No coração do Brasil

adriana_0_abre2

Poucas vezes ocupei este espaço para falar de artista específico. Quem acompanha a coluna sabe que opto por tratar de temas específicos e os artistas vão se encaixando naturalmente neles. São como ferramentas emprestadas a essa grande tapeçaria que é a MPB.

Mas agora eu preciso, uma rara vez mais, quebrar a forma, espalhar alguns pedaços no papel e inverter a lógica. É necessário falar de como um artista tratou das nossas grandes matérias. De como embrulhou em pacotes perfeitos e nos entregou de bandeja as temáticas humanas.

E antes de começar, deixa eu explicar que se o texto de hoje despencar para pieguice é porque não sei outra forma do que de um jeito altamente sentimental. Luiz Melodia era, é, um dos meus preferidos. O compositor e o cantor. O super homem, super mosca, o super carioca!adriana-3

Tenho vontade de chama-lo Pérola Negra, Negro Gato, Ébano, beija-flor, de fazer trocadilhos com seu nome, de achar um jeito de tratar em texto toda sua voz e elegância, talento e potência, toda sua marginalidade familiar. Mas conheço minhas limitações. Puxo o ar, ligo a radiola e começo.

Em 1969, Luiz Melodia tinha 18 anos. Um garoto. Um menino. Ocupou as experiências vividas no Morro do Estácio, onde nasceu, aos modismos da jovem guarda e outros sons que vivia testando com outros de sua idade em formações que desciam o morro para animar festas e bares, para participar de programas de rádio e conseguir pontinhas em programas de TV. Mas ele já era um compositor completo.

Dos rabiscos que testava, sem muita segurança, nasceu “My Black”. Uma canção de amor diferente, cheia de surpresas poéticas e um som do Estácio que não era samba; pop que não era rock; negro que não era blues.

Wally Salomão, que já tinha estrada e conhecimento suficientes para identificar engenho, ouviu, entendeu, sugeriu troca de nome e “Pérola negra”, três anos depois, passou para voz de Gal Costa no LP “Fatal – Gal a todo vapor”.adriana-1972-perola-negra

Falar de amor para aquele quase ainda adolescente era meio intuitivo e direto, um jeito quase primitivo e sem floreios românticos. Deu certo. Virou a música de sua vida inteira. “Tente passar pelo que estou passando / Tente apagar este teu novo engano/ Tente me amar pois estou te amando […] Tente usar a roupa que estou usando / Tente esquecer em que ano estamos / Arranje algum sangue, escreva num pano/ Pérola Negra, te amo, te amo / Tente entender tudo mais sobre o sexo / Peça meu livro querendo eu te empresto / Se inteire da coisa sem haver engano”.adriana-1975-maravilhas-contemporaneas

No mesmo caderninho de composições em que “Pérola negra” figurava, “Estácio, Holy, Estácio” também adormecia a aguardar o momento para desfilar pelo mundo. Foi Maria Bethânia quem a apresentou em disco, no mesmo 1972.

A música era também de amor, composta para Rosângela, namorada da época. Teve uns problemas de grafia que persistem até hoje. Originalmente a palavra do título é ‘holy’, que tem significado de ‘santo’, por um erro, algumas vezes foi grafada, inclusive no Conselho Nacional de Direito Autoral, como ‘holly’, que é ‘azevinho’, um tipo de planta. A confusão compromete o sentido do título e a música que mirava em Rosângela, se tornou um dos hinos do Estácio. “Se alguém quer matar-me de amor / Que me mate no Estácio / Bem no compasso, bem junto ao passo / Do passista da escola de samba / Do Largo do Estácio / O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço / Trago não traço, faço não caço / O amor da morena maldita do Largo do Estácio / Fico manso, amanso a dor / Holliday é um dia de paz / Solto o ódio, mato o amor / Holliday eu já não penso mais”. adriana-1980-nós

Um ano depois, era a hora e vez de Melodia estrear em disco solo. O álbum, que foi puxado pelo sucesso “Pérola negra”, teve além das duas músicas cantadas pelas musas do momento, outras canções definitivas para sua obra: “Estácio, eu e você”, “Vale quanto pesa”, “Farrapo humano” e “Magrelinha”.

