Tempos difíceis

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Nunca passamos por uma crise tão longa. Nunca a desesperança foi tão profunda. E depois de três anos continuados de recessão e desemprego, não há luz no fim do túnel. Caiu ao rés do chão o otimismo quanto às perspectivas do desenvolvimento brasileiro. Já não somos o país do futuro. Ninguém mais nos respeita como um dos emergentes. Voltamos à condição de republiqueta de corruptos e salafrários, como se vê nas manchetes dos grandes jornais do mundo.

Em todas as faixas sociais há insatisfação. Inclusive onde os governos petistas mais se apoiavam. Foi pelo ralo a crença no que se considerava uma das conquistas mais preciosas deste início de século – a redução expressiva da vergonhosa desigualdade social do país. A afirmação, tão cara às administrações petistas, de que a distância entre ricos e pobres encurtou no período da expansão acelerada da economia e dos programas de assistência social. É preciso esclarecer do que se está falando. Não resta dúvida de que os ganhos de todos os estratos aumentaram nos anos de bonança. Entretanto acreditava-se que a base da pirâmide social, e não o topo, havia se apropriado da maior parte da renda gerada.

Qual o que. Há sinais convincentes de que a fatia dos mais abonados no PIB é muito maior do que se calculava – e, pior, parece ter crescido. Como se pode chegar a conclusões tão discrepantes, opostas mesmo, em tema que tanto mobiliza os mundos acadêmico e político? Apenas parte da resposta está na propaganda obstinada dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, aos quais era vital demonstrar que a esquerda no poder fazia a sempre prometida distribuição da riqueza nacional.

Tempos difíceis. Vamos à realidade nua e crua. Dados do IBGE apontam que o País tem atualmente uma gigantesca massa de 22,7 milhões de pessoas desempregadas, subocupadas ou inativas, mas com potencial para trabalhar. O impressionante total de desempregados no Brasil é maior do que toda população do Chile (17 milhões) e o dobro da população de Portugal (10 milhões).

Paralelamente, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que, dos 144 milhões brasileiros aptos a votar, nada menos que 25 milhões deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno das eleições municipais do ano passado, o que representa 17,58% do total. Na eleição presidencial de 2014, dos 142 milhões de eleitores aptos, 27,6 milhões se abstiveram, 4,4 milhões votaram em branco e 6,6 milhões votaram nulo.

O assustador número de desempregados, aliado ao preocupante número dos eleitores que rejeitam a política nacional, acende o sinal de alerta e aponta para uma população sem horizontes e sem qualquer esperança na possibilidade de um futuro mais promissor.
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CONSEQUÊNCIAS GRAVES
Quais as consequências para um país ter 23 milhões de jovens desempregados, e 25 milhões de eleitores que desprezam a eleição? Quais as consequências para um país ter, entre seus empregados, uma imensa massa de jovens que não ganha o suficiente para sustentar uma família? Ou mesmo um número gigantesco de profissionais, como professores, policiais, bombeiros, que também não conseguem manter suas famílias devido aos baixos salários?

O elevado desemprego e a baixa remuneração dos que trabalham têm consequências trágicas, como a degradação social e o aumento da criminalidade. Além disso, contribuem para desintegração da estrutura familiar, com a proliferação de mães solteiras, da perda dos alicerces e da desorientação para as futuras gerações. Como se não bastasse, o país ainda tem uma gigantesca massa de mão de obra desqualificada, que se vê obrigada a se submeter ao subemprego ou, em muitos casos, ir para a criminalidade, impelida pela falta de oportunidades.

Este quadro desolador fica ainda mais dramático quando se constata que, em um ano, 1,7 milhão de pessoas foram obrigadas a deixar seus planos de saúde, superlotando ainda mais uma saúde pública que já está em colapso. Sociólogos e autoridades que têm responsabilidade no país precisam urgentemente se debruçar sobre o preocupante cenário social que se aproxima. Esse é o verdadeiro quadro da crise, que com certeza trará consequências drásticas.

Como se vê, a realidade costuma ser mais cruel que as interpretações. A retórica petista sobre avanços sociais amparava-se em medições de então que verificaram a evolução do rendimento habitual declarado pelos entrevistados nas pesquisas periódicas, por amostragem, realizadas pelo IBGE. Com base nesse procedimento, aceito em todo o mundo, estimou-se que a participação dos 10% mais ricos na renda total brasileira havia caído de 47,4%, em 2001, para 40,9% em 2014. Mas essa metodologia tende a subestimar os valores recebidos pelos estratos sociais mais elevados – em especial, daqueles que dispõem não apenas dos frutos do trabalho mas também do capital (aluguéis, juros, dividendos). Remunerações do gênero muitas vezes não são informadas aos pesquisadores por razões diferentes, incluindo o mero desconhecimento das cifras precisas.

