de pronto que é assim mesmo nesse país que cegamente endeusou um ignorante messiânico e elegeu ladrões a granel. É, meu amado… Fala Lutgarda em voz alta para o impaciente Gaspar: Que vida esculhambada e escrachada que temos nesse país.

Lutgarda dirige lentamente naquela fila interminável e começa a pensar na sua miserável vida, da falta de respeito que tem sofrido nas coisas mais comezinhas do seu dia a dia. Lembrou-se de todos os inconvenientes e desconfortos por que passou ao tentar aposentar a mãe moribunda; do desrespeito e do mau atendimento nos postos de saúde e o sofrimento no atendimento médico em peregrinação pelos hospitais para socorrer seu Gaspar que padecia de febre alta e vômito constante; ao procurar serviços públicos indispensáveis; do assalto violento que sofrera ao chegar em casa em plena luz do dia no horário de verão. Lembrou até da torção no tornozelo que a deixou dois dias sem andar ao caminhar pelas calçadas medievais de Curitiba. Calçadas feitas de pedras irregulares extremamente desconfortáveis e assentadas frouxamente, parecendo de propósito para sujar de lama as roupas em dias de chuva. Feitas para machucar os pés sofridos dos cidadãos de bem. Maldito o prefeito que autorizou isso! Praguejou.

Em Lutgarda aflora momentaneamente em sua memória a origem de seu nome exótico escolhido por sua mãe Ewa Kowalska, uma imigrante polonesa da Colônia Santa Cândida, mulher dedicada ao lar e católica fervorosa que num momento de fé diante da dor de uma doença terrível prometeu homenagear Santa Lutgarda, uma holandesa padroeira das almas do purgatório e dos convertidos de quem era devota, em dar seu nome à filha primogênita. Nome de sofredora, confessa num sussurro a magoada cidadã Lutgarda: Oh minha Santa Lutgarda! Salvai-nos! Quanta ausência desse Estado corrupto, ineficiente e incompetente para acabar com tanto sofrimento! Esbraveja aos céus que permanecem mudos como um preso em flagrante na frente da autoridade.

Lutgarda então segue adiante naquela estrada desgraçada e chegando ao primeiro posto de gasolina que encontrou, parou bem longe das bombas de gasolina, numa imensa clareira que existia ao lado. Beijou seu pequeno Gaspar e pediu a ele que a esperasse dentro do carro, pois iria orar e já retornava e que ele poderia vê-la dali. Afastou-se então uns cinquenta metros, ajoelhou-se naquela terra pedregosa e ali, em êxtase, rogou aos céus com as mãos levantadas durante vinte minutos. Quem passava na estrada olhava com espanto aquela mulher ajoelhada no meio do nada e lamentavam a sua loucura. Pobre coitada! Diziam alguns espantados.

Pequenas gotículas de sangue apareceram na testa da compenetrada Lutgarda que finalmente disse sussurrando: Espere-me aqui meu Senhor, que logo volto ao terminar minha tarefa. Então levantou-se, contemplou aquele lugar pela última vez e recebeu uma lufada de vento com areia que lhe cegou momentaneamente. Esperou as lágrimas limparem os olhos e voltou ao carro onde lhe aguardava o rebento impaciente, mas que adormecera de tanto esperar. Pobre Gaspar! Disse Lutgarda com o cenho franzido.

Chegando à praia tarde da noite, se hospedaram na casa de uns parentes onde já estava uma dezena de apaniguados barulhentos. Acomodou com carinho o pequeno Gaspar em um colchonete instalado próximo à garagem onde mais tarde dormiria abraçada a ele. Mas antes, Lutgarda que não é santa e tem lá seus pecados, sentou-se em frente à TV e ficou aguardando o noticiário das oito e esperou pacientemente. Logo abriu um largo sorriso ao ver a notícia da queda de uma aeronave vitimando seis deputados e dois senadores. Ninguém sobrevivera. Pequenas gotículas de sangue voltaram a verter de sua testa e Lutgarda orou novamente, mas em silêncio: Espere-me naquele posto de gasolina Senhor, voltarei em breve, pois terminei minha tarefa.

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