Com dor no coração, porque o espaço da coluna só permite uma citação do disco, escolho a sensualíssima “Magrelinha”: “O beijo meu vem com melado decorado cor de rosa / O sonho seu vem dos lugares mais distantes / Terras dos gigantes / Super Homem, super mosca, super carioca, super eu, super eu / Deixa tudo em forma é melhor não ser / Não tem mais perigo digo já não sei / Ela está comigo sonho só não sei / O sol não advinha baby é magrelinha”. adriana-1983-felino

Sim, já tentaram dizer que “Magrelinha” trata da fome que mora no ‘coração do Brasil’, que é um protesto contra a pobreza.

Por favor, esqueça isso, Luiz Melodia não era um homem de frases lineares e literais. Suas composições eram fortes em combinações de palavras e sequências que se afastavam em imagens e se uniam logo depois em flashes que se combinavam para formar um todo – fragmentos que se juntavam como os pedacinhos de azulejos naqueles pisos de caquinhos vermelhos.

Em 1975, no Festival Abertura da TV Globo, Melodia apresentou “Ébano”. Quem disse que o júri entendeu? A música era estranha para os homens das ‘leis’ dos festivais, mesmo sendo cabeças brilhantes da produção musical, eles não compreenderam “o novo peregrino sábio dos enganos” e ele foi desclassificado.adriana-1985-claro

Mais um ano e Luiz Melodia estreava música em novela da TV Globo, receita certa de sucesso. “Juventude transviada” desfilava pelas trilhas de Pecado capital. Peço licença para citar o que eu acho um dos versos mais bonitos e significativos da MPB e que está nessa música: “Eu entendo a juventude transviada e o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Mas do álbum “Maravilhas Contemporâneas” vale a reflexão proposta por “Congênito”, que trata de tanta coisa atual que parece acabou de ser feita: “Se a gente falasse menos / Talvez compreendesse mais / Teatro, boate, cinema / Qualquer prazer não satisfaz / Palavra figura de espanto / Quanto na terra tento descansar / Mas o tudo que se tem / Não representa nada / Tá na cara que o jovem tem seu automóvel”. adriana-1995-reliquias

Para fechar a década de 1970, esse lugar no tempo em que todas as liberdades gritavam para acontecer, e várias delas aconteciam mesmo sem poder, e já lá no finalzinho, quando se avistava os 1980 chegando foi lançado “Mico de Circo” e nele, a voz potente de Melodia contou ao Brasil que também era samba, gravou Zé Kéti, “A Voz do Morro”. E outra que tem no meu elenco de versos perfeitos “o corpo é natural da cama”, “Presente Cotidiano”: “Mas tudo gira, ai de mim / A bola e o pião / Menina em meu coração / Tá tudo solta na feira, nobre lugar / Tá tão ruim, tá tão ruim / Quem vai querer comprar banana”, foi composta e gravada para Gal Costa cinco anos antes. E para provar que o poeta inteligente pode sim trocar de ideia e o que antes era verdade agora se firma como bobagem, ele contradiz a sua “Estácio, holy, Estácio” em que afirmava “se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Estácio…” e canta “Tá tudo solto por aí / Tá tudo assim, tá tudo assim / Quem quer morrer de amor se engana / Momentos sãs, momentos drama”.adriana-2000-retrato-do-artista

Em 1980, veio o LP “Nós” e com ele “Mistério da raça”, um jogo de palavras que empilhadas em prosa nada diriam, mas que com o apoio da música e as divisões possíveis do recurso voz e melodia dão um recado muito pessoal sobre as vivências e andanças desse negro do morro que caminhava por todos os lugares e revelava traços não só de suas particularidades mas o estereótipo de um tipo que a sociedade vê e não entende, porque quem não pisa na terra, não sente o chão: “Vim de lá, vim da praça mistério da raça / Cachaça pra se beber / Qualquer um, no enredo da graça / Nos somos cachaça pra se beber / Lá do sul, eu frequento Ipanema / Sistema, cachaça pra se beber / No sonho dos meus sonhos / Quando eu sonho o mundo está pra se acabar / No fato, no relato, quando eu faço / O mundo está pra se acabar”.

