Eu acuso!

armando

Paris, agosto de 2017. A cidade-luz está de férias. Não se vê nenhum burburinho em qualquer lugar, seja ele turístico ou não. Aparentemente tudo está calmo. Vários pontos do comércio e restaurantes estão fechados com o anúncio de férias coletivas em suas portas. Todos voltarão ao final do mês ou em setembro, assim eles declaram. O sol se faz presente se contrapondo àquela imagem chuvosa tão tradicional e o clima é de um verão tórrido. Penso que todos os parisienses estão na Côte D’azur ou no Rio de janeiro. A cidade continua linda e tão cultural como sempre foi, exalando paixão no seu cheiro peculiar que arrebatou o coração de muitos como eu. Paris está uma delícia para um andarilho e lá fomos nós mais uma vez em busca do tempo perdido.

Porém, tão logo me pus a caminhar já notei que Paris está diferente. Circula por seus bulevares uma quantidade sem precedente de imigrantes, em sua maioria muçulmanos com seus turbantes, icharbs, túnicas e burqas, tais quais as tribos de beduínos que viviam no século VI, prontos para os dias quentes e as noites frias do deserto. Vi também que há um novo habitante na cidade: o medo. Sim, Paris tem agora o medo a lhe fazer companhia permanente. Forças de segurança da polícia e do exército circulam com armas pesadas e sem cessar pelas suas ruas históricas. Os grandes magazines instalaram detectores de metais e revista pessoal na entrada de suas lojas. As lixeiras agora são de sacos de plástico pendurados em armações frágeis para evitar o pior. Não se pode mais andar tranquilo nos trens e metrô como antigamente. O terror está sempre à espreita e a vigilância eterna agora é uma obrigação da cidade mãe dos Direitos Humanos. As atrações turísticas estão tensas e cheias de gente respirando o pavor de um atentado repentino. Então vejo que, finalmente, o terrorismo religioso colocou Paris de joelhos.

Impossível não lembrar naqueles momentos de reflexão, da carta aberta J’accuse, escrita por Émile Zola, romancista e ativista político francês, publicada no jornal L’Aurore em 13 de janeiro de 1898 e dirigida ao Presidente Felix Faure. A carta acusava os oficiais do exército de forjarem provas de traição e espionagem por puro antissemitismo na injusta condenação do oficial judeu Alfred Dreyfus, no que ficou conhecido como “Caso Dreyfus”. A denúncia de Zola foi fundamental para a revisão do escandaloso erro judiciário histórico que mudou a França e a reflexão sobre o antissemitismo.

Poderia então, tal qual Émile Zola, acusar a França de ser ela própria a causadora do medo nas ruas de Paris, pela sua caótica e equivocada política de imigração desenfreada e sem critério, para justificar seus erros cometidos na colonização e intervenção nos países árabes. Não, ao invés disso, prefiro acusar Paris. E quais seriam essas acusações? Simples como apreciar as correntezas do rio Sena de cima da Pont Des Art. Eu acuso Paris de ter me transformado em seu amante fiel que me arrebatou com sua beleza esplendorosa, por suas ruas históricas e cativantes transbordando arte por todos os cantos, seus monumentais bulevares e sua infinita cultura, turbilhão das paixões humanas. Sim, eu acuso Paris de ser a causadora de minha fixação pela Geração Perdida e pelo reconhecimento de que Hemingway estava certo quando escreveu que ela era uma festa móvel. Acuso Paris de fazer-me apaixonar pela gastronomia francesa, quiçá por sua ancienne cuisine. E também acuso Paris por me apresentar aos seus deliciosos crepes, suas extraordinárias madeleines e seus pães inigualáveis que viraram uma fixação doentia. Tenho tantas outras acusações a Paris que certamente conseguiria fazer delas um livro de muitas páginas.

Agosto estava acabando quando voltamos para partir. As ruas já estavam mais alegres e agitadas e tudo voltava ao normal. Saint Germain de Près respirava festa e liberdade, mesmo que vigiada. Então resolvemos nos despedir daquelas doces luzes, ouvindo jazz depois da meia-noite no Caveau de La Huchette. Lancei então uma última acusação a Paris: a de irresponsavelmente me dar coragem para esquecer o terrorismo e voltar quantas vezes puder para os seus doces braços. Merci et à bientôt, Paris!

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