“Ir a ti?” e “O dia deu em chuvoso”

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Ir a ti?

Nasci em Irati. Principalmente, vivi em Irati. Irati, Irati, Irati – “rio de mel”? Nem tanto, não exageremos. “Ir a ti” – como no poema do Foed Castro Chamma – não vou mais. Nada contra; apenas Vosmecê está na minha memória “como um cão vivo/ dentro de uma sala./ como um cão vivo/ dentro de um bolso./ como um cão vivo/ debaixo dos lençóis,/ debaixo da camisa,/ da pele”.

Irrati, Irrati, tera querrida? Claro, claro! Mas que gênio teve a brilhante ideia de recrutar um polaco de cada colônia para o coro que gravou em acetato o hino da cidade? Deu no que não poderia deixar de dar. O inconfundível sotaque contaminou a pesada bolacha e tingiu-a indelevelmente. Não nos arrependemos. Ficou engraçado. É típico. Afinal de contas somos ou não somos “terra de polcados”?

Ah! Os polacos! Quem escreverá o sempre renovado, o inesgotável anedotário dos polacos de Irati? Por certo a obra exigiria um batalhão de autores e pelo menos 500 maçudos volumes – todos impotentes, nenhum capaz de captar aquele involuntariamente cômico sotaque, só reproduzível “via oral” e por alguém com o talento do Dr. Fornazzari ou do Luiz Fernando Arzua. Correrei o risco? Sim. Não consigo resistir à tentação de divulgar duas joias verdadeiras, duas legítimas peças de uma possível antologia. Vamos lá?

O cenário da primeira é um clube de jogo, uma mesa de pif-paf e o nosso herói, Kurubela – um polaco imenso, magro, desajeitado, louco por cartas. Noite alta, céu risonho, eis que pinta uma parada de tirar o fôlego. Pelo menos seis parceiros foram à luta. Repique, contra-repique, volta, contravolta – uma montanha de fichas sobre o pano verde. E a mão começa! Compra-descarta-compra-descarta-compra-descarta… e nada de bate. Silêncio pesado. Atmosfera pesadíssima. E o baralho chegando ao fim. Eis senão quando o Kurubela vai ao monte, compra uma carta, abre um descomunal sorriso e comunica: “Suzinho comprei!” E bateu. Quase linchado. Tiveram de chamar a polícia.

O cenário da segunda é a frente do bar do Maluf – melhor quibe e o melhor picolé do mundo. O herói? Alex. Sim, aquele mesmo que jogou na seleção paranaense, no Londrina, no Água Verde, no Botafogo de Ribeirão Preto, no Corinthians, no Operário de Ponta Grossa e no meu querido, no meu amado Clube Atlético União Olímpico.

Meses depois de ter ido jogar no Operário, Alex veio a Irati rever a família, os amigos. Que reencontrou na frente do já citado Maluf. E para os quais começou a contar uma jogada que realizara no último Ope-Guá. A seguinte: “Apenhei a bola na nossa intermediária, fintei o Nivaldinho, driblei o Lara, passei pelo Fausto e pelo Arnaldo e… tchan, tchan, tchan (comentário meu, CAP), di rolandinha, rolandinha, pro Roberto”. (Amável leitor, se você não subtrair um erre das palavras rolandinha e Roberto a anedota não terá graça alguma, certo?). Mas nem só de polacos vive Irati.

A minha cidade é a terra da Denise Stoklos, do Foed Castro Chamma, do José Maria Orreda. Orreda, como Plutarco, só não deixou Irati para não empobrecê-la. A sua história da cidade é incomparável, um “tour de force” que merece no mínimo uma estátua. A Denise dispensa apresentação: é um nome internacional. Mas o Foed, que mora no Rio de Janeiro, precisa ser descoberto urgentemente pelos paranaenses que amam a poesia. É, sem favor algum, altíssimo poeta. Poeta dificílimo, para iniciados, para “happy fews”. Barra pesadíssima, o Foed – leitor de Rimbaud, Mallarmé, Jorge de Lima…

E como esquecer a política, os políticos, os embates do PSD com o PR? Convém recordar que Irati teve dois governadores de Estado: João Mansur e Emílio Gomes. E, num determinado período, quatro deputados, três estaduais e um federal. Para um “covalzinho”, nada mal.

