Feito tudo, é fácil dizer

jessica

Eles escreveram. Do épico ao romântico. Do raso ao transcendental. Não deixaram nunca de dizer. Laringes cansadas. Autoridades da palavra, da fala, do incansável viver. Donos da realidade e da representação. Portadores da pena, da tinta, da caneta, das teclas. Autores, cânones, líderes, chefes, artistas, pensadores. Feito tudo, é fácil dizer que nada mais será feito. Com destreza pegaram seus apetrechos e suas técnicas. Escreveram e viram mundo. Fizeram delas outras. Belas, amadas, desejadas, símbolos. Fizeram delas, com elas, para elas. Do épico ao transcendental. E depois de tudo feito, é fácil dizer que nada mais será. E, pois, fizeram bem. Incansáveis nos testes, nos arrumes, na tentativa de se chegar ao belo. À perfeição. Única e esplêndida. E chegaram. E foi. E fim. E não. Feito tudo por vós, é fácil dizer que nada será feito por nós. Mentira. Estávamos lá quando criaram o primeiro texto. Estávamos lá quando o primeiro códex se juntou. Estávamos lá na escrita dos incontestáveis romances e escritas perfeitas. E não só. Fizemos. Mesmo diante das tentativas de silenciar nossas penas. Crescemos em miúdos. Nomes falsos, escritas falsas, falsas nós. E agora, feito tudo, é fácil dizer que nada mais será feito. Faremos. E mais, do raso ao transcendental. Do romântico ao épico. Deixaremos nossas laringes cansadas. Somos também autoridades da palavra. Falada, escrita, explorada.

Leia mais

Deixe uma resposta