Nosso modernista bissexto

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De repente um poeta paranaense de Ponta Grossa, presente na primeira dentição da “Revista de Antropofagia” e falando a língua da gramatiquinha de Mário de Andrade.

Em meio ao tom tropical, um sabor de Brasil diferente, o da diversidade, na revista de Alcântara Machado e Raul Bopp.

Os paulistas podiam até pensar que o jovem poeta vinha das estepes russas, de uma terra indefinida, mas que também falava uma língua “sem gramática, Graças a Deus!” como dirá o poeta Dr. Brasil.

E chegava sem língua rococó, sem barroco, assimilando gentes para torná-las brasileiras. Vinha da Araucarilândia, terra de um Brasil infante, de in fans, que não fala, mas que queria falar daqueles “campos tristes como as estepes da Rússia” e no qual os polacos faziam berganhas de porco, plantavam mandioca e cantavam em castelhano.

Brasil Pinheiro Machado (Ponta Grossa 12.12.1907 – Curitiba 18.10.1997) foi um poeta bissexto. E, especialmente, modernista de um modernismo que não tivemos.
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Chegou a ser companheiro de Mário de Andrade, nos tempos de estudante de Direito no Largo de S. Francisco, com quem fazia comícios, conforme me contou, nas carrocerias dos caminhões para fugir com mais facilidade da polícia, conforme deixou escapar em nossas conversas.

Surgiu como “menino que tinha muito a dizer”, conforme Augusto Frederico Schmidt, na apresentação de seus “4 Poemas”.

Intelectual a merecer estudos, poeta que escondia seus textos e que na habitual timidez gigantesca, por um acaso, empresta-me seu “4 Poemas”.

Sua seriedade intelectual e erudição talvez expliquem o político de carreira fugaz, este sim mais bissexto do que o poeta.
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Contou-me Temístocles Linhares que em 20 de setembro de 1946 viajou para o Rio de Janeiro na companhia de Brasil Pinheiro Machado. Conversaram sobre livros e literatura, em especial. No dia seguinte, o crítico, como os demais paranaenses foram surpreendidos com o motivo que levara o Dr. Brasil para a Capital da República. Renunciara ao cargo de Interventor do Paraná, que ocupou de 25 de fevereiro a 21 de setembro de 1946. Intelectual sem malícia, desafeito às pressões fisiológicas e as intrigas palacianas, optou pela condição de professor.

Nesse mesmo ano torna-se colaborador da revista Joaquim de Dalton Trevisan, na qual assina a coluna Lição Berlitz para romance. É o homem de letras e o professor repondo a importância de ler Proust e Joyce, ainda não traduzidos para o Brasil.

Era a contribuição do erudito professor à revista dos jovens dos “20 anos na ilha”. Jovens que sempre gostou de ter a sua volta como professor de história que foi e como pesquisador de nossa história que nunca deixou de questionar.
Era o Brasil Diferente na poesia, antes de qualquer teoria.

Segue a reprodução de 2 poemas publicados na Revista Antropofagia.

BRASIL

A tarde é uma rede vermelha e mole
E os nervos da gente esticados como cordas de violão
Vibram no fluído de volúpia que a garoa devagarzinho
Das bandas meio escuras de onde o sol nasce…
Uma mariposa começa a enlouquecer
(de quem será que eu tenho tanta sodade).
Chorar… Ser homem! Não, homem não chora, não!
…a jabuticabeira se estorce
Ainda não arranjou posição para dormir.
(A vida)
Aquele mato deve estar cheio de lobisôme…
De repente o primeiro apito da coruja!
Silêncio
Mistério;
Os fantasmas vestidos de suar dançam…
Nossa Senhora, que medo!

Paraná

Revista Antropofagia n. 2 de 4 de junho, 1928.

PAISAGEM DE MINHA TERRA

Manhã de domingo de sol reto.
A grande igreja sem estilo
Decorada por dentro por um batismo de Cristo
Feito por um pintor ingênuo
Que quis ser clássico e foi primitivista

Missa internacional
Com gentes de todas as raças
Ouvindo o padre alemão rezar em latim.

A gente nem tem vontade de olhar o crucifixo desolado
Nem de rezar
Porque lá dentro tem tanta gente bonita
Que não reza também
E fica sapeando a gente com meiguice…

Só os polacos de camisa nova por ser domingo
Que vieram com as famílias de carroças lá das colônias
Rezam fervorosamente
Enquanto nos seus quintais
Os chopins malvados e alegres
Comem todo o centeio
Cantando glórias pro sol de domingo.

Revista Antropofagia n. 7 de 6 de novembro, 1928

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