Editorial. Ed. 191

O povo já não vai às ruas protestar. A indignação acabou? Não, esperança de poder mudar radicalmente o que está aí é que foi pelo ralo. Afinal, nada ou quase nada mudou depois das grandes manifestações de milhões nas ruas do país. Quem se ilude sobre nossos desígnios ao ver a disputa bruta de cargos públicos em troca de apoio político no Congresso? Quem pode esperar alguma coisa de novo no comportamento de nossos políticos quando sabemos que a funcionária encarregada da agenda e das roupas da primeira-dama fura a fila de pretendentes ao mesmo benefício e é contemplada com um apartamento funcional cedido pelo governo?

Este é o novo Brasil? O Brasil de Jair Bolsonaro, o candidato de ultra direita, dono de moralismo chinfrim e ideias toscas, que surge como forte candidato a presidente da República. Ora, o Brasil, onde 84 juízes de Mato Grosso receberam mais de R$ 100 mil no contracheque de agosto, sendo que 18 deles ultrapassaram os R$ 300 mil? O maior salário no serviço público deve ser de pouco mais de R$ 33 mil como manda a Constituição. O juiz Mirko Vincenzo Giannotte, também de Mato Grosso, recebeu R$ 503 mil.

A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia, sentindo-se impotente, sem poder acreditar numa democracia que prepara as próximas eleições com a desfaçatez de votar um fundo público de campanha eleitoral de R$ 3,5 bilhões. E inventa o distritão, uma nova excrescência oportunista, para reeleger os mesmos. Não, o povo não tem porque acreditar que algo está mudando, ao ver que o país constrói sua desgraça com esmero dos políticos.

A corrupção continua à solta, a demagogia faz a festa, safadeza e impunidade andam de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela audácia dos canalhas. Não acabaram as farras das viagens oficiais. Permanece atendida a paixão dos políticos pelos jatinhos e por toda espécie da mordomia. Grandes comitivas, hotéis de luxo, jantares e festins. Continuam valendo os auxílios moradia, os carros oficiais, com as frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Valem as verbas para “exercício do mandato”. Continuam as obras que não acabam nunca, os superfaturamentos.

Enfim, vale tudo como dantes. As residências oficiais, ajudas de custo, aposentadorias e a sangria nas estatais. Por que os brasileiros deveriam acreditar em que algo, se o que constata é que se os anos de governos do PT foram mais que desastrosos, nada de substancial mudou no comportamento de políticos e governantes.

O espetáculo continua deprimente. Os políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública. Os chamados representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.

Não, não há porque acreditar na mudança e não acusem o nosso povo de alienado, ignorante ou coisas tais. O povo é o que é, vítima de sua elite política desde sempre. Vive inseguro, com medo de perder o emprego e pouco sai à rua, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia, enquanto seus algozes verdadeiros têm direito a foro privilegiado.

O que restou? A população sabe que não deve ter esperanças e gasta seu tempo a ver as novelas, a se comunicar nas redes sociais em interminável manifestação de vulgaridade e ignorância ou a torcer pelos times de futebol. Futebol ruim, diga-se, como tudo o mais que temos hoje no país.

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