A última vez que vi Mané Garrincha

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A última vez que vi Mané Garrincha jogar
não foi em Estocolmo, na final de cinquenta e oito,
derrubando joões suecos ridicularizados pelo drible
repetido,
previsível,
sempre do mesmo lado.
Sempre incompreensivelmente eficaz.
Não foi no Chile, em sessenta e dois, garantindo o bi
E o orgulho nacional, sem Pelé, devastando defesas
tcheca, chilena, russa,
todas mais.
Não foi no Maracanã, com a camiseta do Botafogo,
derrotando o meu Flamengo.
A última vez que eu vi Mané Garrincha jogar
foi num pequeno estádio, menos que isso,
num pequeno campo de futebol do interior.

Mané Garrincha parecia inchado,
lento,
arfante,
cansado,
louco para terminar o jogo
e ir embora
no primeiro avião.
Mas ainda tinha olhar de menino, ainda tinha graça,
ainda tinha o drible e os joões daquele dia caíam
de bunda no chão e riam orgulhosos para a plateia
de sua pequena cidade.
Orgulhosos de terem sofrido o mesmo drible,
o mesmo engano,
a mesma jogada,
o mesmo Garrincha
os colocava na galeria de todos os grandes joões
que foram ultrapassados pela bola e pelo corpo
de Mané Garrincha
De forma incompreensível,
inacreditável,
impossível
de explicar.
Ainda hoje esses últimos joões contam e recontam
o inexplicável, os joelhos deslocados, derrubá-lo
só a tiro, o drible indefensável que só Mané Garrincha
ninguém mais,
antes ou depois,
conseguiu repetir.

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legenda: Na foto, chegada de Elza Soares e Garrincha em Foz do Iguaçu, anos 60, quando ele foi contratado para um jogo demonstração com a camisa do Flamengo de Foz.

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