De mais favorável, pode-se dizer que a distribuição dos rendimentos do trabalho de fato melhorou a partir da década passada. A desigualdade entre os 90% da base da pirâmide baixou por influência dos reajustes do salário mínimo, da expansão do acesso ao ensino e da redução de iniquidades entre homens e mulheres, negros e brancos, campo e cidade. Programas como o Bolsa Família decerto tiveram papel relevante em reduzir a miséria, mas teve efeito minúsculo na divisão total do PIB. Parecemos fadados a uma revisão da história recente de nossas mazelas econômicas e sociais. Com enorme atraso, constatamos que ainda sabemos pouco a respeito da desigualdade que é marca do país desde seus primórdios.
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AS SAÍDAS SÃO FUNESTAS
Boa parte da população não acredita que as eleições possam mudar o Brasil. Antes disso o país precisa de um novo sistema político. Em todas as suas manifestações o povo deu uma demonstração que precisa ser refletida. A cidadania já não tolera o que está aí e isso pode ter reflexos nas eleições do ano que vem. Todas as instituições políticas estão deterioradas e perderam a credibilidade. Os partidos políticos são siglas vazias associadas apenas ao grau de corrupção em que se meteram. Isso favorece uma disputa polarizada entre radicais e protagonizadas por líderes populistas.

Há uma preocupação crescente de que essa polarização favoreça candidatos com discursos extremistas, como Jair Bolsonaro ou o próprio Lula. Esse é o grande medo. E quando a direita e a esquerda estão em disputa polarizada, a extrema direita tende a crescer.

“As eleições de 2018 se apresentam como desafiadoras para todos os espectros políticos, porque todos eles estão fragilizados”, resume a doutora em ciência política, Simone Cuber. E é bom que não se tomem como definitivas algumas conclusões apressadas, como a de que Lula está fora do jogo, desmoralizado pelas acusações de corrupção. Ele está no jogo mais do que ninguém. Mesmo após a quinta ação penal – terceira no âmbito da Lava Jato – em que o ex-presidente Lula se tornou réu, e após uma condenação pelo juiz Sergio Moro, ele mantém uma base de apoio significativa.

Esta condição de Lula ajuda a desenhar um quadro nebuloso em 2018, carregado de extremismos e posicionamentos passionais. “Lula, de fato, está em campanha e essa é uma estratégia política. Ele sabe que está sendo cercado pelo judiciário, como ele mesmo diz, um judiciário que aparentemente não se coloca de maneira imparcial diante das denúncias apresentadas contra ele. E a forma que ele tem de se proteger é fortalecendo a sua figura como candidato a 2018”, diz Simone Cuber.

Para a cientista, se o ex-presidente for condenado em segunda instância – o que o impossibilitaria de concorrer às eleições – e, nesse mesmo panorama, estiver com uma projeção de vitória – como apontam as pesquisas –, o custo político e social dessa decisão judicial será alto. A interpretação inevitável que será feita é a de que estão retirando o Lula da disputa e isso pode ter um impacto muito grande. Militantes e apoiadores de Lula estão mobilizados, dispostos a levar para as ruas o confronto.

Essa circunstância reforça o espírito de luta da militância do PT. “E serve como o estabelecimento de um inimigo externo comum que faz com que o PT se junte no discurso de vitimização do Lula”, comentou o sociólogo e cientista político Paulo Baia, para quem esse embate de “ame ou odeie o PT” favorece a polarização “deixando de fora uma margem enorme da população que está descrente de todos e não vê alternativa na política”.
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A PERSPECTIVA É DESOLADORA
Apesar da multidão, Baia acredita que Lula não conquista novos eleitores. “Ele se consolida no eleitor que já é Lula e não deixa de ser. O eleitor que não quer o petista já o abandonou em 2014 e 2016”, afirmou. Simone Cuber, por sua vez, acredita na capacidade de Lula alcançar novos eleitores. “Nós já vimos o Lula transferindo ibope para a Dilma, ex-ministra dele”, comentou. Mas pondera: “É claro que a força do Lula de hoje é menor do que antes, mas por outro lado, a força dos seus opositores também está enfraquecida, com seus principais nomes envolvidos em escândalos de corrupção”.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha com índices de intenção de voto para o primeiro turno da eleição presidencial de 2018 apontou Lula em primeiro lugar (30%). Ao mesmo tempo, a pesquisa também demonstra uma rejeição de 46% do petista também no primeiro turno. Por isso, nem Simone nem Baia acreditam em uma vitória de Lula. “Ele será bem votado, mas eu não creio na sua competitividade. A polarização favorece o Bolsonaro porque ele tem um nicho eleitoral que está decidido votar nele, mas não acho que disputa o segundo turno”, explicou Baia.

