O tsunami conservador: o projeto de poder dos políticos evangélicos

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A laicização do Estado garante a liberdade. A liberdade garante a participação de todos em qualquer espaço. Inclusive o de poder. A liberdade, tão cara a democracia, garante que religiosos penetrem ambientes políticos a partir de sua legitimação: base social concreta e expressiva. Eles são e estão. E agora?

É a partir desses fatos que começamos a pensar a complexidade nas discussões sobre política e religião e a intensa relação que pelo menos no Brasil vem mostrando outras facetas há pelo menos 30 anos com a entrada de evangélicos e seus projetos de poder na política. Face já conhecida, face que gera dúvidas e medos.

Pois bem, voltemos um pouco. É evidente para quem conhece a História do Brasil e de outras civilizações ocidentais que a religião e a política estabeleceram diálogos e relações íntimas por séculos. Se confundiam, se estimulavam e se mantinham. Na Idade Média, com o auge do poder da Igreja Católica, a instituição cresceu e dominou terras, corpos, mentes e claro, a política. Só estava no poder, só podia ser o Rei, quem era o representante do divino na terra e assim creditado pelos líderes religiosos. A mentalidade da Idade Média foi constituída com bases no cristianismo e seus preceitos. Esse vínculo não foi ameno e sem maiores conflitos e dentre os tantos questionamentos e debates que a relação religião-política suscitou, o mundo ocidental se viu no impasse e na tendência a abandonar um Estado contaminado pelo poder da Igreja. Eis que o Estado Laico se firma. Para se fazer política, os dogmas, os preceitos e os princípios religiosos deviam ser deixados de lado.

Os moldes europeus foram propagados por todo mundo ocidental. O Brasil não ficou de fora, em 1891, com a primeira Constituição após a Proclamação da República, temos a máxima para a separação entre Estado e Igreja. E em nossa última Constituição, de 1988, os parâmetros da distância entre o Estado e a representação de uma religião se mantêm com pontos principais de liberdade e respeito às crenças de todos os tipos e da proibição do Estado em estabelecer cultos religiosos. A ressalva é: A participação e a relação entre os dois polos só é aceita quando há “colaboração de interesse público”. Cá está o ponto.

A partir dos anos 1980, com a redemocratização, uma corrente evangélica adentra o ambiente político. E não só, os evangélicos não políticos também multiplicam-se. De acordo com Magali do Nascimento Cunha, doutora em Ciências da Comunicação, para a Carta Capital, o aumento dos pentecostais (representado pela Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, Deus é Amor, entre outras) pode ser observado na década de 1980, com promessas de cura, exorcismo e prosperidade que chegaram a uma população que sofria com inflação e precariedades em serviços públicos. E também na década de 1990 com certa manutenção da economia, os pentecostais vão aliar ao seu discurso a prosperidade não só como saída dos problemas, mas como ascensão social e econômica. Como exemplo, na Igreja Universal do Reino de Deus, há o culto dos empresários, mas não há dos trabalhadores.

E é na votação para a Assembleia Constituinte de 1986 que as igrejas se mobilizaram para angariar representantes no Congresso. Ao todo foram 32 eleitos. O grupo, então, entra para a política institucional. De acordo com o pesquisador e antropólogo da Unicamp, Ronaldo Almeida, para o Nexo Jornal, o que prevalecia até então era que “crentes” não participavam da política. O discurso muda, a partir daí “irmão” vota em “irmão”. A pátria mãe sempre tão distraída é inundada por mais uma onda conservadora mantenedora de valores e princípios que não servem a todos.

É sabido que com a proclamação da República e com a decisão pelo Estado Laico as influências religiosas não cessaram. As relações com as decisões institucionais não se dão rapidamente e a cultura mantêm resquícios e não se altera com facilidade. O Brasil e sua diversidade para todos os âmbitos mantêm suas religiões entre os povos e a política não foge a toda essa força e fervor. Há muitos anos o catolicismo também interfere na dinâmica social, política e cultural do país. Pois bem, o cidadão comum não deve se distanciar de sua religiosidade. Mas o político quando representa a todos precisa considerar o diverso. E isso é urgente.

A entrada desse grupo na política institucional não é ilegítima. Como o primeiro trecho desse texto traz, o grupo possui base social concreta e expressiva. A democracia respalda seus votos e suas eleições. A crítica e o questionamento não devem cercear a participação de certos políticos e sua liberdade em expressar suas opiniões. A esse aspecto todos e todas deviam saber e poder gozar em usufruto. E também, outro ponto relevante é que nem todos os evangélicos apoiam a participação de seus comuns na política e também nem sempre votam nos “irmãos”. Existem setores evangélicos que não investem na via eleitoral e não são alinhados ao conservadorismo. O que está em destaque, pula e grita, é um grupo que fala em nome dos evangélicos e representa a sua maioria.

