Tempos de segunda ordem

fabio

Não gosto de ordens. Detesto palavras de ordem. Reajo às verdades definitivas dos sectários de toda espécie. Não consigo conviver com as minorias organizadas que fazem de seu tema único o explanatório do mundo e saem em pregações, a acusar quem delas discorda de preconceituoso ou politicamente incorreto, esta expressão cunhada pelos néscios de nosso tempo.

Não aceito argumentos reduzidos a slogans que mais expressam ressentimentos que outra coisa. Ando enfarado desses radicalismos gritados por minorias ruidosas. Não há idades menos serenas que as idades da fé. Tanto na vida dos indivíduos, quanto na dos povos. E por infortúnio me foi dada esta quadra para viver. Vejo os movimentos de todas as cataduras e me vem à cabeça que sempre que os homens tomam com fervor inquestionável as suas crenças, ortodoxia e heresia emergem em luta e o desacordo espiritual torna-se conflito irracional.

A experiência de viver nestes tempos de segunda ordem tem sido penosa. O sentido geral da evolução humana nos últimos cinquenta anos pode resumir-se no esforço para conter e vencer a intolerância: a intolerância racial, religiosa e de gênero. Mas também as intolerâncias sociais e até as nacionais. E no Brasil conseguimos recuar ainda mais. Não canso de me perguntar como um país que foi de Villa-Lobos, Niemeyer, Guimarães Rosa, Glauber Rocha e todos os que produziram arte e cultura nos anos áureos de 1950 a 1970 pode ter se transformado nesta choldra que tem como trilha musical o sertanejo universitário, o funk, o axé e outras excrecências.

Recuamos ao paleolítico. A divergência e a diferença são necessárias e inerentes à espécie. Uma humanidade que se reconciliasse numa só cultura, numa só raça, numa única civilização homogênea e unânime, seria afinal intolerável. É o que pretendia Hitler, a sua maneira, a eliminar fisicamente o que considerava descartável na espécie.

Politicamente, ando cético e enraivecido. Depois que abriram as entranhas da corrupção no país, política passou a ser a arte de enfiar a mão na merda. A rigor, a política reduziu-se ao jogo bruto das delações premiadas em que o criminoso passou a ser a figura central do processo. E os heróis, a disputar o lugar mais alto no pódio, são delegados de polícia, procuradores, juízes e ministro da alta corte de Justiça.

As grandes palavras, os programas, as ideias, os altos propósitos patrióticos ou impatrióticos hoje servem apenas para discursos de ocasião. O que realmente predomina é o esgoto, agora a céu aberto. O que anima chefes e chefetes são motivos pessoais nem tão grandes ou estimáveis. A política tornou-se um jogo bruto dominado por sentimentos e paixões mais negativos: a cupidez, o ressentimento, a mágoa, a inveja, o orgulho ferido.

Por escrever a crônica política diária eu pago um ônus pesado. Não é agradável ver de perto a coisa pública e acompanhar o dia-a-dia de seus atores e personagens. A política não é bonita quando vista de perto. Quem não tem o ânimo forte e o estômago saudável, fique na plateia ou vá para casa.

Não sou ingênuo a ponto de afirmar que não gosto de política e que melhor é não saber nada sobre o assunto. Só os imbecis não entendem que a política, mesmo nos seus piores momentos, é sempre importante e decisiva. Não só para os atores em cena, mas para todos, indistintamente. Alienar-se, virar as costas, ou escolher uma reivindicação qualquer para esquecer as outras, é sintoma de burrice irrecuperável.

Mas penso que tudo isso, enfim, ainda seria até tolerável se os nossos governantes e os nossos políticos brasileiros não fossem dotados de uma ambição de mando, de uma vontade de dar ordens, de uma sede de poder absolutamente desproporcionais ao seu talento para governar.

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