Palhaço das perdidas ilusões

fabio

Hoje, 70 anos. A vida nem sempre foi um palco iluminado. Houve a escuridão da ditadura, a tortura, as frustrações, o desamor. Mas não devo me queixar. Detesto autocomiseração. Minha vida não foi monótona e devo reconhecer, vaidade às favas, que cheguei a cantar entre as palmas febris dos corações. Desde a infância este verso da música me encanta e, enfim, encontrei a oportunidade de usá-lo.

Não me julguem em fim de linha. A minha obsessão com a morte às vezes causa enorme confusão. Sigo firme. Atento e forte. Mas com muito medo de entender a morte. Mudei muito. E não mudei nada. O mundo é que mudou demais. Tenho de me virar para não ficar anacrônico. Procuro a interlocução com os jovens para perceber o admirável mundo novo que se abriu com todas as inovações tecnológicas. Mas tenho cá minhas resistências. Às vezes percebo que estou mais perto de meu avô que de meus filhos, culturalmente falando.

A vida não foi avara comigo. Deu-me afetos, deu-me filhos, Rubens e Izabel, um neto, Antonio. Sou tão ligado a eles emocionalmente que é melhor não começar a falar de suas qualidades. Extravaso e os constranjo. Ainda mais agora, que estão todos longe.

Sou um poço de contradições. Preciso de solidão. Sou um conversador que ama o silêncio. Meus amigos não entendem minhas desaparições. Me fazem falta os mais chegados que se foram. Eu os invoco na memória, na leitura, mas gostaria da conversa da madrugada, aquela que só desenrola na madrugada.

Dos amigos contemporâneos, quase todo mundo morreu. Sou um sobrevivente. E quando encontro outro de minha época que ainda respira, não nos queixamos de dores e que tais. Maldizemos os escombros de valores mortos. Dói. Tenho saudade da luta, da ação, do protesto, mas isso de quando ansiávamos por liberdade. Hoje, os déspotas apedeutas são alçados à condição de heróis. O debate foi pasteurizado na academia. E a logorréia do politicamente correto escorre da internet.

É claro que de minha meninez aos dias de hoje houve melhorias fantásticas. As que mais me espantam são as da Medicina, que reduzem as dores e prolongam a vida. Adoro tomar remédios. Nenhuma tolerância para a dor. Eu, que tenho artrite reumatoide, tenho grande consideração e confiança pela morfina. Houve mais. A tolerância aumentou. Não só em relação a ideias, mas a gêneros e comportamentos. Surgiu uma sociedade mais rica e mais próspera. Alcançamos o conforto que a sociedade industrial proporciona.

Mas vamos com calma nessa digressão de aniversário. Nem tudo são flores neste Vale de Lágrimas. Aos ganhos materiais e de liberdade não correspondeu uma sabedoria mais alta nem uma cultura mais profunda. Eu penso que levei azar em pegar os anos do regime fardado e suas consequências. Mas tenho de considerar a sorte de ter vivido os anos de nossa pequena renascença. O cinema novo, a bossa nova, o teatro, aquela inteligência toda concentrada em produzir arte ainda hoje insuperada. Não havia a parafernália digital, sem a qual as pessoas hoje não vivem. Mas a vida produzia arte, poesia e falava cara a cara.

Eu acredito que houve uma diminuição da tensão vital. Vivemos mais anos, mas são anos ocos, vazios. O espetáculo espiritual é desolador. Renascimento das seitas religiosas, das superstições, a degradação do erotismo, o prazer a serviço do comércio, a liberdade convertida em alcagueta dos meios de comunicação. As minorias fanáticas. E no mundo o terrorismo.

Quanto ao meu projeto pessoal, digamos que não se realizou exatamente como eu esperava. Desde muito cedo me pensei escritor. E acabei escrevendo para viver. Aos 17 anos um amigo me conseguiu um emprego num jornal. Era início de 1965, o jornal era Folha do Estado e apoiava Bento Munhoz da Rocha Neto para o governo. Recebi instruções, menti que já tinha 18 anos e fui em frente. Bento perdeu a eleição e o jornal fechou. Desde então trabalhei em todos os jornais, em TVs, em cinejornais, em revistas e tudo mais que possa receber um texto em troca de um salário.

Só saí do jornalismo quando a militância política me levou. Ao mesmo tempo fiz de tudo. Iniciei cinco cursos universitários, mal e mal terminei um. Fiz teatro amador. Tentei fazer cinema. Fui cinegrafista de cinejornal. Desapareci. Entrei na militância pesada. Acreditei que só a luta armada devolveria a liberdade. Fui preso. Muitas vezes. Em 1964, aos 16, a primeira. Em 1969/70, a última, esta pesada, com passagens inenarráveis, ilha das flores, cenimar, cacete, choque elétrico, pau-de-arara, meses de desespero.

Voltei. E só poderia voltar ao que sabia fazer. Escrever. Em jornais, para agências de propaganda, discursos para políticos. Me reinventei. Passei a fazer jornalismo político com um forte viés de oposição ao regime fardado. Naturalmente desembarquei nas campanhas de oposição. Vencemos. Virei secretário de Estado por três vezes, uma vez do município de Curitiba. Fui fazer campanhas no exterior. Dei consultoria para dois presidentes. Essa vida me roubou muito tempo de escrever.

Voltei novamente. E aqui estou. A escrever e a ler. Ler, a outra obsessão. Ler, ler, ler. Hoje, menos. Mas não passo sem a minha ração de leitura. Continuo na vida e no mercado. Jornalista, crítico, novelista, até poeta. Não me levo a sério. Conheço as imposturas de literatos antigos e jovens. São iguais quando o caráter não ajuda. Tenho um grande desprezo pelas glórias e pelas armações infames. Mas minto se disser que não me sobe uma ponta de vaidade quando encontro uma crítica simpática.

Não queria escrever isto com esse toque de jeremiada, mas acaba sendo inevitável. Tanta gente, tanta coisa, tanto tempo. Não vale a pena chorar sobre o que passou. E já nem sei o que é este texto, que seria mínimo, minúsculo, e me escapou dessa forma, traindo minhas intenções.

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