Rebouças: uma luz no fim do túnel

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Glauber Rocha que me desculpe, mas gênios da raça foram os Rebouças e não o general Golbery Couto e Silva, que desconfio ter sido um homem medíocre, daqueles de José Ingenieros, aliás, tão saudavelmente esquecido.
A verdade é que os irmãos Rebouças – André e Antonio – do Paraná não levaram boas lembranças. Viveram a mais inglória das lutas que se pode travar neste País – a contra a burrice nacional. Tristes protagonistas da crônica de uma derrota anunciada. Uma desilusão empresarial no Paraná provocaria de André o melancólico desabafo:

– Ah! Deus de misericórdia! Neste País não se lê, não se estuda e não se aprende. Nem a experiência, a única mestra dos insensatos, pode nos dar lições nesta infeliz terra.

Quase cem anos depois e trinta antes do horário eleitoral gratuito, Eugênio Gudin referendava a mesma opinião, sentenciando com crueza e crueldade que brasileiro quando dá pra ser burro não há quem lhe tire a palma (pontos para Fábio Campana, cujo ceticismo paradoxalmente é um trinfo da razão).

Muito da genialidade dos negros Rebouças vinha da educação tedesca e pombalina. Explica-se. Baianos – o pai, deputado provincial, fugira dos rescaldos da sabinada – emigrados para o Rio de Janeiro e daí, em 1849, para estudar em Petrópolis no Colégio Köpke. Vale uma pausa: pedagogia revolucionária, as palavras aprendidas sem soletrar-se. Ignorava-se o alfabeto. Colégio arielesco, tinha o gosto da largueza e da espontaneidade. A gramática normativa proibida. Gramática não se ensina, aprende-se. Sua regra de ouro: mais imaginação que memória. Pedagogia que formou boa parte da elite brasileira, inclusive o Dr. Alceu Amoroso Lima. É no Köpke que se conhecem os Rebouças e o Imperador D. Pedro II, amigos até o final.
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André e Antonio ingressam no curso de engenharia na Escola Militar, denominada posteriormente Escola Central, que nucleava o seu ensino nas ciências ditas experimentais, físicas e naturais, com forte apoio da matemática. Era possível vislumbrar nelas fortes traços do Marquês de Pombal.

O estado português transplantado para o Brasil de 1808, dispunha de uma geração de doutores formados pela universidade pombalina. Pombal concebe uma ciência de governo e estabelece nove princípios, com destaque para três: constituição de uma burocracia qualificada, domínio das técnicas em fabricação industrial e assegurar o estado de riqueza da nação. Fazer e igualmente fruir era filosofia pombalina. A ideia era formar uma geração que acreditasse na legitimidade da riqueza, o que equivalia à adoção de princípios da Reforma, que tão tenuamente chegou ao Brasil.

O desespero do Marquês de Pombal era apressar a incorporação do Iluminismo ao reino português. Para isso, valeu-se de um modelo acelerador, o autoritário-modernizante. Enquanto a Europa e mesmo os Estados Unidos faziam investimos produtivos, Portugal, com o ouro e diamantes brasileiros, se entulhava de conventos, frades, capelães, cônegos, monsenhores, escribas, tabeliães, desembargadores, e também de indispensáveis rimadores de epitalâmios e de elegias, o insondável sorvedouro das inutilidades públicas, como dizia Herculano. Com o governo pombalino, o português, beato e ensandecido, descobre que havia alguma coisa no mundo mais do que freiras e marmeladas, outeiros e arruaças, piedosa luxúria e visões desvairadas. “Mal por mal, melhor com Pombal”, era o mote da época.

A ciência é competente para promover a riqueza, eis a lição que o Marquês tentou legar aos luso-brasileiros, mas que apenas os militares como grupo social assimilaram com alguma eficácia por um período da nossa história.

Os Rebouças, impregnados por esta crença, foram os demiurgos de nossa raça. Seguem, às expensas do pai, para a Europa, onde aprendem ferrovias, portos, canais, pontes, fundações e saneamento, imaginando uma estreia, ainda que tardia, do Brasil na primeira revolução industrial. Retornam quando ainda vigente a questão Christie e são designados pelo ministro da Guerra para examinar as fortalezas desde Santos até Santa Catarina, fazendo o primeiro contato com o Paraná no forte da Ilha do mel. Após a missão, André e Antonio separam-se pela primeira vez. André engaja-se na guerra do Paraguai e elabora o seu Diário de guerra, que Sergio Buarque de Holanda considera um marco em nossa historiografia. “Esta guerra começada sem plano e feita na maior desordem, só a Divina Providência pode dar bom fim”. Ao mesmo tempo apresentou um memorial a D. Pedro II. Propondo a condução da guerra pela Província do Paraná registrou em seu Diário: “… se devia criar uma província interior, na confluência do rio Iguaçu com o Alto Paraná e que receberia o nome de Província de Guaíra… tal província teria por fim reviver as Missões pela colonização desses ricos sertões… que se estenderia desde o Piratinin até o rio Ivaí ao norte e se comunicaria com a Europa pela estrada estratégica de Nova Strasburg e Antonina e com a América do Sul por todas as águas navegáveis que formam a barra do Prata”.
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Após a guerra envolveu-se em vários empreendimentos portuários do Maranhão ao Rio Grande do Sul, antecipando o projeto dos corredores de exportação. O resultado foi uma legião de inimigos; apoio só da inteligentsia, Mauá, Taunay, Itaboraí e D. Pedro II.

