O último tango em Curitiba

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Estoy acá por mi mala cabeza. Mi padre es general, mi tio haciendero, mi hermano embajador”. Todas as gringas que aportaram em Curitiba nos idos dos anos quarenta e cinquenta, afirmavam o mesmo. Acredito no que diziam. Eram tão bonitas, elegantes, charmosas, que não poderiam ter outra origem. Vieram atraídas pela nossa curta Idade do Ouro. A descoberta do café fez o Paraná rico, generoso, perdulário. No norte, cidades como Londrina surgiam do dia para a noite. Milionários acendiam legítimos havanas com notas graúdas. Em Curitiba, o governo construía palácios. O Centro Cívico, o Teatro Guaíra, jardins de Burle Marx. Comemoramos o centenário da emancipação política com pompa e circunstância. E sobrava para os prazeres mundanos.

Todos os meses, os prefeitos do interior vinham buscar a parte de seus municípios na arrecadação dos impostos. Era de lei. O artigo vinte da Constituição. As gringas sabiam de cor essa parte da legislação. E conheciam os políticos da época como ninguém.

– Morocha, llegó el artigo viente.

Era a senha para identificar a entrada de cidadãos deslumbrados, algibeira cheia, ansiosos por mil e uma noites de prazeres. As gringas despertaram paixões. Uma delas, hoje serena sexagenária, jura que por pouco não chegou a mais alta galhardia. Foi pedida em casamento por um político de brilhante carreira que galgou os mais altos cargos no Estado. Imagine uma ex-bailarina do Teatro Colón de Buenos Aires vivendo em pequena cidade de interior. Não cedeu. Foi-se a oportunidade.
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– Me hizo falta la suerte, amigo. Como podria adivinar que aquel pibe llegaria a la cumbre?

Sociólogos e historiadores se recusam a avaliar a importância que essa corrente migratória portenha desempenhou na transformação de nossos hábitos e costumes. Herdeiras de uma cultura cosmopolita, introduziram novas posturas de cama e mesa. Modificaram o uso da língua. Passamos a usar belos espanholismos, o léxico do lunfardo e expressões saborosas. Cafiolo, cafinfle, gigolô, bobo (relógio), repo (porre), mina (mulher). Ditados que acreditávamos nossos, depois da tradução.

– Quien no llora, no máma, papito.

Corrente civilizatória, há quem acredite que as gringas deram mais para a nossa cultura urbana que todas as outras imigrações juntas. Soa a exagero, mas só quem viveu pode dizer. Elas vinham em grupos, raramente sozinhas. Integrantes das companhias de ballet, a fachada mais elegante para a verdadeira atividade.

– Soy bailarina del Colón, en vacaciones.

Não imaginem apenas vícios e futilidades. Quando ninguém conhecia Jorge Luís Borges no Brasil, uma gringa chamada Muñeca definiu o tango com os seus versos:

El tango crea un turbio
Pasado irreal que de algun modo es
cierto.
Un recuerdo imposible de haber muerto
Paleando por uma esquina de suburbio.

Eram inesgotáveis os templos. Não lembro de todos. La Ronde, na Westphalen, onde uma morena de olhos azuis incendiava a imaginação. Cadiz, na José Loureiro, quase na esquina com a Muricy. Moulin Rouge, que do Juvevê mudou-se para a esquina da João Negrão com André de Barros, em cima de um posto de gasolina. A elite, na Carlos Gomes, que mudou de nome e de entrada. Passou a ser Marrocos, com a porta na Marechal Deodoro. Desapareceu quando o artista Jardel Filho foi punido com enorme surra e despachado escadaria abaixo. A mulher que lhe fez companhia perguntava:
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– Puedo pedir un whisky?

Jardel, generoso, permitia.

– Negron, saca-me un cuba. Trae-me um claricot.

Mas quando veio a conta, enorme, não quis pagar.

– Eu não pedi nada, quem pediu foi ela.

O cronista da época, Ali Chain, diz que a cabeça do ator ficou idêntica a uma caixa de marimbondos, tantos eram os calombos e hematomas. A polícia interditou a casa.

Dezoito mulheres, as funcionárias que ficaram sem emprego, fizeram passeata em corredores palacianos, exigindo a reabertura. Como trunfo, sérias ameaças de contar publicamente quem eram os habituais frequentadores. Mas não pensem mal de leão-de-chácara, uma instituição importante no sistema.

Normalmente um homem educado, gentil, mas preparado para o desforço físico. O mais famoso para todos foi João Cachorro, que homem polido, terror nas portarias com seus 1,90 de altura e uma energia descomunal.

O mesmo Ali Chain chamou a dona Ediluz, mulher do maior empresário da noite, de first-lady. No dia seguinte, Paulo Wendt o convocou.

– O que é isso? Você está esculhambando minha senhora.

Chain traduziu e escapou de uma interpelação mais rude:

– First-lady é primeira-dama. É um elogio.

– Hoje você pode beber de graça e à vontade.

