Apenas um ciclo, não uma era

mazza

Em termos civilizatórios, a ocorrência do segundo depoimento de Lula ao juiz Sergio Moro mostrou avanços: era, afinal, um ato judicial de rotina dentre os mais de nove em que o ex-presidente está incurso. Dá para concluir que se trata apenas de um ciclo, incomum na vida brasileira por alcançar milionários em cana como os irmãos Batista, donos da maior empresa produtora de proteína animal do mundo, e ex-presidentes e também do atual sob cerco do Ministério Público Federal e Polícia Federal e também do Poder Judiciário.

Digamos, em cautela, que se trata de ciclo e não de uma era pela circunstância do vivido na Itália nos “Mãos Limpas” com a permanência do pior dos populismos depois de tanta esperança de que a corrupção estaria com seus dias contados, o que não aconteceu. Aliás os sinais de vitória política na negativa do parlamento ao processo contra Michel Temer, que tem tudo para reprisar-se, por mais agudas que sejam as acusações, é consequência do enquadramento de toda fauna nas malhas da Lava Jato. Basta lembrar que só na delação da JBS há citação de mais de 1.800 políticos, razão pela qual o atual presidente surge como o Sassá Mutema da classe política, seu genuíno salvador, a boia restauradora no oceano de lama e aí, por paradoxal que pareça, atendendo tanto o grupo majoritário, como a oposição lulista, todos desejando o fim do fluxo judicial que tanto os atormenta.

Inimaginável em padrões comportamentais brasileiros o que está acontecendo, razão pela qual o apelo do senador Romero Jucá para estancar a sangria é mais do que uma palavra de ordem e objetivo de uma cruzada que se vale do eufemismo de que se bate veementemente contra a criminalização da política sem a qual inexiste democracia.

O pior é que isso se dá num momento de declínio da Lava Jato com as inconsequências das concessões indevidas aos delatores da JBS e que no momento há um esforço no sentido da recuperação do tempo perdido por parte da Procuradoria Geral da República. O país melhorou e isso é visível no processamento dos ex-presidentes Lula e Dilma e também do atual, Michel Temer, acusado como cabeça do quadrilhão do PMDB, quase a remontagem do diagrama de Dallagnol em cima da maior liderança da esquerda brasileira, de cuja equipe, como acentuou Bernardo de Melo Franco, a metade (Cunha, Geddel, Rocha Loures) está em cana e a outra parte no Palácio presidencial.

Não será fácil “melar” a Lava Jato, até pelas contradições em que o processo implicaria com denúncias e investigações em andamento sob comando de tribunais superiores, mas o ciclo punitivo terá continuidade, ainda que nada assegure que atingirá todos os seus objetivos. O lado mais denso desse momento de engajamento criará condições para uma revisão dos nossos padrões políticos e civilizatórios. Essa pelo menos a esperança, já que nunca será tida como impossível a volta das propinas no consórcio público-privado.

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