Na última pesquisa divulgada no dia 23 de outubro de 2017, o Datafolha apontou que o Brasil é um país que crê em Deus (98%) e é sobretudo cristão. A presença evangélica dobrou de 2000 para cá: de 15,4%, segundo o Censo, para os atuais 32%. Já católicos murcharam de 73,6% para 52%. E nomes evangélicos na política estão cada vez mais em voga a proclamar suas posições nos debates públicos. Dois grandes exemplos são o deputado Marco Feliciano do PSC e o atual prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella do PRB. Nos dois casos as posições religiosas são sempre encaradas junto da política, não se descolam e são assim trabalhadas em prol de toda a população. Suas pautas rodeiam a manutenção da família tradicional e tudo que pode interferir em sua posição tão bem consolidada.

Marcelo Crivella é sobrinho de Edir Macedo, dono da TV Record e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, passou dez anos na África, onde foi missionário com o projeto de evangelizar o continente. Em seu livro-relato destacou, e é diversas vezes lembrado por isso, seus apontamentos sobre as religiões de matrizes africanas, quando as classificou como diabólicas. O livro Plano de poder: Deus, os cristãos e a política de seu tio demonstra as ambições desse grupo em colocar os evangélicos na linha de frente da política. Crivella, em 2012, num vídeo disponível no YouTube, declara seu desejo em ver um evangélico presidente do Brasil. O desejo está em andamento. Com a sua chegada à prefeitura de uma das principais capitais do país o plano de poder mostra-se vivo.

evanja_2_felicioMarco Feliciano tem uma postura mais polêmica, pois não se detêm em participar de qualquer debate fora dos âmbitos institucionais que lhe aparece. Convoca os evangélicos, cria hashtags, se rebela contra qualquer ato contrário às suas posições. Um dos últimos casos é sua revolta contra o sabão em pó Omo que disponibilizou um vídeo em seus canais eletrônicos pedindo aos pais e as mães para fazerem um “recall” de todas as brincadeiras que reforcem estereótipos de gênero, com o objetivo de ressaltar que meninas podem se divertir com cozinhas, mas também podem brincar de carrinhos e assim por diante. Um vídeo simples com provocações necessárias aos dias de hoje. O pastor, que no seu aniversário postou um vídeo lavando louça porque suas filhas estavam ocupadas (#quedó), declarou guerra à marca. Indignado e aborrecido, acredita que a Omo tinha objetivos concretos em destruir a família tradicional brasileira, chama então seu time a boicotar a marca. Não comprem. Não assistam, não leiam. Foi assim também que pediu boicote à Rede Globo e à Revista Veja. Todas as suas justificativas deixam claro suas posições de político e de pastor evangélico. Que se assimilam e não se desvinculam.

Para o deputado/pastor, tratar das discussões de gênero no âmbito escolar, nas novelas e nas matérias jornalísticas é declarar guerra à Família Tradicional Brasileira. Aquela do comercial de margarina. Mamãe, papai e filhinhos. Tudo que fugir o comercial é estranho, é diferente. A transsexualidade, tema tratado em uma novela da Rede Globo nos últimos meses, foi tida para o pastor como “diabólica”, como se as pessoas trans trocassem de sexo ao “bel prazer”. Essas palavras do pastor carregam preconceitos explícitos e a liberdade de expressão e opinião as legitimam. A questão é: Marco Feliciano é político para quem?

A religiosidade desses políticos não representa a todos. Evidentemente. Mas ao mesmo tempo em que uma parcela é representada, eles esquecem, apagam e silenciam outras. O diverso é considerado demoníaco. Como se o Estado Laico e a Constituição não existissem, eles desconsideram a diferença. Excluem outras formas de vida. E não só, regulam e ditam formas corretas e aceitáveis de se colocar no mundo. Formas de amor, sexualidade, religião e gênero. Um discurso que não considera a liberdade em construir diferentes eus e nós. Justificando em nome de Deus e da família. Qual Deus? Qual família?

As suas crenças e formas de vida seriam um problema somente deles se não desejassem regular as maneiras outras de encarar o mundo. Mas o que demonstram com seus projetos de poder é excluir e silenciar cada vez mais. Com suas convocações e ordens de boicote a qualquer um que argumente o contrário, a demonstração é de que a política é um meio viabilizador de expansão da religião. Como se todos fosse um. E não, somos vários e diversos. E não respeitados por eles.

O que os últimos anos mostram é que o caminho para a democracia plena encontra-se cada vez mais distante. Não há democracia quando os corpos não são livres para serem o que são. Não há democracia quando o presidente do país não reconhece outras concepções de vida. E como vimos, eles querem chegar lá. Deixaremos?

Vivemos tempos difíceis e beiramos a tentativa de outros ainda piores. A liberdade vem sendo apagada. Sutil e ferozmente, eles se colocam de um lado quando estão num meio em que, a princípio, deviam buscar a representação de todos os outros. A política contaminada por dogmas causou mortes em nome de um único Deus em períodos passados. A História sempre pode nos dizer o que não fazer. E mesmo que ressuscitar outra época seja impossível, precisamos estar atentos às ressignificações que podem fazer do tempo presente, trazendo características de períodos que levou pessoas à fogueira por fugir à religião oficial. Somos muitos e diversos. E precisamos ser respeitados por isso. Para que nossa pátria acorde e se levante, tire do papel e traga para a prática a liberdade de sermos os vários de nós.

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