Homem e mulher até certo ponto

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Em maio de 1971, o cine Lido, em Curitiba, exibiu com sucesso e algum alvoroço, o filme “Homem e mulher até certo ponto”, do título original Myra Breckinridge, produção Fox de 1970. Adaptação do livro de Gore Vidal, que também trabalhou no roteiro, conta a história de Myron, um rapaz que resolve fazer a operação de mudança de sexo. Quem faz o “operado”? A escultural Raquel Welch, um dos símbolos sexuais do cinema na época.

Porém, muitos daqueles que foram atraídos pelos cartazes com a linda Welch, tiveram que voltar ao cinema, pois o filme foi roubado por uma senhora de 82 anos, um metro e cinquenta de altura, Mae West, que protagoniza uma agente de talentos insaciável (apenas clientes homens). Afastada 27 anos das telas, fora uma estrela dos anos trinta.

Mae West em Every day’s a holiday, filme de 1938.

Mae West em Every day’s a holiday, filme de 1938.

Para acreditar nisso, só vendo o filme, que contou ainda no elenco com outra beldade, Farrah Fawcett, além de John Huston, John Carradine, Rex Reed. Direção de Michael Sarne. Comédia caótica que usou maliciosamente inserções de pequenas sequências de filmes antigos do Gordo e o Magro (Laurel and Hardy), Shirley Temple, entre outros. Como ela exigia, alguns diálogos de duplo sentido escritos pela própria Mae West foram inseridos, como em uma cena em que ela encontra na porta do seu escritório, um alto e bonito cowboy perguntando: qual a sua altura sem o cavalo? Ele: dois metros e dezessete centímetros. Ao que ela responde, olhando-o de baixo para cima: vamos falar dos seus dezessete centímetros! A plateia vinha abaixo às gargalhadas.  E por aí vai, pois não quero entregar mais situações engraçadas do filme.

jensen1myracapaNascida Mary Jane West, em 1893, Nova York, Mae West integrou companhias teatrais que excursionavam pelos Estados Unidos, até a Broadway, nos ruidosos anos 1920, onde se tornou estrela com suas peças causando escândalos, chegando a ser presa em Nova York, o que ela usou habilidosamente como publicidade.

No início da revolução do cinema sonoro, a bancarrota estava rondando a Paramount, com atores que perdiam popularidade com a nova tecnologia, problemas com diretores e sobretudo roteiristas.

Como outros estúdios, foram buscar talentos no teatro. Foi aí que Mae recebeu um convite para Hollywood. Em 1932, estreou no cinema com “Noite após noite” ( Night after night) filme veículo para George Raft, direção de Archie Mayo. West não gostou de seu papel, e reescreveu seus diálogos para que a personagem se encaixasse em sua personalidade pública, como no teatro. Sem nunca aparecer nua ou falar vulgaridades, dizia tudo com ar de deboche, duplo sentido, mais seus requebros, seus olhares, seu balançar da cabeça, divertidíssima.

Mae West com Gary Grant em “Santa não sou” (I’m no angel), produção de 1933.

Mae West com Gary Grant em “Santa não sou” (I’m no angel), produção de 1933.

Em sua primeira aparição na tela, ela entra deslumbrante em um restaurante e a atendente da chapelaria exclama: Meu Deus que diamantes! Ela: Querida, Deus não teve nada a ver com isso. Raft, seu amigo, declarou que ela roubou o filme, refletores, tudo, menos as câmeras.

O público adorou, os críticos também, e a partir daí a Paramount, em plena depressão, começou a dar lucro com seus filmes, e viu que tinha encontrado uma mina de ouro. Seu filme seguinte “Uma loira para três” (She done him wrong), 1933, direção de Lowel Sherman.

Durante a preparação para a produção, ela viu nas dependências do estúdio, um homem alto, moreno, e perguntou ao chefe de produção quem era aquele. Gary Grant. Mae respondeu: se sabe falar, fico com ele para o papel principal. E assim o desconhecido Gary Grant ganhou um grande impulso para se tornar um astro.

Ela estava se preparando para o seu primeiro papel estelar no estúdio e já tinha controle sobre o elenco, diretor, roteiro, baseado em uma peça escrita por ela chamada Diamond Lil. Sucesso total, tornando-se no cinema uma vamp em que as insinuações de sexo eram divertidas nunca dramáticas.

jensen3shedonehimcapaMas começaram os problemas com os códigos do Hays Office e pressões de grupos religiosos que cortavam cenas já nos estúdios, mais os jornais puritanos que faziam uma acirrada campanha contra ela. Este código começou a vigorar justamente a partir de 1934 pela Motion Pictures Association of America para orientar os estúdios sobre o que era moralmente aceitável ou não nos filmes.

Mae fez mais oito filmes até 1943, quando se retirou das telas desgostosa com os cortes que sofria, e que prejudicavam seus roteiros, só retornando com “Homem e mulher até certo ponto” seu primeiro filme em cores. Ela proclamava que tinha inventado a censura. Entrementes, voltou ao teatro esporadicamente, lançou discos, fez alguns shows em Las Vegas.  Morreu em 22 de novembro de 1980, muito rica em seus 87 anos. Algumas de suas frases e diálogos ficaram famosos, concorrendo com outro sátiro da época, Groucho Marx, como por exemplo:

Quando sou boa, sou boa, mas quando sou má sou melhor.

Não são os homens na minha vida que contam, e sim a vida nos meus homens.

Homens a meus pés, prefiro tê-los em volta do meu pescoço.

Meus dois tipos preferidos de homens são os nacionais e os estrangeiros.

Os homens selvagens são os melhores animais de estimação.

Não deixe nenhum homem por nada sobre você a não ser um guarda-chuva.

Diálogo: 

– Tenho procurado um homem que seja bonito, alto e que tenha muito dinheiro.

Mae: – Querida, você está procurando 3 homens.  Perguntada se acreditava em amor à primeira vista: “Não sei, mas poupa um bocado de tempo.

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