Dialogar é preciso

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Começo por equacionar, de modo heterodoxo, um parêntese com uma afirmação singela, até certo ponto acaciana: o Brasil está vivendo, no território da contemporaneidade, uma crise sem precedentes. Uma crise que, à maneira da pretérita política geiseliana, é ampla, geral e irrestrita. Ela semelha, em termos metafóricos, um polvo gigante, cujos três tentáculos preponderantes são sem dúvida a Política, a Economia e a Ética. E eu utilizo as maiúsculas para melhor enfatizar a sua importância.

Ouso afirmar, hic et nunc, que nessa triplicidade notória a política é por certo a mais significativa. Até porque o homem, o cidadão, é por excelência um animal político. Embora eu tenha que admitir a contragosto, que, no caso, o substantivo parece às vezes exorcismar o adjetivo…

Seja como for, a verdade é que a crise pede, demanda, exige, para a sua superação, ou, pelo menos, para que se abrandem ou minimizem os seus efeitos deletérios, diálogo. Muito diálogo entre os três atores principais que, depois da Sociedade, contracenam num vasto proscênio político. E que são, depois da própria Sociedade e, consequentemente, do cidadão, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, esse tripé da Democracia sonhada por Montesquieu.

Sim, hoje, mais do que nunca, o diálogo é uma necessidade, para não dizer exigência, transcendente e vital. No entanto, talvez nem todos possuam uma visão crítica segura e uma compreensão clara do que vem a ser realmente o diálogo, na mais perfeita acepção que o termo traduz e consubstancia.

O diálogo não é, nem se limita a ser, como à primeira vista parece, uma simples conversa, uma troca de ideias entre interlocutores individuais ou grupais. É isso, também, até certo ponto. Mas é certamente mais do que isso. Não apenas em termos de grau e qualidade, mas sobretudo de intensidade.
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É de François Perroux a mais eloquente definição de diálogo que conheço. Em Dialectiques et Socializacion, o conhecido economista francês escreve: “O diálogo é uma busca em comum, por comunicações contraditórias, de uma proposição julgada verdadeira ou de uma solução considerada justa por dois interlocutores que aceitam critérios compatíveis com a verdade e a justiça”. Dessa definição lapidar resultam consequências derivadas da experiência do diálogo e da reflexão profunda acerca dessa experiência vital. Ponte pênsil que busca ligar, aproximar, o diálogo exclui a violência, na comunicação entre os dialogantes. Pois a verdade é que dois homens que se agridem mutuamente não dialogam: o diálogo dos punhos tem outro nome. E note-se que a violência não se limita, pura e simplesmente, ao plano físico: no plano verbal, vocabular, ela já prejudica – quando não extingue – o próprio diálogo. Este exige serenidade equilíbrio, moderação. Sem que essas exigências prévias prescindam da concomitante existência da firmeza e da segurança.

O diálogo – interpessoal ou intergrupal – começa, desenvolve-se e aprofunda-se – ou cessa – num contexto social organizado. Está enquadrado numa forma específica de troca de pontos de vista entre os grupos sociais aos quais os interlocutores pertencem e dos quais nunca poderão emancipar-se por completo.

Como é natural, o diálogo não implica, de modo algum, o empobrecimento, a diminuição, a deterioração da personalidade das pessoas que dele participam. A informação, a ideia, não se perdem para aquele que as revela: a cada instante se modificam e enriquecem. O saber e o estilo do conhecimento dos participantes do diálogo – seja ele político ou econômico, estético ou religioso, não importa – comprometem-se irremediavelmente num processo dinâmico irreversível. Os seus parâmetros referenciais onipresentes são, como já dissemos, a verdade e a justiça. Sem a presença subjacente dessas duas realidades poderosas, ainda que abstratas, subjetivas, o diálogo perde o sentido. Mais do que isso: perde a própria autenticidade intrínseca. Entra em colapso. Desmorona, como um castelo de cartas.

No verdadeiro diálogo – não no diálogo de surdos, que não passa de dois monólogos concomitantes – os interlocutores devem estar animados de uma plena disponibilidade mental para ouvir e para procurar compreender os argumentos da parte contrária. Nada mais antidialógico do que a inflexibilidade, a intransigência, a autossuficiência.

Intercâmbio, interpretação, osmose de ideias, o diálogo é necessariamente uma avenida de mão dupla. O trânsito, nos dois sentidos, deve fluir com facilidade: nela não podem existir encruzilhadas perigosas nem semáforos inibidores. O diálogo é basicamente veiculado pelo verbo, pela palavra. E esta não se limita a vestir o pensamento. Deve, mais do que isso, vivificá-lo e iluminá-lo. Quando não o transfigura. O diálogo, nunca será demais insistir nesse ponto, tem sempre dois alvos precípuos a atingir: a verdade e a justiça. E não são outros, afinal, os alicerces, os sustentáculos do edifício do bem comum, aspiração maior da sociedade organizada.

O diálogo é inerente, consubstancial ao regime democrático. Da mesma forma que o monólogo – o “eu quero, eu posso, eu faço” – é típico dos regimes totalitários, ditatoriais.

Concluindo: se a fecunda experiência da liberdade autêntica (que não se confunde jamais com as suas distorções demoníacas, a anarquia e a libertinagem) é condição sine qua non para o pleno acesso à dignidade humana, não há dúvida que o diálogo é uma das vias através das quais ela se realiza e cumpre.

Por tudo isso, parafraseando Fernando Pessoa, dialogar é preciso. Continuemos, pois, dialogando. Nunc et semper.

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