As novelas e a MPB

adriana

Na literatura o gênero “novela” desfila na corda que se estica entre o conto e o romance. Para que o juízo de identificá-lo não descambe nem para um lado nem para outro, é preciso estar atento a algumas características. Explicá-las demandaria o espaço da coluna.

É mais fácil falar das telenovelas, que não precisam de nenhum tipo de esclarecimento, porque fazem parte da nossa construção cultural e dominam a paisagem do mundo quando o assunto é citado.

Então, nesta edição, as músicas que pularam das telas para o rádio. E elas são muitas.

Foi em 1969, com “Véu de Noiva”, que a trilha sonora entrou como uma seleção especialmente pensada para uma trama. A novela foi escrita por Janete Clair e dirigida por Daniel Filho; era a oitava produção “das 8h” da Globo.

O disco foi o primeiro do gênero “trilha de novela”, o produtor, Nelson Motta. Entre outras maravilhas, trazia o violão de Baden Powell, bateria de Wilson das Neves e até o piano de Luiz Eça. Compositores como Roberto Menescal, César Camargo Mariano, Marcos Valle, Dori Caymmi. E cantores do quilate de Elis Regina e Caetano Veloso. Não tem faixa perdida.

É deste LP o sucesso, que até os dias de hoje nos ronda, “Teletema”: Rumo / Estrada turva / Sou despedida / Por entre / Lenços brancos / De partida / Em cada curva / Sem ter você / Vou mais só – a música é da dupla Antônio Adolfo e Tibério Gaspar e aparece no disco em três versões.

1973, primeira telenovela em cores da televisão brasileira e primeira a ser exportada, “O Bem Amado” criticava com humor o Brasil da ditadura militar. A assinatura era de Dias Gomes e temas importantes da MPB estavam ali, onze músicas, todas compostas por Toquinho e Vinicius de Moraes, todas especialmente para a trama. Entre elas estão “Paiol de Pólvora”: Estamos trancados no paiol de pólvora / Paralisados no paiol de pólvora / Olhos vedados no paiol de pólvora / Dentes cerrados no paiol de pólvora – música que serviu para inaugurar nosso Teatro do Paiol e que era a escolhida para a abertura, mas que, por conta da tesoura da censura acabou ficando para embalar capítulos; “Meu Pai Oxalá”: Atotô Baluaê, atotô babá / Atotô Baluaê, atotô babá / Vem das águas, de Oxalá / Dessa a mágoa que me dá / Ela aparecia o dia / Ao romper da escuridão / linda no seu manto todo branco em meio a procissão / E eu que ela nem via ao Deus pedia amor e proteção; e a tema “O Bem Amado”: A noite no dia, a vida na morte, o céu no chão / Pra ele, vingança dizia muito mais que o perdão / O riso no pranto, a sorte no azar, o sim no não / Pra ele, o poder valia muito mais que a razão, o exuberante arranjo de Rogério Duprat e a letra cheia de antíteses foram interpretados pelo MPB-4, que na capa do disco foram marcados como Coral Som Livre, jeitinho de deixar os censores longe.

Em 1975, estreou “Gabriela”, de Walter George Durst. Segundo os arquivos da Rede Globo, a trilha sonora da novela é considerada uma das melhores da teledramaturgia brasileira. Produzida por Guto Graça Mello, é composta de 12 canções inéditas.
Dorival Caymmi compôs o clássico tema da abertura, “Modinha para Gabriela”, que ganhou a interpretação de Gal Costa: Quando eu vim para esse mundo / Eu não atinava em nada / Hoje eu sou Gabriela / Gabriela ê meus camaradas / Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo assim / Vou ser sempre assim Gabriela / Sempre Gabriela. A canção “Alegre Menina”, na voz de Djavan, trazia a música de Dori Caymmi para um poema escrito por Jorge Amado.
Guto Graça Mello também produziu uma trilha complementar para Gabriela, que recebeu o título de “Uma Noite no Bataclan”.

Mas ainda em 1975, a coisa mudou um pouco. Até este período, as músicas eram compostas por encomenda. Mas com “Pecado Capital” (de Janete Clair), o produtor musical Guto Graça Mello conseguiu êxito numa antiga ideia: achava que a Globo teria melhores resultados artísticos e comerciais se trabalhasse com a sinopse da novela e com o catálogo das gravadoras, garimpando o que de melhor elas estivessem produzindo, e escolhendo as músicas de acordo com o que seria realizado nas tramas.

A única composição encomendada foi a faixa de abertura, de Paulinho da Viola: Dinheiro na mão é vendaval / É vendaval / Na vida de um sonhador / De um sonhador / Quanta gente aí se engana / E cai da cama com toda a ilusão que sonhou / E a grandeza se desfaz quando a solidão é mais / Alguém já falou.

