O folclore e a MPB

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A música folclórica é a expansão, o desenvolvimento livre do próprio povo expresso pelo som.

Heitor Villa-Lobos

 

Um fato estranho volta e meia acontece comigo, não com tanta frequência, como em meus tempos de brincadeira, mas ainda permanece como um fenômeno que me acompanha.

Eu não lembro quando foi que ouvi algumas cantigas de roda pela primeira vez. Não lembro também de alguém ter me ensinado a cantá-las. Só sei que as conheço, que desde sempre sei cantá-las. Eu posso facilmente chegar à conclusão de que não me lembro porque já faz muito tempo que aprendi a cantar “Atirei o pau no gato”, “Ciranda, cirandinha” e outras tantas… Mas como este é um assunto que sempre me chamou atenção, quando meus filhos eram pequenos percebi que, mesmo sem eu ter insistido nessas cantigas, eles as conheciam. adriana_2

Esse conhecimento espontâneo (que é passado de geração para geração e que é conservado através dos tempos, mesmo que sofra mudanças) acontece também com o artesanato, as comidas, as roupas, as brincadeiras, os jogos, os mitos e as lendas.

Segundo Luís Câmara Cascudo, estudioso do assunto, quando uma determinada manifestação é aceita e praticada por muitas pessoas, quando ninguém sabe precisamente quem a criou, quando ela resiste ao tempo e vai sendo incorporada à vida das pessoas, espalhando-se em aulas informais que acontecem em lugares muito variados, isso é folclore.

Pois bem, desde quando a música nacional começou a percorrer seus caminhos no país, vira e mexe, ela faz uma visita ao folclore. Talvez o motivo disso seja que ela tem muito forte na raiz, como quase todas a música do mundo, as canções folclóricas.

Carlos Gomes, em suas criações para construir uma música autenticamente brasileira, teve no conjunto das tradições, lendas, canções e costumes populares uma fonte riquíssima de temas. Assim como Chiquinha Gonzaga, Joaquim Calado, Alberto Nepomuceno, mais adiante Heitor Villa-Lobos, Guerra Peixe e uma série de nomes que, apesar de terem sido empurrados para a classificação erudita, trataram de imprimir uma espécie de nacionalismo em sua música que derivava da atenção às composições folclóricas. Isso tudo ajudou a modelar a MPB.

O caminho é longo e cheio de detalhes, o que impede de ser contado aqui. Mas basta dizer que a música popular urbana, que é um termo que se aproxima mais do que ficou tratado como MPB, resultou da mistura de três etnias: o índio, o branco e o negro, de onde vieram nosso instrumental, sistema harmônico, cantos e danças.

E para não alongar mais a conversa e fazer da coluna uma pretensiosa tentativa de tese, vamos tratar de dar uma olhadinha em nossos músicos e como eles trouxeram para discos e rádios as cantigas que estavam sendo repetidas em rodas e situações mais, digamos, interioranas.

Quem abre o capítulo, é Zé do Norte (Alfredo Ricardo do Nascimento), que fez uma adaptação de “Mulher rendeira” para o filme “O cangaceiro”, de Lima Barreto. A música às vezes é atribuída a Lampião, mas trata-se de um antigo tema, muito popular nos sertões do Nordeste no tempo do rei do cangaço. Há várias gravações dessa música, inclusive uma de um antigo cabra do bando de Lampião, o cangaceiro Volta Seca. “Olê, mulher rendeira / Olê, mulher renda / Tu me ensina a fazer renda / Que eu te ensino a namorar / Lampião desceu a serra / Deu um baile em Cajazeira / Botou moça donzela / Prá cantar “Mulher Rendeira” / As moças da Vila Bela / Não têm mais ocupação / E só vivem na janela / Namorando Lampião.” adriana_1

