Editorial. Ed. 193

Se o Brasil fosse uma empresa, estaria a pedir concordata, ou iria à falência. Países não falem, porém, como firmas, sem detrimento de outra falência, que se impõe à constatação dolorosa de quem, ao menos, tiver um olho: a falência das chamadas classes dirigentes, neste pobre país dado ao uso impróprio das palavras, entre outras a palavra classe. Falência geral, em política e economia, da inteligência e da moral. O país do futuro, conduzido ao longo de décadas por esses timoneiros, progrediu foi no sentido da idade da pedra.

Temos um governo tão deformado pelos vícios do estado patrimonialista quanto os anteriores, partidos formados em torno de interesses e conveniências contingentes e não de ideias, empresários seiscentistas e sindicatos oitocentescos. O País está falido.

É provável que Michel Temer consiga manter seu esquema ecumênico de sustentação parlamentar, juntando fisiológicos, oportunistas e medrosos. Tudo indica que continue trombeteando sobre a recuperação da economia e sua mística preocupação com a geração de empregos e o combate à pobreza, enquanto a miséria se alastra. É inevitável que em sua luta pela sobrevivência no poder, feche os olhos diante de escândalos, homizie ministros acusados de corrupção e que distribua benesses e sinecuras de toda espécie. Nada disso vai fortalecer o seu governo.

Nada disso vai impedir que a sociedade viva um sentimento de urgência para sair da crise e que a ideia de mudança de governo ineptos se sobreponha ao calendário eleitoral. E que o povo, agulhado pela infelicidade e pela frustração, manifeste de várias maneiras o seu inconformismo. As condições já não são propícias para as saídas tradicionais em nossa política, a primeira de rolar os problemas com barriga, a segunda, de endurecer.

O debate de ideias tende a resvalar para um perigosa simploriedade. O que faz sucesso? Há desenhos autoritários, como o de Jair Bolsonaro, medrando em cabeças notáveis e a ganhar adeptos em todo o país. Uma pregação abjeta de caráter que beira o fascismo. E temos a pregação populista na outra ponta, a oferecer o mesmo salvador da pátria, Luiz Inácio Lula da Silva, que outro disponível não há. As correntes ditas de centro se desmoralizaram nas devassas contra a corrupção, pela demonstração de incompetência ou mesmo pelo oportunismo mais escrachado, como o dos tucanos, que participam do governo mas fazem de conta que estão contra ele.

Na queda livre poço adentro atingimos profundidade nunca alcançada. As velhas soluções não se prestam a uma novidade tão imponente e tão negativa que é a revelação das entranhas do sistema de governo, afundado em corrupção.

O caminho ainda menos arriscado é o da democracia e das reformas. Mas seria necessário, de fato, um notável rompante de inteligência e de rigor moral para compreender, por exemplo, que essa rota transita necessariamente pela afirmação da soberania da Constituição. Não pode o País viver sob esse regime de interpretações jurídicas que a cada momento devolve ao STF o centro das decisões.

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