Em 1983 foi a vez de “Felino” e os encantamentos de “Divina Criatura”, música coberta de malícia e propostas, com um tom de saudosismo de uma época em que tudo era possível sem grandes responsabilidades: “Eu quero ver a chuva bonita / Seu corpo molhar / Como o verão que sustenta / Meu banho de mar / Tomo uma dose que lembra verão de menino / Coisa tão forte que soe / Igual som de um sino / Me dá, me dá um beijo / Que é a coisa mais forte / Que posso pedir”.adriana-2014-zerima

Porque o espaço da coluna passa mais rápido que tudo que pode ser dito de Luiz Melodia, troco de marcha e avanço no tempo: em 1985 lançou “Claro”; em 1989 veio “Pintando o sete”, está nesse disco a “Cara a cara”, aquela que fala ainda escandalizando os conservadores de última época: “Cara, cara / Quando vejo você / De calcinha preta / Você me deixa louco / Você me deixa de careta”, mas a grande sensação das rádios daquele ano foi a partir de sua verve de intérprete, cantou, de Cazuza, Ezequiel Neves e Reinaldo Arias, “Codinome beija-flor”, que dois anos depois foi para trilha sonora da novela “O dono do mundo”.

Em 1995, Luiz Melodia era pra lá de conhecido e respeitado. Época que lançou “Relíquias”, que como o nome explica, fez um passeio por seus grandes sucessos. Dois anos depois, foi a vez de “14 quilates”. Fechou a década com álbum acústico gravado ao vivo no Teatro Rival, show que se multiplicou pelo Brasil.adriana-2007-estacao-melodia

Os anos 2000 começaram com o delicioso “Retrato do artista quando coisa”, verso de livro de Manuel de Barros, que usou no título e aproveitou inspiração na música com mesmo nome. O CD revelou um artista preocupado com os arremates das gravações. Caprichou – arranjos sofisticados de sopros e cordas na maioria das faixas.

Em 2002 com a febre de DVD no mercado fonográfico, lançou “Luiz Melodia convida”, subiram ao palco do Polo Cine Vídeo, no Rio, Zeca Pagodinho, Zezé Motta, o filho Mahal, Elza Soares, Luciana Mello e o Coro da Escola de Música da Rocinha.

Maravilha!

“Estação Melodia”, é de 2007, um disco de intérprete e ele se esbaldou em grandes sambas, de Cartola a Ismael Silva, de Jamelão ao pai, Oswaldo Melodia, de Geraldo Pereira a Wilson Batista: as raízes do samba que sempre o acompanharam e deram-lhe asas para seus voos mais altos. Luiz Melodia era bamba e durante os anos de carreira vinha mostrando isso, mas com este disco, não sobrou dúvida para ninguém. adriana-2008-mtv

Neste mesmo ano, a cantora e cineasta Karla Sabah finalizou o documentário “Luiz Melodia – Vida e obra”, que além de cenas com registros de shows, gravações, entrevistas, teve depoimentos de Cássia Eller, Wally Salomão, Sérgio Bernardes e Gal Costa.

2008, novo DVD. Entrou na onda do “MTV ao Vivo”, com repertório de compositor e de intérprete. E, pouco tempo, na jogada de marketing de gravadora e para o deleite de fãs, foi lançado “Três tons de Luiz Melodia”, um box com três álbuns de três décadas diferentes: “Pérola negra”, “Felino”, e “Pintando o sete”.adriana-2013-tres-tons

Um ano depois já estava saracoteando com disco novo, o “Zerima”, o 14º solo, disco de família, que teve a participação do filho, composição da mulher, música dedicada ao neto.

O Prêmio Música Popular Brasileira, categoria “MPB – Melhor cantor” de 2015 foi dele.

E foi dele uma das mais belas vozes que já nos sussurram e gritaram as belezas populares. E foi dele também o retrato de alguns aspectos do Rio de Janeiro. E a incrível criatividade de compositor que não permite nenhum tipo específico de nome. E a transgressão que corria em sua indisciplinar originalidade. E a doçura do sorriso e a elegância dos gestos. Foi dele um jeito diferente de olhar o mundo e de apresentá-lo a todos nós. Um artista, que já consagrado, num show em teatro lotado e com som difícil, sem poder recorrer a acertos de instrumentos, pediu para que os companheiros de banda parassem de tocar e anunciou “não há condições de cantar assim, não consigo ouvir os instrumentos, vou cantar à capela, desculpem” e tascou aquele vozeirão rouco, metálico, inconfundível, música após música. Eu vi, ainda bem!

Por tudo, Melodia, muito obrigada!

adriana-2

Leia mais

Deixe uma resposta