Paulo Wendt acabou assassinado quando tentou cobrar outra conta. Levou vários tiros de um revólver calibre 22. Uma das balas atravessou e alcançou o tira Xangai, que sobreviveu para contar a história.
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Outros templos. O da francesa, mais requintado, chamava-se La Vie Rose, e ficava no início da Cruz Machado. Mulheres belíssimas e a música do Breno Sauer. Na Ermelino de Leão, o Sirena di Capri. Por ali passaram algumas das mais famosas strip-teasers, cujos nomes são suficientes para designar o conteúdo e as formas: Del Sol, Estrellita, Rose, Tamara Grace. Tenho amigos que ainda choram de emoção quando são citadas. Sem esquecer da beleza escultural da mocinha que atuava na dupla Los Sanders. Depois vieram a Graceful, o Luigi, não esqueçam da Tropical, dentro do Passeio Público. O Castelinho, no Ahú. A Jane 1 e a Jane 2. E as novas rainhas. Indianara. Safira e seu busto. Blanca. Ruth. De Flores. Ai, se pudéssemos invocá-las.

As boites disputavam fregueses. Traziam espetáculos maravilhosos. Inesquecível foi o Ralf and Ballet, vinte e oito gringas vestidas de branco transparente, dançando sob a novidade, a luz negra. A Marrocos trouxe Miltinho, quando estava no auge seu Cara de Palhaço. Desfilavam os cantores e conjuntos que figuravam na ponta da parada dos sucessos: Demônios da Garoa, Roberto Luna, Cauby Peixoto, Silvia Teles, Nora Ney, que ficou uma boa temporada trabalhando por aqui. Lembram do mágico Guile-guile Califa? E do comediante dominicano, (cidadão, não frei) Jimmy Pipiolo? Apresentou-se no Arpège, que ficava na frente do Mercado Municipal, ao lado da Helena Papagaio. E tinha a chamada prata-da-casa: Bráulio Prado, o contrabaixista Boião, Raulzinho do Trombone, Pinguim, Guimorvan, Chocolate do Pandeiro, os irmãos Juca, Lalo e Lápis. Sim, o Lápis, então funcionário dos Correios e Telégrafos. Escondia a bicicleta, entregava a mala postal aos cuidados do leão-da-chácara e entrava para uma sessão de bateria, seu instrumento inicial.

Na saída, gigolôs, cafiolos e apaixonados esperando as minas. Depois da longa noite de trabalho, uma boa refeição nos restaurantes da madrugada. O Paris, na Riachuelo, que servia uma boa canja. Os solitários no Xerife, da praça Tiradentes. E o velho bar Palácio, onde sempre se corria o risco de um flagrante. O Palácio recebia democraticamente todos os habitantes da noite. Nós, as gringas e também as famílias que saíam dos bailes e se indignavam em ver o sisudo senhor acompanhado de uma espalhafatosa gringa, alegre como nunca.

Não existiam motéis como os de hoje. Existiam hotéis. O Marumby, na rua da Telefônica. Preços módicos. O Carioca, mais famoso. O City Hotel, refinado, ao lado do restaurante Clipper. Mas o gostoso, mesmo, eram as garçonières. Pequenos apartamentos que serviam para os encontros, geralmente condomínios de dois ou três amigos. Ou o apartamento das gringas. Os edifícios São Paulo e Ambassador não tinham preconceitos. Curitiba crescia e se dividia em duas. Uma de aparente castidade, diurna, moralista como toda província fechada. Essa a Curitiba dos bailes, dos chás de engenharia, dos flertes na rua XV, das confeitarias, das famílias. À noite se transformava. Doutor Jekil se transformava em trêfego Mr. Hyde. Outra cidade. Leis, convenções e aristocracia próprias. Sua geografia era pontilhada de salões iluminados pela magia, palcos onde desfilavam deusas castelhanas. Na plateia, em mesas regadas de whisky e champanhe, muitos dos nossos avós. E a saudade de nós mesmos.

Muitas vezes a Curitiba bem comportada conquistou os personagens da noite. Metamorfoseados em dignos cidadãos. Principalmente no final da era dos prazeres. Por isso ganhou fama de ser o cemitério de orquestras, músicos, malandros e deusas. Aqui se desfez a Casino de Sevilha. Aqui ficou o bandoneonista Filpo Nuñes, que seguiu carreira como técnico de futebol. Em Curitiba muitos homens da noite trocaram as atividades por cargos na burocracia, aposentando-se como funcionários públicos exemplares. E ficaram as gringas que já não tiveram ânimo para buscar outras cidades, outras experiências de rápido esquecimento.

– Ya no tengo ganas, papito. Me quedo por vos.

Fábio Campana é escritor e jornalista, edita a revista Ideias e escreve diariamente há dez anos seu blog sobre política. É também editor da Travessa dos Editores por onde saiu a revista literária Et Cetera. É autor do livro de poesia Paraíso em Chamas, dos romances Guardador de Fantasmas, O Último dia de Cabeza de Vaca, Ai!, além de outros e também do livro de crônicas a Árvore de Isaías.

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