A Sombra Dourada

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Um romance notável de Guido Viaro

Verdadeiramente encantado – e talvez fosse mais adequado utilizar outro verbo, deslumbrado – concluo a prazerosa e enriquecedora leitura do mais recente romance de Guido Viaro. É o décimo terceiro, mais um marco miliário na estrada larga da criatividade do paranaense e, pela minha ótica privativa talvez precária e certamente discutível, o “primus inter pares”. E é para mim, sem dúvida, o mais belo romance já escrito no Paraná.

Trata-se de um genuíno e autêntico concerto sinfônico verbal, em cuja música há sons, paradoxalmente silenciosos, de flauta e lira, trompa e oboé. Porém, aqui e ali mais além, escondem-se os minifúndios dos minuetos breves, em cujas partituras esvoaçam as notas puras de outros sons. Sons, talvez, de clavicórdio e harpa e alaúde. E todos esses sons, a um só tempo, melódicos, harmônicos e rítmicos, parecem arranhar com volúpia a epiderme translúcida da alma do leitor em transe.

De modo talvez heterodoxo, para não dizer esdrúxulo, farei aqui um parêntese impertinente, se não inoportuno, para equacionar uma informação interessante: Guido Viaro é neto de um avô que cultivou também, com indubitável maestria, no milagre da intersemiótica, não a música do verbo, mas a música das formas e das cores que se espraiam na brancura das telas prontas sempre a agasalhar o arco-íris.

Continuando. Irei oferecer agora ao leitor em disponibilidade uma série de trechos, fragmentos, desentranhados do belo romance guidoviariano. Disse trechos, fragmentos? Melhor diria se dissesse – pepitas. De áureas pepitas a um só tempo luminosas e cantantes. Oriundas, por certo, de lavras e garimpos quase inesgotáveis.

Colhidos “à vol d’oiseau”, sem qualquer preocupação prévia em situar esses fragmentos no tempo e no espaço, cronológica e geograficamente. Aí vão eles:

O dia aconteceu lentamente, Marcel abriu a janela para apressá-lo, ouviu passarinhos cantando e o céu perdendo o escuro. Aqueles momentos costumavam enchê-lo de melancolia, então voltou para cama, cobriu a cabeça com o travesseiro, e esperou até que tudo estivesse consumado. Os barulhos da manhã motorizaram o seu quarto.
* * *
Escuto os doces gemidos do lago. Não estou longe de compreender o que diz, soa como uma garrafa cheia de lágrimas sendo esvaziada, o gargalo ansioso dando vazão a uma voz coletiva que sugere… propõe… o ruído é a mistura da voz de todas a pessoas que conheci. Reconheço também cada pensamento que tive no momento anterior a que se transformasse em palavra. Tiro os sapatos e molho os pés, os dedos do lago concentram em afagos todo o contato que tive com a vida. Compreendo. O sussurro é coerente. Escuto o barulho seco do tesouro afundando nas águas. Nada mais.
* * *
Sonhou que dormia na mesma cama em que estava deitado. O tempo afundava dentro do fosso de si mesmo. Os cantos esquecidos mantinham os seus detalhes intactos, os fiapos do cobertor eram aparentados das pontas douradas que escapavam da estátua. A permanência naquele quarto sonolento poderia continuar até o fim dos tempos. A vida, fatigada de si, voltada ao sonho.
* * *
A escuridão pode oferecer a oportunidade para desembrulhar meu futuro. Atenuo as cores mais vivas e podo as pontas espinhosas dos pecados, afago a paz provisória engolindo dois medos, que assim como a escultura de Moore, desejam flamejar e transformar-se em incêndio.
* * *
Caminho e descubro nova estátua, as formas entrelaçadas de Henry Moore, a pedra tentando ser carneiro, que divide-se em dois e luta contra todos os tipos de gravidades em busca da unidade perdida. As últimas sombras perceptíveis mancham o gramado e fazem o animal de pedra pastar as águas do lago. A solidão corre a meu lado, respiração ofegante e tênis fosforescente.
* * *
O grande painel da estação ferroviária era um cardápio de destinos.
* * *
Um doce otimismo sincronizou-se com os primeiros passos. O ar fresco era acompanhado pelo cheiro do crepe de presunto, e a primeira refeição parecia recheada de sabores-surpresa. Mesmo que a essa hora o paladar ainda não estivesse aguçado, era durante o nascimento do dia que nutriam-se as ideias. Só depois de alimentado o espírito, o corpo transmite energia para os membros. A geleia de framboesa lentamente espalhada pelo ventre do croissant gerava saliva vazia, e essa expectativa era o útero das decisões. A xícara de café paria o dia, que agora ansiava pelas pisadas vigorosas daqueles que deixaram a noite para trás. A manhã transbordava primaveras enquanto a louça suja cantava seus caminhos de volta para a cozinha.
* * *
A catedral de Rouen estava por toda parte, e qualquer pessoa era Claude Monet.
* * *
Enlutado pelo desânimo, observou os pombos, esquecido de todo o resto, a infância misturou as penas com as esperanças, enquanto as asas frágeis das aves ensaiavam voos inúteis, transformando sujeira em alimentos. Depois eles se foram arrulhando seus caminhos, pisando nos orifícios das certezas, continuando a perseguir comida, levando consigo parte da força do sol. Cansado do descanso, levantou-se e seguiu na mesma direção dos pombos, foi procurar algo para comer.
* * *
O mundo, e incluía-se como uma minúscula parte dele, era ímpar. A condição de qualquer objeto, pessoa ou acontecimento, padecia dessa condição numérica. Os pares, como os pombos ou as estátuas colocadas junto do altar, eram apenas coincidências momentâneas mergulhadas dentro das suas carapaças de solidão.
* * *
O interior majestoso da catedral não modificou seu estado de espírito, as luzes multicoloridas que vazavam dos vitrais, flutuando pelos ares, construindo uma camada de realidade oposta aos caminhos conhecidos da mente, também não lhe pareceram nada além de uma tentativa medieval de ilusão dos sentidos.
* * *
Com todos dormindo passeou pela sala, que também dormia, esperando o momento de acontecer, os porta-retratos narravam sorrisos, o livro com página marcada descansava dentro da memória, que nesse instante hibernava, tímida, temendo as cores-movimento da aurora boreal dos sonos.
* * *
Distraído pelas lágrimas nem chegou a perceber que o relógio engolira uma hora.
* * *
Os passos irônicos percorreram o centro da cidade até deixarem seus pés em paz, as pernas cansadas tinham olhos vermelhos e boca seca. A multidão muda atravessava esquinas distorcidas pela ilusão da curva. Seu sorriso possui o peso de um piano impressionista, e dentro dessa bolha de luz musical o homem era muitas cidades, porque sendo vários não temia ser ninguém, encontrava atadas a postes e descendo do céu, as amarras que o prendiam ao cotidiano.
* * *
O ouro espalhava-se por seu sangue, entupindo veias e inchando gânglios. Ocupando mais espaço do que deveria, corrompia prioridades que, antes de serem prejudicadas, já mostravam fragilidade. Enquanto permanecesse enfiado na sua mochila, brilhando dentro do escuro das suas roupas, guardando semelhança com um corpo que fosse velado, que mesmo morto ainda por algumas horas impediria a saudade de chegar, mas assim que se transformasse em dinheiro, viraria memória e culpa, atraindo para si o peso da vulnerabilidade. Mas sabia que os funerais são inevitáveis e que, de todos os hábitos do homem, costumam ser os mais pontuais.