E as disputas esportivas, especialmente as do futebol. Que jogos! Que surras demos no Iraty velho de guerra, nós do Olímpico, nos memoráveis anos de 1957-58-59 e 60. Tetra campeões. De verdade. Um título atrás do outro. Rato; Anciutti e Danclise; Zenos-Bággio e Jaime; Pires-Quadros-Ney-Alcides e Peru. Meu filho, nunca verás time igual a este. Aleluia.

E as inolvidáveis justas de sinuca? Afonso x Zanoni; Biju x Negrinho; Biduca x Periquito (que levava 20 pontos e todas as bolas livres). E a célebre negra entre o Batata e o Tico Visinoni, então? Somente a sete na mesa. A preta terrível, que fazia tremer os mais frios, na marca do cinco; colada na tabela da saída, a branca. Vez do Tico. Caçapa cantada. E o Tico gritou: “Lá em cima!” E tacou. E não é que embocou?! Mas o Batata não hesitou. Foi à lousa e marcou sete pontos. Pra ele, Batata! Sob o especioso argumento que lá onde o Tico tinha encaçapado o sete não era “lá em cima”, mas “lá em baixo”!

Irati, Irati, “rio de mel”? Não, rio de memórias, rio da infância e rio da adolescência, rio dos rios de verdade – rio das Antas, das Lousas, das Pedras, onde pelados fugíamos do Bolek, implacável guardião. Irati, Irati do Grupo Escolar Duque de Caxias, do Colégio São Vicente, do Colégio das Freiras, do Colégio Irati. Irati, Irati da Santa e da zona – que ficava na rua da Mina. Irati das festas, dos bailes, das sinucas, das brigas e das piadas. Irati do Cine Theatro Central onde paquerávamos as meninas em flor ao mesmo tempo que comíamos toneladas de pipocas servidas no escuro pelo Herculano. Ir a ti? Não vou mais. Carrego você na minha memória. Hoje, amanhã e sempre.

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O dia deu em chuvoso

O dia deu em chuvoso, como no verso do Pessoa, o bom Pessoa, o Pessoa 25 anos, legítimo, unblended.

O dia deu em chuvoso, como no verso do Pessoa. E tenho de sair de casa, ir à rua, à luta. Logo hoje!? Que o dia deu em chuvoso?! Saco.

Visto a bela capa porteña, apanho o belo guarda-chuva inglês, saio. Pro limpo. À chuva.

Sou tipo pra lá de ridículo com esta bela capa porteña e este igualmente belo guarda-chuva britânico numa tarde chuvosa na sede da província do Paraná, no meio desta primavera de tantas águas, sombras, lama.

Caminho sob a chuva – o dia, afinal, deu em chuvoso – e arrasto comigo um rosário de mortos. Em cada pedaço do percurso um morto aflige minha memória: dona Negra, Mamãe, dona Maninha e seu filho político, Laurinho, Paulinho Pinto Dias&Ricardinho, Coski, Jamil, Marcellino, Davi Guérios, Tio Plínio, doutor Juvêncio, Heitor Valente, meu irmão Plínio, Tia Sara, Negro João, Nava, meu pai, meu irmão Luiz, são tantos, um enxame fúnebre.

Como no poema do Pessoa, o dia deu em chuvoso. E caminho sob a garoa em meio aos jacarandás, suas lilases flores, tombadas flores lilases, metáfora da ubíqua morte que docemente aperta o silencioso laço, o inexorável laço.

O dia deu em chuvoso e a tentação do abandono me acena. Por que não? Mas tenho dívidas a pagar, compromissos, encontros, o cotidiano me acossa, o pedestre me distrai, a rotina me protege. Até que um raio de sol fura a nuvem, muda o humor. Estou salvo. Hoje não voltarei a beber, hoje não voltarei a fumar, hoje não voltarei às brancas carreiras, hoje. Amanhã? Não sei. Amanhã é outro dia. Quem sabe? O dia deu em chuvoso, já o final da tarde…

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cronica_nego1Nêgo Pessôa nasceu em Irati. Foi escriba e tricolor, como gostava de se apresentar. Como jornalista escreveu nos principais periódicos da cidade e foi colunista da revista Ideias. Navegou do esporte à política e publicou os livros “De Letra”, coletânea de crônicas de futebol; “O Sábio de Chuteiras”, biografia do jogador Russo, do Fluminense; “Modos & Modas”, todos editados pela Travessa dos Editores, além de outros. Sua última publicação foi o “Livro Vermelho de Nêgo Pessôa”, de 2015.

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