Cine Theatro Palace

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O mais antigo e duradouro cinema de Curitiba estava situado na área entre os fundos do Edifício Garcez e o Instituto de Educação, na rua Voluntários da Pátria. Suas grossas paredes de alvenaria abrigam hoje lojas.

Tudo começou quando foi instalado neste local um Parque de diversões, o Coliseu Curitibano. Dentre as atrações, incorporou em 1905 um “Cinematógrafo”, que se tornou permanente e de grande sucesso. Pouco tempo depois, João Moreira Garcez, proprietário do terreno, construiu um enorme barracão de madeira com frisas, camarotes e plateia para comportar o primeiro cinema de vulto na cidade, com o pomposo nome de cine Theatro Palace.

Postal colorizado mostrando o parque Coliseu Curitibano.

Postal colorizado mostrando o parque Coliseu Curitibano.

Naquele tempo os filmes eram geralmente de curta duração, e o ambiente usado também para outros espetáculos como cantores, revistas, peças teatrais, atrações circenses, reuniões, bailes, chás dançantes. Ao final de 1923, um exibidor chamado Antônio Mattos Azeredo, que explorava outros pequenos cinemas na capital, arrendou o local. Foi acrescentando muitas melhorias e à época do Edifício Garcez concluído em 1933, o barracão já era todo de alvenaria, com a entrada do cinema pelo edifício, que abrigava também a sala de espera e, alguns andares acima, a cabine de projeção, muito grande na época, com enormes equipamentos e arquivos de filmes, dando mais espaço ao já grande auditório. Antônio Azeredo passou a ser, por curto período, absoluto no ramo de espetáculos cinematográficos na capital, assumindo também o grande cine Avenida, inaugurado em 1929. Construiu uma mansão na alameda D. Pedro II, hoje ocupada pelo colégio Sion. Morreu praticamente na miséria, segundo dizem, perdendo tudo no vício do jogo.

Cine Palácio, entrada pelo Edifício Garcez, em meados dos anos 1950.

Cine Palácio, entrada pelo Edifício Garcez, em meados dos anos 1950.

Em 1934, Henrique Oliva arrenda o rebatizado Palácio, atingindo marca como exibidor a partir daí. O cine teatro tinha telhado de zinco, e em noites de chuva forte o ruído atrapalhava muito as funções. Numa destas noites chuvosas, cantava o Vicente Celestino, que era amigo do Oliva e o cinema tinha uma goteira bem em cima do palco. O Celestino, aquele vozeirão cantando “porta abertaaaa…” (dramática música de sua autoria) e olhando para cima. O público ria ligando uma coisa com a outra.

Nas frisas pagava como cinco lugares, mesmo indo duas, ao nível da plateia. Poucos camarotes ao fundo, e a geral, também ao fundo, mas bem acima, com bilhetes mais baratos, assentos de madeira, contínuos, sem encosto, o chamado “poleiro”. Tive um colega de trabalho, bem mais velho que eu e já falecido, que levava as moçoilas nas frisas do Palácio para namorar. Evitava ir em filmes de desertos ou hospitais, pois o ambiente ficava muito claro.

Em 1953, a casa passou por uma grande reforma, perdendo sua condição de teatro, e assim ficou sem as frisas e os camarotes, mas ganhou luxo e tela panorâmica, com plateia e balcão. Os toscos camarins dos artistas permaneceram, pois o Oliva quis respeitar os momentos de glórias dos que por ali passaram.

Em 1967, o cinema sofreu outra reforma, teve o número de poltronas um pouco reduzida, e a entrada passou para o início da rua Voluntários da Pátria.

Cine Astor fechado – na foto, o local com uma proteção azul.

Cine Astor fechado – na foto, o local com uma proteção azul.

Em 1971, já administrado pela Vitória Cinematográfica, uma perigosa rachadura na parede dos fundos da construção apareceu, devido a obras de canalização do rio Ivo, ficou um tempo fechado e reabriu depois de breves reparos. Logo depois, em 1972, houve um grande incêndio, o que levou a mais uma reforma. Desta vez, o cinema foi reduzido ao balcão do cine Palácio, diminuindo drasticamente a capacidade para 500 poltronas. A cabine retirada também do edifício Garcez para a sala e os demais espaços do térreo ocupados pela entrada, sala de espera do cinema e diversas lojas. Surgia o cine Astor em 1977. Inaugurado com o filme “Todos os homens do presidente” (All the president’s men) com Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, produção Warner de 1976, sobre o escândalo Watergate, Oscar de ator coadjuvante para Robards e roteiro de William Goldman.

Em fevereiro de 2000, ao completar 95 anos de exibições cinematográficas neste local, o cinema é fechado, com o filme “A lenda do cavaleiro sem Cabeça” ( Sleepy hollow), distribuição Paramount de 2000, com Johnny Deep, Christina Ricci, Christopher Walken, direção Tim Burton,  Oscar de melhor direção de arte. Primeiro surgiu um bingo e depois mais uma grande loja.

Além de ter sido o primeiro a exibir um filme sonoro na cidade, em suas telas muitas obras marcantes foram projetadas, como “Um lugar ao sol” (A place in the sun), “Assim caminha a humanidade” (Giant), “Os brutos também amam” (Shane), todos os três dirigidos por George Stevens; “Crepúsculo dos Deuses”(Sunset Boulevard), “Inferno nº 17” (Stalag 17) de Billy Wilder, Fellini, “Na estrada da vida”(La strada), Hitchcock, Dassin, e  tantos outros com filmes que nos tocavam de modo muito especial, pois exibia produções de diversas nacionalidades. Quase todos do Oscarito, que também tinha se apresentado em seu palco anos antes.

Segundo dizia o Zito Cavalcanti, cinemas não morrem, eles viram lembranças.

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