Os sentidos dos Rebouças estavam aguçados para a recepção dos sinais da modernidade. Participam de exposições nacionais e internacionais e se deslumbram com a encenação do maquinismo, com o exibicionismo burguês, vivendo a grande era do espetáculo. André fez a sua segunda viagem à Europa e aos Estados Unidos e mergulhou fundo no milagre da engenhosidade humana, no cosmopolitismo e quer participar da recriação do paraíso. Para ele, a máquina é um instrumento de libertação. Ao visitar os campos de petróleo americanos fez a sua profissão de fé iluminista:
– Nos tempos de Moisés, Deus, para libertar o povo de Israel, fez surgir água das pedras; para libertar os escravos da América Deus fez ainda mais: fez surgir óleo da terra da Pensilvânia! Quando Deus trabalha pela liberdade instrumenta o homem com a razão para produzir estas maravilhas.

Amigo e entusiasta de Carlos Gomes empenha-se para que as óperas Guarani e Fosca sejam apresentadas na exposição internacional de Viena, de 1873, mas o embaixador do Brasil, duque de Saxe, nega-lhe apoio. Seu registro é implacável.

– Ah! A diplomacia brasileira! Sovina, egoísta, parasita e inútil.

Visitou Niagara Falls, Yellow Stone e imaginou, pioneiramente, a criação do Parque Nacional de Guaíra e sua exploração em formato empresarial.

De volta ao Brasil vai colecionando decepções provocadas pela resistência da elite brasileira à modernidade e ao industrialismo. Anota o seu desalento:

– Como a teocracia, a burocracia tem alguma coisa de fatal, de perpétuo, de inabalável; se funda na preguiça, no parasitismo e na inércia.

André Rebouças foi o ídolo de Joaquim Nabuco na “Minha Formação”, que dizia ser André, dos homens nascidos no Brasil, o único universal.
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Mas foi no Paraná que os Rebouças conheceram a grande frustração, mais Antonio que André. Antonio, que já fora nomeado em 1864 engenheiro-chefe da estrada da Graciosa, no início da década de 70 começou os estudos da estrada-de-ferro Curitiba – Mato Grosso, que permitiria a colonização dos “ubérrimos sertões do Paraná, das zonas mais ricas do Império”. A questão estaciona por dois anos e mesmo sem recursos Antonio chega ao rio Ivaí. Lamenta em seu Diário: “os deputados da Província do Paraná negam apoio à obra e o Dr. Correia teve a insensatez de avançar que estando livre a navegação do rio Paraguai havia pouca necessidade de via terrestre para o Mato Grosso”. Mas o projeto avança e consegue atrair a participação do Barão de Mauá, do empresário Thomaz Cockrane, do engenheiro sueco Christian Palm e do inglês William Lloyd. “Que diferença dos outros capitalistas desta nossa pobre terra que querem só os lucros sem os riscos”, diz Rebouças de Mauá.

Em 1871 tem autorização para a exploração da ferrovia de Curitiba a Miranda no Mato Grosso e surge a ideia de ligar o Atlântico ao Pacífico. Para isso chegam 16 técnicos estrangeiros, entre eles Bigg-Whiter que escreveria o imperdível Novo Caminho no Brasil Meridional: a Província do Paraná.

Antonio Rebouças, impressionado com o potencial madeireiro do Paraná, criou, com o conde de Estrela e o Barão de Mauá, a Companhia Florestal Paranaense. Uma inconfidência epistolar do Conde D’Eu informa “que um senador do Paraná atrasa com os seus temores políticos a aprovação da Florestal. Persuade-se que querem os Rebouças ser deputados ou senadores pelo Paraná, coisa que nunca ocorrera”.

Antonio Rebouças morreu em 1874, aos 35 anos, e a concessão da ferrovia foi fulminada. André, em carta a um amigo, diz:

– Taunay lhe contará as minúcias da espoliação que sofri com Antonio de todas as empresas de estrada-de-ferro e de exploração florestal do Paraná… A odisseia do negro André não cabe em 34 episódios porque soma todos os trabalhos de Ulisses e todas as dores do escravo Eumeo. Quanto custou fundar esta fábrica para assim deixá-la sem ter tirado dela senão decepções e desgostos.

Os Rebouças foram nossos sísifos tropicais, condenados ao absurdo e ao eterno recomeço. Antonio morreu cedo e a morte prematura resolveu-lhe o dilema camusiano do destino: aceitar ou revoltar-se; André, que viveu bem mais, preferiu o suicídio físico ao filosófico. Buscou a morte voluntária em Funchal em 1898.

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Coski, como ele assinava a correspondência aos íntimos. Luís Roberto Nogueira Soares. Advogado por formação, Coski foi escritor, professor de Direito, colunista de jornal, deputado, secretário de Cultura, político, ocupação que logo encerrou, por inadaptação. Nasceu em 17 de novembro de 1941 em Porto União. Morreu em Curitiba, em agosto de 2007. Muito jovem, escreveu um ensaio antológico, “O Bacharelismo no Brasil”. Deixou crônicas como esta que publicamos aqui.

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