“Vou-me embora, vou-me embora, prenda minha”, o primeiro registro da estrofe do tema gaúcho é de 1880. Ela caminhou por vários lugares antes de ficar, de fato e definitivamente, mais conhecida no Rio Grande do Sul. Primeiro ganhou moderada popularidade no Rio de Janeiro, por conta de gaúchos que lá viviam na década de 1930 e conheceram a canção a partir dos registros que Mário de Andrade fez em seu livro “Ensaio sobre Música Brasileira”. Isso fez com que fosse novamente importada e para sempre cantada nos pampas e em outros lugares. Foram muitos que a gravaram: Flávio Venturini, Kleiton e Kledir, Délcio Tavares, Almirante, Agnaldo Rayol, Ângela Maria, Caetano Veloso, Miles Davis e mais uma pá de gente: “Vou-me embora, vou-me embora, prenda minha / Tenho muito que fazer / Tenho que ir para o rodeio, prenda minha / No campo do bem querer / Noite escura, noite escura, prenda minha / Toda noite me atentou / Quando foi de madrugada, prenda minha / Foi-se embora e me deixou”.

Outra música que está na ponta da língua do cancioneiro popular e que frequentou discos é “Marinheiro só”. Domínio público, teve adaptação de Caetano Veloso em 1969 e desde então recebeu várias gravações, de Rosinha de Valença a Maria Bethânia, de Edith do Prato a Clementina de Jesus. “Eu não sou daqui, marinheiro só / Eu não tenho amor, marinheiro só / Eu sou da Bahia, marinheiro só / De São Salvador, marinheiro só / Lá vem, lá vem, marinheiro só / Como ele vem faceiro, marinheiro só / Todo de branco, marinheiro só / Com o seu bonezinho, marinheiro só / Ô, marinheiro, marinheiro, marinheiro só / Ô, quem te ensinou a nadar, marinheiro só / Ou foi o tombo do navio, marinheiro só / Ou foi o balanço do mar, marinheiro só”.

E por falar em nadar e peixinhos do mar, temos a obra recolhida por Tavinho Moura e cantada por Milton Nascimento “Quem me ensinou a nadar / Quem me ensinou a nadar / Foi, foi marinheiro / Foi os peixinhos do mar / E nós que viemos / De outras terras, de outro mar / Temos pólvora, chumbo e bala / Nós queremos é guerrear”. Tavinho gosta da pesquisa e adaptação dos temas folclóricos. É dele também “Calix bento”: “Oh, Deus salve o oratório / Onde Deus fez a morada, oiá, meu Deus / Onde Deus fez a morada, oiá / Onde mora o cálice bento / E a hóstia consagrada, oiá, meu Deus / E a hóstia consagrada, oiá / De Jessé nasceu a vara / Da vara nasceu a flor, oiá, meu Deus / Da vara nasceu a flor, oiá / E da flor nasceu Maria / De Maria o Salvador, oiá, meu Deus / De Maria o Salvador, oiá”.

E quem diria que o carioquíssimo Xangô da Mangueira, todo associado à cultura do Rio urbano, foi quem adaptou, junto com Zagaia, o tema “Moro na roça”, que tem passeado pra lá e pra cá, em diversas vozes de gente que mora na cidade: “Eu moro na roça iaiá / Eu nunca morei na cidade / Eu compro jornal da manhã / É pra saber das novidades / Minha gente cheguei agora  / Minha gente cheguei com Deus / E Nossa Senhora / Xique Xique Macambira / Filho de Preto d’Angola / Inda bem não sabe ler / Já quer ser mestre de escola / Era tu e era ela / Era ela era tu e eu / Hoje nem tu nem ela nem ela / Nem tu nem eu”.

O assunto está longe, muito longe de chegar perto do fim, diferente da coluna, que tem que se despedir agora. Tinha deixado para este momento “Cuitelinho”, vinda lá do Mato Grosso do Sul, lembra? “Cheguei na beira do porto onde as ondas se espaia / As garça dá meia-volta e senta na beira da praia / E o cuitelinho não gosta, que o botão de rosa caia” ou “Borboleta”, “Eu sou uma borboleta pequenina e feiticeira / Ando no meio das flores procurando quem me queira”. Mas vou me despedir com “Madalena do Jucu”, música de domínio público adaptada por Martinho da Vila: “Madalena, Madalena / Você é meu bem querer / Eu vou falar pra todo mundo / Vou falar pra todo mundo / Que eu só quero é você / Minha mãe não quer que eu vá / Na casa do meu amor / Eu vou perguntar a ela / Se ela nunca namorou / O meu pai não quer que eu case / Mas me quer namorador / Eu vou perguntar a ele / Por que ele se casou”.

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