Um ano depois, entrava no ar, “Estúpido Cupido”, novela de Mário Prata. O LP vendeu mais de um milhão de cópias. A música tema, versão de Fred Jorge para composição de Howard Greenfield e Neil Sedaka foi resgatada do início dos anos 1960: Ah! Cupido, vê se deixa em paz / Meu coração que já não pode amar / Eu amei há muito tempo atrás / Já cansei de tanto soluçar / Hei, hei, é o fim / Oh, oh, Cupido pra longe de mim. Além deste, Celly Campelo emplacou o hit “Banho de Lua”.

E quem não se lembra de Abra suas asas / Solte suas feras / Caia na gandaia / Entre nessa festa / E leve com você / Seu sonho mais louco / Eu quero ver esse corpo / Lindo, leve e solto? “Dancin’ days”, novela de Gilberto Braga e música Nelson Motta e Ruban, com interpretação das Frenéticas, ficou no ar de julho de 1978 até janeiro de 1979.

Pulando um pouco no tempo, chegamos a 1985 e à triste sátira da exploração política e comercial da fé popular. Dias Gomes, com toda sua força, desenvolveu um enredo que hipnotizou o Brasil. O sucesso, 67 pontos, que nunca foi superado fez com que a trilha de “Roque Santeiro” também caminhasse na mesma esteira e depois de ter vendido mais de meio milhão de cópias em apenas três meses, pela primeira vez, a Som Livre deixou de produzir a trilha internacional de uma novela para lançar um segundo volume com músicas nacionais.

A música de abertura “Santa fé”, de Moraes Moreira e Fausto Nilo, não grudou tanto como as de Sá e Guarabyra, “Dona”: Dona desses traiçoeiros / Sonhos sempre verdadeiros / Oh Dona desses animais / Dona dos seus ideais; “Verdades e mentiras”: Responda depressa quem se acha esperto / Quem sabe de tudo que é certo na vida / Porque que a cara feroz da mentira / Nos pode trazer tanta felicidade / Porque que na hora da grande verdade / Às vezes o povo se esconde se esquece; e, obviamente, “Roque Santeiro”: Dizem que Roque Santeiro, um homem debaixo de um santo / Ficou defendendo o seu canto e morreu / Mas sei que é ainda vivente na lama do rio corrente / Na terra onde ele nasceu.

Uma curiosidade dos arquivos da Globo: Aguinaldo Silva passou a escrever “Roque Santeiro” a partir do capítulo 41, com a incumbência de dar continuidade à trama. Para isso, contou com a colaboração de três profissionais: os escritores Marcílio Morais e Joaquim de Assis, e a pesquisadora Lilian Garcia. Segundo Aguinaldo, quase no final da trama, no capítulo 163, Dias Gomes declarou que gostaria de finalizar a novela, e acabou escrevendo os capítulos finais, a novela chegou até o capítulo 209.

Corrupção, roubalheira, nenhum compromisso com a ética, temas atualíssimos. Hoje e no final dos 1980. “Vale tudo” foi um assombro de audiência, teve assinatura de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères e levou ao ar aqui e em mais de 30 países a inversão de valores que parece que é o modus operandi brasileiro. Na abertura, “Brasil”, de Nilo Romero, George Israel e Cazuza, na voz de Gal Costa: Não me ofereceram / Nem um cigarro / Fiquei na porta estacionando os carros / Não me elegeram / Chefe de nada / O meu cartão de crédito é uma navalha / Brasil, mostra tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim / Brasil, qual é o teu negócio? / O nome do teu sócio? / Confia em mim.

A coluna se espreme para falar mais um pouquinho e com isso sair da supremacia da Rede Globo. O primeiro nome que surge é “Pantanal”, da extinta TV Manchete. Era em outra emissora, mas vários globais de peso emprestaram talento: foi escrita por Benedito Ruy Barbosa e dirigida por Jayme Monjardim, Carlos Magalhães, Marcelo de Barreto e Roberto Naar. Atores como Cláudio Marzo, Marcos Winter, Cássia Kiss e Nathalia Timberg estavam por lá. Na trilha sonora, “Tocando em frente”, de Almir Sáter e Renato Teixeira: Ando devagar / Porque já tive pressa / E levo esse sorriso / Porque já chorei demais / Hoje me sinto mais forte / Mais feliz, quem sabe / Só levo a certeza / De que muito pouco sei / Ou nada sei; e outras tantas maravilhas que muito acrescentaram ao enredo como “Estrela natureza”, de Sá e Guarabyra; outras que têm Almir como estrela como “Chalana” e “Quando o violeiro toca” e a de abertura, “Pantanal”, de Marcus Viana: São como veias, serpentes os rios que trançam o coração do Brasil / Levando a água da vida,do fundo da terra, ao coração do Brasil / Gente que entende e fala a língua das plantas dos bichos / Gente que sabe o caminho das águas, das terras do céu / Velho mistério guardado no seio das matas sem fim / Tesouro perdido de nós, distante do bem e do mal / Filhos do Pantanal.

Antes da despedida, um pedido de desculpas antecipado. A cada edição desta coluna, recebo inúmeros lembretes de músicas que deixei de citar. Não há maneira de esgotar um assunto aqui, mas trato de anotar cada puxão de orelha para, quem sabe, reunir sugestões para cenas de um próximo capítulo.

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