E paro por aqui. O que podemos nós vislumbrar, “au soleil du midi”, nesse pugilo de fragmentos emblemáticos que facilmente poderiam ser decuplicados? Mais do que uma soberba prosa poética, o império avassalador da poesia em prosa.

Antes de mais nada, e acima de tudo, Guido Viaro é um extraordinário prosador que não deixa de ser poeta. Se Dostoievski, como todos bem sabemos, rotulou seus romances de gênio como POEMAS, com maior razão ainda, o paranaense poderia considerar o seu romance singular como poema.

Há de tudo na parafernália da obra guidoviariana: vida e morte, espaço e tempo, geografia e história, o real e o onírico, o sono e a vigília, memória e esquecimento, os pomos dourados da alegria e o vinho capitoso da esperança, estátuas prenhes de ouro e labirintos enigmáticos, cidades do Velho Mundo, com suas catedrais góticas, em cujas ruas e becos tropeçamos a cada momento nas pedras gastas do passado, corroídas pelo ácido do tempo, a clareza e o mistério, luzes e trevas, alquimias e metamorfoses, a beleza e a feiura, o pecado e a culpa, píncaros e abismos, sorrisos de veludo e de cetim e lágrimas que são pétalas desatadas de um colar de espanto, as cambalhotas da infância nos pátios de outrora, e as quedas frequentes nos latifúndios da maturidade e, mais ainda, da anciania, aqui agora, as rosas despedaçadas e os lírios murchos atapetando o chão do claustro de um convento onde passeia, vestida de silêncio, a monja triste chamada Solidão.

Sim, podemos considerar “A sombra dourada” como o reino encantado, a província fantástica, o mundo arcoirisado da metáfora. Por toda parte as metáforas explodem, numa girândola feérica de flores de fogo. Um festival pirotécnico, um florilégio de metáforas pluriformes e multímodas. E nós não podemos esquecer a lição desse demiurgo do verbo que era Proust: sem a metáfora essencial, o verdadeiro escritor – poeta ou prosador –, não poderá produzir nada que preste. Nada.

“A sombra dourada” é, por certo, o mais belo espécime romanesco da já vasta obra de Guido Viaro. Com efeito, ele, pela minha visão axiológica privativa, é certamente o maior – e melhor – romancista da Terra das Araucárias.
“Data vênia” a um triunvirato ilustre que pontifica na Ecúmena paranaense. A nominata? Ei-la: Cristóvão Tezza, Domingos Pelegrini e Fábio Campana.

Viajante, andarilho, turista, peregrino sempre empenhado na busca de algo, seja o tempo perdido ou o passado reencontrado, o outrora e o agora, “outroragoramente”, na incessante demanda de um Santo Graal qualquer, Marcel, o denso protagonista do romance, talvez seja – e o talvez, aqui, é meramente eufemístico –, um claro e transparente heterônimo. De quem? Do criador demiúrgico, que lhe deu vida: Guido Viaro. Um certamente pessoano ou fernandino, pouco importa – “ele mesmo”. Haverá outros? Deixemos cair sobre a indagação, piedosamente, o manto inconsútil do silêncio. Afinal, como canta o gênio de Strartford, “the sweet swan of Avon”, o resto é silêncio. Quem terá a ousadia de negá-lo?

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