Feito tudo, é fácil dizer

Eles escreveram. Do épico ao romântico. Do raso ao transcendental. Não deixaram nunca de dizer. Laringes cansadas. Autoridades da palavra, da fala, do incansável viver. Donos da realidade e da representação. Portadores da pena, da tinta, da caneta, das teclas. Autores, cânones, líderes, chefes, artistas, pensadores. Feito tudo, é fácil dizer que nada mais será feito. Com destreza pegaram seus apetrechos e suas técnicas. Escreveram e viram mundo. Fizeram delas outras. Belas, amadas, desejadas, símbolos. Fizeram delas, com elas, para elas. Do épico ao transcendental. E depois de tudo feito, é fácil dizer que nada mais será. E, pois, fizeram bem. Incansáveis nos testes, nos arrumes, na tentativa de se chegar ao belo. À perfeição. Única e esplêndida. E chegaram. E foi. E fim. E não. Feito tudo por vós, é fácil dizer que nada será feito por nós. Mentira. Estávamos lá quando criaram o primeiro texto. Estávamos lá quando o primeiro códex se juntou. Estávamos lá na escrita dos incontestáveis romances e escritas perfeitas. E não só. Fizemos. Mesmo diante das tentativas de silenciar nossas penas. Crescemos em miúdos. Nomes falsos, escritas falsas, falsas nós. E agora, feito tudo, é fácil dizer que nada mais será feito. Faremos. E mais, do raso ao transcendental. Do romântico ao épico. Deixaremos nossas laringes cansadas. Somos também autoridades da palavra. Falada, escrita, explorada.

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