O Brasil desiste, Temer resiste

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Com 3% de aprovação e 84% de rejeição, Michel Temer é o presidente mais odiado da história da República brasileira

Cartesianamente, vamos direto aos dados. Após um mês de Governo Temer, isso lá em junho de 2016, 53% desaprovavam-no e 66% não confiavam em sua pessoa. O óbvio ululante é que o impeachment não veio para pôr o atual presidente, a nação e o Congresso estavam fartos de Dilma e PT.

Um mês depois, 14% consideravam a atuação do peemedebista como ótima/boa. Em setembro do mesmo ano a falta de confiança em Temer estava em 68%, em dezembro em 72%. Na comparação com o governo Dilma Rousseff, 42% acreditavam que o governo de Temer estava sendo igual, 34% acreditam que estava sendo pior e para 21%, melhor. Não é dito nestas palavras, mas nos dados de dezembro de 2016, a população considerou o impeachment um erro naquelas circunstâncias, ou seja, colocar o Temer no lugar.

Ao completar um ano, o governo Temer comemorou a data sob reprovação de 61% da população. Oito em cada dez brasileiros, neste aniversário sem bolinha de queijo e brigadeiro, disseram que ele fez menos pelo país do que esperavam que fizesse.

Se todos os escândalos de corrupção que seu governo enfrentou não fossem suficientes, Temer caiu na armadilha de Joesley e áudios foram divulgados, o que tá dando pano pra manga. Um mês após o primeiro aninho do governo Temer, apenas 7% o aprovavam. A rejeição batia a marca de 69%, parece que o objetivo do presidente era superar Dilma Rousseff, cuja façanha foi ser a mais reprovada nas pesquisas Datafolha, com 71%. Pode ser mais humilhante: de 0 a 10 a nota de Temer era 2,7. E sem contar, que neste junho de 2017, a maioria dos brasileiros acreditava que o presidente estava diretamente envolvido nas denúncias realizadas pelos irmãos Batista. Para 83%, Temer teve participação direta nos esquemas de corrupção. Neste período, 79% da população pedia o pescoço do presidente. Para efeitos comparativos, às vésperas do impeachment, 60% eram a favor da renúncia de Dilma. Depois destes escândalos todos, ainda em junho deste ano, oito em cada dez (83%) preferiam que o Congresso mudasse a Constituição para realizar novas eleições diretas para presidente da República. Ninguém mais aguentava a podridão do governo Temer.

Tem mais.

Em setembro deste ano, 84,5% reprovavam Temer, nesta mesma pesquisa da CNT/MDA (as anteriores citadas são dados do Ibope e Datafolha), apenas 3,4% avaliaram positivamente a administração federal, deste número 2,9% estão no “bom” e 0,5% no “ótimo”. 0,5% no “ótimo” deve representar apenas os amigos e familiares de Michel Temer. Para comparação, o Ibope realizou pesquisa no mesmo período, a desaprovação estava em 89% e a avaliação positiva com os mesmos 3%. Michel Temer é o presidente mais rejeitado da história da República brasileira. Mais. Uma rejeição como esta não possui antecedentes na história brasileira: de Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, ainda submetido aos poderes da coroa portuguesa, até Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar o posto máximo da República.

Todos os dados apresentados são mais do que suficientes para dar o subsídio à afirmação que o presidente Michel Temer é um desastre, seu governo já está recheado de escândalos, alguns mais escandalosos do que outros.

Constantemente o governo é alvo de cartas, pedidos, exigências da sociedade civil insatisfeita com sua administração. O último, até o fechamento desta matéria, veio da parte de 23 cientistas do mundo, laureados com o Prêmio Nobel, expressando “forte preocupação com a situação da ciência e tecnologia” do país. O governo Temer reduziu o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações em 44% este ano e pretende reduzir mais 15,5% no ano que vem. Ou seja, o ministério responsável pela produção pensante do país sob o governo Temer será reduzido em 60%.

O Brasil não quer o Temer, nunca quis. Por que então ele continua? Por causa do ignóbil Congresso – 75% dele nos últimos 14 meses votou alinhado com a posição de Temer. Dos encontros entre Executivo e Legislativo, surgiu a história de que Michel Temer teria “comprado” o apoio da Câmara na primeira vez em que foi denunciado – por corrupção passiva. Em troca de apoio, teria prometido facilitar a liberação de emendas e viabilizar a distribuição de cargos públicos.

Para o cientista político Antônio Celso Alves Pereira, “esse troca-troca, com um presidente disposto a fazer as vontades dos parlamentares, acaba contaminando não apenas a divisão dos poderes, mas a própria democracia”. “É justamente para evitar essas negociatas que um julga o outro”, acredita o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Responsabilizar o Congresso Nacional é reducionista. Em termos práticos, a culpa é também dos deputados e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). No entanto, o lance é mais, vai além.

Michel Temer é um erro na história política brasileira. Em qualquer sentido que se queira definir. Temer é a representação do Brasil antidemocrático, autoritário, do Brasil dos coronéis. Temer é o símbolo do que Raymundo Faoro chamou de “donos do poder”. Ele não é o único. E hoje o problema do Brasil não mora apenas nos palácios executivos ou legislativos, o país sangra nos tribunais. O judiciário tornou-se a ditadura velada da democracia, não tortura com choques ou afoga em barris, mas baseado em “leis” prende reitores e faz espetáculo para a classe média aplaudir e colar adesivos. Procuradores, promotores, juízes e até ministros da Suprema Corte parecem que hoje buscam processar, prender, condenar alguém para aparecer no Jornal Nacional, para massagear o próprio ego, para mostrar que “aqui em Curitiba se cumpre a lei”.

Apesar do judiciário, um problema que deve ser tratado a parte e de maneira bastante combativa, é inadmissível que um presidente com 3% de aprovação continue a exercer o poder porque tem 75% do Congresso. Temer afastou-se da população e não representa nem em níveis mínimos, quando no começo do seu governo representava, a vontade popular, isto é ser antidemocrático. O governo Temer rompeu com o povo brasileiro. Por que este povo não se mobiliza como outrora? Por que este governo tem 75% do Congresso? Custa acreditar que é por causa de reuniões e telefonemas, como se sugere. A discussão não está mais no patamar se as instituições brasileiras funcionam ou não, podem funcionar, não interessa, este governo não deixará de ser antidemocrático, não há democracia com 3% de aprovação.

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