Editorial. Ed. 192

Ao assumir a Procuradoria-Geral da República, Raquel Dodge declarou que o brasileiro “não tolera corrupção”. Frase de efeito, muito repetida desde a Primeira República. Eu me pergunto: por que então o brasileiro elege pessoas sabidamente corruptas? Por que usa regra teoricamente bem-intencionada para ser desonesto?

Por dever de ofício leio pesquisas de opinião. Inclusive as qualitativas. Todas, sem exceção, apontam “honestidade” como qualidade imprescindível para quem quer governar. É unanimidade. Mas elege o candidato que esteve preso por desviar dinheiro público ou que é processado por usar a máquina do Estado em benefício próprio.

Um jornal local, que já não existe, na época apoiado pela rede de tevê com maior audiência no Paraná, fez intensa campanha contra deputados estaduais que estariam envolvidos no escandaloso caso dos “Diários Secretos” da Assembleia Legislativa. Esses deputados foram escrachados sem piedade em todas as edições durante meses. Os marqueteiros, luas-pretas e curiosos da política apostavam que eles não se reelegeriam. Erraram. Todos se reelegeram e um deles na condição de mais votado.
No Brasil, os políticos se encarregam de transformar a política em algo criminoso, basta fazer um rápido levantamento para saber que 70% do Congresso, para não falar nas câmaras estaduais e de vereadores, se não mais, estão envolvidos, de alguma forma, em algo desonesto.

O ministro Luís Roberto Barroso, do STF, diz que “a corrupção no Brasil não foi fruto de falhas individuais”. Em sua avaliação, “a corrupção foi sistêmica e endêmica, um fenômeno que irradiou de maneira muito abrangente, que envolveu iniciativa privada, classe política e burocracia estatal”.

Para o ministro, a reforma política precisa estar na ordem do dia na agenda pública do país. Lúcido, diz que não se pode mover o país com exacerbação de penas judiciais, mas reconheceu que, ao lado da impunidade, o sistema político brasileiro é o principal motor da corrupção no país. “Se nós não mudarmos o sistema político, não nos livraremos da corrupção associada ao sistema eleitoral. Tem que parar de pensar o País apenas em função da próxima eleição”, alertou.

Barroso destacou três conquistas da sociedade brasileira nos últimos 30 anos – estabilidade política, controle da hiperinflação e inclusão social. “Mais de 30 milhões de pessoas deixaram a linha de pobreza. Avançamos na escolarização e na expectativa de vida.” Ele observou que a nova era no país precisa ser marcada pela valorização da iniciativa privada e do empreendedorismo sem os resquícios paternalistas que marcaram a relação do mercado, em geral, com o governo nas últimas décadas.

“As pessoas não gostam de riscos e preferem reservas de mercado e financiamentos públicos”, disse ele, que define esse contexto como um “capitalismo de laços”, no qual o acesso ao governo acaba sendo mais relevante que o acesso ao mercado competitivo. “É preciso um choque de iniciativa privada e empreendedorismo no Brasil”, sugere.
Barroso foi enfático ao cravar que um juiz deve ter distanciamento da política. “Até porque não existe corrupção de esquerda nem corrupção de direita, nem corrupção dos que eu gosto, nem corrupção dos que eu não gosto.”
“Não falo de política”, seguiu Luís Barroso. “Mas é meu papel constitucional proteger as instituições e procurar aprimorá-las. Portanto, eu dedico um tempo relevante da minha vida a pensar as instituições, a participar do debate de ideias acerca de como aprimorar as instituições.”

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