Lula e o PT também sabem disso e preparam o plano B. Caso Lula seja condenado, o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, seria uma opção de candidato do Partido dos Trabalhadores. “Das especulações que ouvi: ou ele, ou Jaques Wagner, ex-governador da Bahia”, disse Paulo Baia. Mas também há José Eduardo Cardozo, ex-ministro de Lula, e também de Dilma, que pode se candidatar.

Tudo bem, como dizem as almas parvas, e uma candidatura de centro não prosperaria nesse quadro? Alguém que venha como novidade, do tipo João Dória. Ou alguém que se ofereça como reserva moral e de capacidade administrativa como Geraldo Alckmin. O problema é que, no quadro de uma disputa polarizada, radicalizada, eles tendem a naufragar.
Tudo é muito incerto enquanto a política nacional estiver pautada pelas investigações e sentenças do Judiciário. A delação premiadíssima dos irmãos Batista, com toda a carga de suspeitas que levantou, teve ao menos um efeito colateral positivo: obrigou o procurador-geral Rodrigo Janot a desengavetar denúncias que lá estavam há quase dois anos. As denúncias contra os quadrilhões do PT e do PMDB misturam fatos antigos com outros recentes. Foi o meio que Janot encontrou de enquadrar o presidente da República, Michel Temer, que a lei exime de prestar contas de atos alheios e anteriores a seu mandato.
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LAMA, MAIS LAMA
E haja lama. O contribuinte, lesado por tudo quanto veio à tona, agradece. O problema é que a extensão faz prever encaminhamento lento e problemático. Por serem amplas demais, e documentadas de menos, as denúncias perdem clareza e objetividade. A defesa dos acusados agradece.

Rodrigo Janot viverá dias difíceis. Arranjou inimigos poderosos em todos os partidos. Mas o modo como o fez, de última hora e sem transparência em suas motivações, não o tornou um herói popular. Muito pelo contrário, o colocou sob suspeição. Não terá, pois, a contrapartida que tem um Sérgio Moro, de compensar a ira dos poderosos com o apoio entusiástico da opinião pública. Inversamente, terá muito o que explicar, para fora e para dentro da PGR. Seu entorno na instituição está todo citado nos áudios de Joesley Batista e Ricardo Saud.
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Ele, que inicialmente defendeu a probidade de Marcelo Miller, terminou por pedir-lhe a prisão. Tal como Lula, alegou que não sabia de nada, embora, por força do cargo que ocupava, devesse sabê-lo. É a teoria do domínio do fato, que a PGR sustentou, com êxito, no Mensalão contra José Dirceu, levando-o à condenação. O fato concreto é que, se o país já estava quase órfão de referências institucionais, agora ficou sem nenhuma. Os três Poderes estão, para dizer o mínimo, chamuscados com o que se extraiu das fitas de Joesley e Saud. E há mais, muito mais por vir, em áudios ainda não decodificados, em posse do STF.

Disso resultam urgências políticas, decorrentes da anomalia de um presidente da República, acusado de comandar uma quadrilha, continuar no cargo, em contraste com o rito judicial, lento, complexo e pouco confiável, incumbido de selar-lhe o destino. O PT, que está em situação bem pior, já que sua quadrilha ficou com a parte do leão na rapina ao Estado, não hesita em insistir no “Fora, Temer!”. Pretende levá-lo com mais força às ruas, acreditando que até os antipetistas serão sensíveis ao apelo.

O certo é que setembro terminou com extensa lista de ações da Justiça: o depoimento desastroso de Lula a Sérgio Moro; o agravamento da pena de José Dirceu e João Vaccari, no TRF 4 (para 40 anos), pendente ainda do voto de minerva; a rejeição unânime pelo STF da tentativa de Temer de colocar Janot sob suspeição; a prisão de Wesley Batista; a prisão do ex-governador Garotinho; a evidência de que Marcelo Miller era agente duplo (participava, inclusive, de um grupo no WhatsAPP com o pessoal da JBS para tratar da delação junto à PGR). E a busca e apreensão no apartamento funcional do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, acusado também de corrupção.

Diante do cenário, é absolutamente inviável especular sobre as eleições de 2018. Falta um ano – e até lá não se sabe quais serão os atores dessa peça de horrores a que o país assiste. Não se sabe sequer que partidos haverá – ou mesmo se haverá eleições.

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