Templo ecumênico em meio aos Campos Gerais

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No meio desta discussão em torno de avanço por parte do agronegócio em reservas e áreas protegidas, que se desenvolve em escala nacional e também regional, aqui para agredir o já violentado bioma dos Campos Gerais, lembrei-me de uma participação que tivemos em 1961, governo Ney Braga, no esboço de um Plano Diretor para Vila Velha. É que o parque estadual fora dividido pela estrada, hoje 277, antes BR-35, construída por Lupion que se encontrava em detalhamentos finais na posse do novo governo.

Criado um grupo de trabalho presidido pelo engenheiro sanitarista Armando Júlio Bitencourt, pelo arquiteto Romeu Paulo da Costa (autor do projeto da Biblioteca Pública), o desenhista e pintor Nilo Previdi e pelo diretor da Divisão de Turismo, posto que eu ocupava na condição de secretário e acumulando função de orientador jurídico. Discutíamos, já que se tratava de parque estadual e sede do Departamento de Produção Vegetal da Secretaria de Agricultura, que concessões poderiam ser feitas, global ou dispersas, pela iniciativa privada e que cautelas a adotar para que ali prevalecesse a prática do ecoturismo, dada a relevância de aquele cenário ser memória geológica da humanidade, como ensinavam Reinhard Maack e João José Bigarela, testemunho da teoria de migração dos continentes, a terra de Gondwana, separação do Brasil e da África.

Fundo de oceano, deserto, geleira, todas essas etapas foram alvo de estudos e de coincidências entre a rocha matriz da região e a do solo africano em referências faunísticas e minerais, de fósseis e até do diamante do Tibagi entre continentes desmembrados. Em função disso uma das primeiras ideias seria a de erigir no local um museu geológico para traduzir toda essa memória e vertê-la em técnicas expositivas o quanto mais modernas possíveis.

Em meio aos trabalhos uma reivindicação do bispo de Ponta Grossa, Don Geraldo Pelanda, que pretendia um templo e uma obra social. Como consultor jurídico argumentei que o Estado é leigo e parques, conforme o Código Florestal então vigente, são áreas sob proteção permanente. Estabeleceu-se uma polêmica e o bispo, empenhado no seu intento, foi à Roma e levou uma santinha de cerâmica, que seria Nossa Senhora de Vila Velha para a benção do Papa João XXIII. Como estava em curso a pregação ecumênica imaginamos uma concessão à pluralidade intentada e fizemos o esboço do primeiro templo ecumênico nas pranchas dos nossos projetos. Evidente que o ecumenismo, posto que com uma raiz no catolicismo, era como é uma utopia dos nossos tempos, apesar da carga de mundialismo contestada por várias formas de nacionalismo e isolacionismos, até terroristas, como o da fração do Estado Islâmico. Quando passo por Vila Velha imagino aquilo que não foi edificado, o primeiro templo ecumênico do mundo, imponente ao lado da lagoa Tarumã. Se o tivéssemos seria uma atração a mais entre as magníficas esculturas feitas pela água e o vento que tanto interesse despertam e ainda mais aguçam a imaginação.

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