Representação de um herói

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Algo novo chega em caixas deliciosas de abrir. Cheias de livros, cheias de heróis. Etel Frota lança novo livro. Um romance, uma história. Não há como fugir do que passou e do que Etel concretiza. O herói provisório está entre nós…


“O mundo do romance é o da esfera popular. Esta, tensionada pela revolução, pode revelar suas forças, surgindo naturalmente os heróis que para a história são incógnitos.”
MARILENE WEINHARDT

Debates historiográficos, discursos filosóficos e textos de críticas literárias já trataram de diferenciar, agrupar e relacionar a escrita da História e a dos romances históricos. Há quem defenda um e submeta outro, há quem os junte no mesmo balaio e há quem os eleve numa levada boa e nobre, cada qual sendo o que é, o que pode ser e o que se tornará. A História anda ao lado de tudo, de mãos dadas com cada aspecto desse mundo vivido e sentido. E tudo que respira, inspira arte. Duas irmãs, duas incríveis senhoras que não se separam, não se excluem, não se limitam.

O romance histórico, não tratando dos conceitos científicos e não perambulando entre as escritas acadêmicas, foge a metodologia do fazer da historiografia. Demonstrando sua diferença. Ele “não se interessa em repetir o relato dos grandes acontecimentos, mas de ressuscitar poeticamente os seres humanos” que viveram experiências, como escreveu a pesquisadora Marilene Weinhardt. Cada qual em seu espaço desenvolve uma visão, uma representação do que por aqui passou.

O mundo do romance alcança o popular, o comum, e eleva o cotidiano com detalhes que somente o artista percebe e descreve. O romance é inventado, reinventa-se e continua a nascer. Sempre sendo o que se pode tirar de uma ficção: tudo. Mas junto do historiador, o artista também carrega suas subjetividades e os derrama sobre seus escritos.

Pois bem, o que pretendo dizer é que tudo o que está escrito carrega representações. Não há verdade, há visões e grandes coisas a serem admiradas, neste último caso, o romance histórico de Etel entra facilmente na categoria. O herói provisório, editado pela Travessa dos Editores, será lançado no próximo dia 30 de agosto e tem uma particular visão de um marco histórico daqui do sul, voltado para o século XIX, com personagens únicos, reais e ficcionais, que chegam para enriquecer nossa literatura.
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Lukács escreveu que a funcionalidade do romance histórico é figurar a grandeza humana na história passada. Acredito que Etel levou isso à risca quando iniciou sua trajetória com seu herói.

A compositora, poeta, letrista, roteirista, dramaturga e médica (!), escreveu uma ficção ambientada em Paranaguá, que traz passagens pelo Rio de Janeiro, Cunha e Lisboa. O contexto de fundo é o episódio de Cormoran, fato histórico ocorrido em 1850, quando a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel, abriu fogo contra um cruzador inglês que rebocava navios brasileiros com suspeitas de carregarem pessoas escravizadas. Já que nesse período, a Inglaterra combatia intensamente o tráfico negreiro.

O Brasil seguia uma visão pouco favorável à posição inglesa. Internamente o negócio era outro. É nesse cenário que, na manhã de 19 de junho de 1850, o Slooper HMS Cormoran, comandado por Herbert Schomberg, adentrou a baía de Paranaguá e abordou os navios ali atracados.

Os que ali viviam, entre poderosos e cidadãos de Paranaguá, não aceitaram a visita com tranquilidade e se dirigiram à Ilha do Mel, reergueram a fortaleza e exigiram as providências contra a ação dos britânicos ao Capitão Joaquim Ferreira Barboza. Mesmo não gostando muito do que viria, o comandante cede e dá ordens para que o ataque ao Cormoran enfim acontecesse.

A partir de então nasce o herói de Etel. O anunciado Joaquim, enaltecido por sua ação pelo presidente da província, tem de lidar com a responsabilidade do ataque, do morto e dos feridos. Tem de lidar com a sua vida pós Cormoran.

Para existir o herói sob essa visão riquíssima da autora, 14 anos de peregrinações e longas crises de rinite existiram, como lembra quando entrou em contato com os documentos históricos, poucos e únicos, que a auxiliaram na criação. Para esta história surgir e este herói urdir, tudo se fez, cenário, personagens, sentimentos e voz. Um romance completo, uma visão histórica que só uma artista pode ter.

O herói provisório chega para ficar. Das interpretações e recepções, obscuras e ascendentes, Etel e sua representação tornam maior o que já temos, desaba barreiras entre teoria e prática e transporta o leitor para outro tempo, imaginado, escrito e protagonizado por seus personagens nessa boa troca entre história e ficção.

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